No templo de Brennand


A estatura do homem (rente aos dois metros) não faz o tamanho do artista, nem a produção industrial de obras de arte (pinturas, esculturas, cerâmicas…) lhe decretam o talento. Mas este é o artista de quem se pode louvar integralmente a obra e a arte, tão grande é uma como a outra. O artista é Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand, nascido a 11 de junho de 1927, na cidade do Recife, Pernambuco. Na História da Arte Universal basta Brennand, como bastam Picasso, Bourdelle, Rodin ou Pomar. É o eco do apelido a ditar a dimensão cósmica do trabalho singular. É disto que se trata, de trabalho autenticado, no meio de catadupas de referências, citações, piscares de olhos, parafraseares, de Gilgamesh a Frank Zappa, de Jorge Luis Borges a Roberto Bolaño, Ricardo Piglia, Pessoa ou Holderlin.

De olhos conduzidos pela ponta da bengala-cajado-cinzel de Brennand, podemos descobrir ainda, naquela galeria de horrores como já lhe chamaram (a seu contento, esta fiel ao horror de Joseph Conrad), diálogos intensos com Da Vinci, Baudelaire, aves da ilha da Páscoa (pássaros Rocca) ou a Palas Atena, a deusa grega da guerra. Porém, na cabeça de Brennand tudo são apenas ovos nascidos do ovo primordial. Ovos e aves são recorrentes no seu trabalho e têm-lhe acompanhado todo o percurso. Segundo gosta de dizer, “coitada da forma que não couber dentro de um ovo. O desejo pertence ao ovo e a sua sede encontra-se abaixo do nível da psique. São formas ligadas à sexualidade e à presença de elementos roubados da anatomia do homem e da mulher: o começo da vida”.

Ouvir Brennand é viajar no tempo e na arte primitiva. Estamos agora à boca do forno, onde os “dentes da labareda são implacáveis”. As frases soam como mantras. Aqui a escultura cerâmica permanece “moderna” no forno-túnel e sai, depois de sucessivas queimas, com 10.000 anos. Coloca-se no limbo diante das chamas e surge prodigiosamente bela e purificada no paraíso. Mesmo o inesperado acidente faz lembrar a força inelutável do fogo e, portanto, o que ele destruir ou vivificar são marcas do destino. O fogo devora a cor, que se parece refugiar no núcleo da peça, “no coração da matéria”, sobrando um colorido enferrujado, turvo, opalescente, uma tonalidade de quarta-feira de cinzas, distinguindo apenas, aqui e ali, algumas flores cor de fogo. “Penso que não foi por outra razão que Novalis tenha presumido que “a chama é de natureza animal”. Em suma, a magia que faz o homem descobrir a possibilidade de transformar as coisas, como um demiurgo.

Faz 40 anos que Brennand começou a reconstruir a velha Cerâmica São João da Várzea, fundada pelo seu pai em 1917, e hoje um colossal projecto de esculturas cerâmicas onde chegam excursões de turistas como entusiastas dos enigmas do Egipto. Brennand recebe diariamente as visitas por igual, de doutores da Accademia interessados em bate-bolas sobre Arte e Mitologia, a japoneses de Handycam convencidos de estar ali a segunda obra mais importante da Humanidade, depois da Mona Lisa: o ovo de Brennand. Dia após dia, o oleiro (como gosta mais de ser tratado) dá as suas aulas livres de pintura, escultura, cosmogonia e jardinagem, com a mesma devoção e generosidade entregues ao diálogo com as pedras. O escopro e o cinzel estão pousados, os fornos laboram a meio gás, mas Brennand não fechou a loja e anda ocupado na escrita do testamento ou do seu Oráculo Contrariado. A Itália renascentista fermentou-o e aos seus caudais de pintor, escultor (em bronze, mármore e cerâmica), ourives, músico (de ouvido) e praticante do amor universal.

“Ser artista significava ser mestre de todas as artes”, diz Brennand entre deambulações por cisnes australianos no jardim Burle Marx e antes de esbarrarmos no paredão da frase de Wittgenstein gravada pelo seu próprio punho. “A arquitectura eterniza e glorifica alguma coisa, por isso não pode haver arquitectura onde não há nada a glorificar”.

Nas alamedas de buxos, os empregados comentam jocosos a fama de Brennand entre as mulheres e de como nesta matéria (de peso) o mestre nunca perdeu o fulgor. “Amo o amor e as mulheres mas nunca fui um Henry Miller ou um Casanova”. A bússola é Deborah, a mulher de sempre, poetisa e mãe dos filhos. O amor, a virilidade, a fecundidade, e sobretudo a alquimia, ou o feitiço, atravessam a obra de Brennand.

Aproximar a cerâmica do feitiço não é uma associação ocasional e sim uma realidade, embora uma realidade que lhe escapa e sobre a qual confessa não ter nenhum poder. “Quando eu pinto, sou um artista ocidental. Quando faço cerâmica, não tenho pátria; minha pátria é o abismo pelo qual vou resvalando sem saber o que encontrarei no fundo. Como tenho arrefecido os meus ardores, sigo planando sobre os desfiladeiros”.

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Entre Agosto e Dezem­bro de 2011, o escri­tor e via­jante Tiago Sala­zar andou por 12 esta­dos bra­si­lei­ros a reco­lher con­teú­dos para o pro­grama Ende­reço Des­co­nhe­cido (a exi­bir na RTP2). Estas cró­ni­cas são o resul­tado do que acon­tece aos via­jan­tes quando se entre­gam ao prin­cí­pio de que são os paí­ses e os luga­res que os atra­ves­sam — e não o con­trá­rio. http://tiagosalazar.com. Ende­reço Des­co­nhe­cido no Face­book. Com o apoio da agên­cia Nomad

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