A filosofia de Cito

Estávamos por essa altura a fabricar ideias, um olhava o outro, sempre um pouco daquela luta brava, o estudo do adversário, a barreira invisível entre o confronto e a colaboração. Eu era o jornalista colector de relatos (de mapas cor-de-rosa), o homem da língua de perguntador que perguntava nesse instante a Nelson Cito, o famoso corretor paulistano convertido a empresário do betão, qual o sentido da sua nova vida.

Cito, uma personalidade sulfúrica, respondeu enfadado, próprio de quem tinha mais que fazer à vida (mesmo a nova, de pé descalço) do que perder tempo com o existencialismo balnear. “Bem, cara, não sei se é esse o seu pensamento subtil, mas um empresário não tem que ser um filho da puta que não vê nada mais à frente senão a engorda da conta (aquilo que se podia dizer em acordo ortográfico trocar a pátria por uma conta bancária)”. E prosseguiu a sua tese de peso. “Até o rico pode ser consciente e comprometido com o ambiente, sem tirar dividendos para lá de acarinhar a mãe natureza.” Embora dita de forma convicta, no timbre do político empenhado na defesa da sua dama, a resposta de Cito podia ser nada mais do que um exercício de estilo. Era imperativo ver para crer os grandes acontecimentos que tomavam forma na tristemente célebre Costa do Cacau, dizimada no pretérito recente por uma praga medonha chamada de vassoura de bruxa.

Na altura, o Verão brasileiro de 2003, havia já um total de 16 empresários a investir nos 65 quilómetros da Costa do Cacau que uniam as cidades de Ilhéus e Itacaré (pedra bonita em tupi-guarani), o que, bem vistas as coisas, corroborava a tese das minhas fontes locais de “grana, muita grana a rolar por ali”. Foi o próprio Cito a mostrar-me a linha de costa, a mata, os morros, a fazenda onde Che Guevara pernoitou depois de receber a comenda das mãos do presidente Jânio Quadros pelos seus feitos em Cuba e antes de partir para a última viagem nas matas da Bolívia. Foi o próprio Cito a remar a canoa nativa e a levar-me a lugares vedados onde nunca iria, como a curva do rio na Caranha capaz de atrair ao baptismo e à profissão de fé a alma mais profana. Cito mostrava a sua obra e a dos outros, a concorrência (que estava fazendo tudo direitinho) e em particular a do Altíssimo, segundo ele o Único que entendia desse negócio de fazer coisa bonita. Depois, podiam vir os homens e aprimorar ou fazer “um montão de merda”. Para Cito e os arautos da Costa do Cacau, o dever do cidadão e do empresário era antecipar o desastre, zelando pelo que é património de todos: a terra, a água, a mata.

Vistas e revistas as belezas intocadas (ou tocadas com mão esperta e feliz), concluí que o que salvara Itacaré do saque operado noutros lugares do Brasil, como o Morro de São Paulo ou Fortaleza, fora o bom senso dos indígenas avisados que tinham lutado até fazer do lugar uma Área de Protecção Ambiental e Reserva de Biosfera da UNESCO, onde, além do honorífico título, passou a ser proibido construir casas com mais de dois andares, sendo o perímetro de construção limitado ao essencial. Ou seja, números exactos, 20 chácaras – casas de madeira e pedra – por cada hectare e sem mais extras do que hortas de cultura biológica, piscinas naturais e trilhos de caminhada por matas virgens. Escrevi então que isto era uma vitória do chamado turismo sustentável e o mundo devia pôr os olhos neste lugar incensado pelos aromas das riquezas mais extremas (as da preservação), onde Jorge Amado vira pasto abundante de inspiração, como a famosa nêga Gabriela que ali se passeara alegre e fagueira. Perguntei-me o que fazia dessa costa ser a nova perdição do brasileiro, além do que me passava à frente das pupilas e das narinas em êxtase, sobretudo o cheiro, a brisa da terra, as praias escancaradas para o meu solitário budismo de Inverno e nudismo de Verão (e era Verão, felizmente). Não tinha o Brasil 2500 quilómetros de praia de encher o olho? Havia Trancoso, havia Fernando de Noronha, havia muitos brasis, mas nada derrotava uma amostra de Brasil assim, com praia sim, praia sim superando a anterior e onde apetecia correr como um gamo e desfalecer de amor à vida de viajante.

Voltei à Costa do Cacau em Novembro passado, nesta ronda do Endereço Desconhecido. Voltei como quem volta à casa de amigos de longa data. Sabia da fama conquistada, da pressão de construir e engolir a mata e saquear as praias. Sabia das visitas assíduas de monsieur Sarkozy, que para ali deslocava o recreio do Eliseu, ostaff e o staff do staff. Mas nada pudera ainda contra esta assoalhada do Paraíso. Nem o turista incauto, o empresário furtivo, o governo corrupto, todos clientes assíduos do que está a dar. Depois havia a parte boa, o happy end, o renascer das carcaças das velhas fazendas esventradas pelas vassouradas da bruxa, dos engenhos do cacau comidos pela ferrugem que voltavam a derramar a seiva do cacau para adoçar a boca do viajante epicurista. E Cito continuava lá, muito mais rico do que no último encontro. Um Crusoe que se elevara dos desertos da ganância às custas de muitas horas ao relento, de perna tatuada com um dragão chinês, de chinelos nos pés, barba (e barriga) de Hemingway, cingido de espada e conhecedor do combate em nome do terror que há nas mais belas noites e paisagens tropicais.

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Entre Agosto e Dezem­bro de 2011, o escri­tor e via­jante Tiago Sala­zar andou por 12 esta­dos bra­si­lei­ros a reco­lher con­teú­dos para o pro­grama Ende­reço Des­co­nhe­cido (a exi­bir na RTP2). Estas cró­ni­cas são o resul­tado do que acon­tece aos via­jan­tes quando se entre­gam ao prin­cí­pio de que são os paí­ses e os luga­res que os atra­ves­sam — e não o con­trá­rio. http://tiagosalazar.com. Ende­reço Des­co­nhe­cido no Face­book. Com o apoio da agên­cia Nomad

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