O dragão polaco

Ontem à noite fui beber um copo ao Dragon Bar, a dois passos da praça central de Poznan. Deve o nome à cabeça do bicho que lhe decora o balcão e deve a popularidade à ausência de horário para a animação que se produz sob o seu focinho. É portanto o tipo de sítio onde as coisas começam a aquecer quando passam a esmorecer noutras freguesias. A decoração tipo squat faz justiça à clientela jovem e boémia, mas o sítio também tem piada pelos espaços que ocupa: um dédalo de divisões minúsculas, irregularmente distribuídas por quatro andares à volta de um pátio interior.

À hora em que lá entrei o Dragon ainda estava a meio gás e por isso não pude deixar de reparar no cromo sentado sozinho a meio do balcão. Vestia um casaco preto tipo smoking por cima de uma camisola interior de alças branca e botas de cano alto sobre calças de cabedal, ambas pretas. De uma das mãos pendia um copo de vinho mais que vazio. Parecia uma jovem estrela rock com os copos, excepto que tinha barba e cabelo completamente brancos e nada menos de 60 anos de idade.

Não foi tanto o teatro dele, mas a indiferença generalizada que me impressionou, incluindo o surpreendente fechar de olhos dos empregados perante um acto de assédio tão descarado. Só fiquei sem saber se foi um caso isolado, ou se em Poznan os bares têm mesmo o hábito de tratar os loucos, os vadios e outros marginais como clientes VIP. Vai daí começou a olhar fixamente para uma mulher que se veio sentar ao meu lado e que devia ter idade para ser filha dele. Não estava apenas a admirá-la, longe disso, mas a meter-se com ela à força toda. Às tantas, deve ter resolvido mudar de estratégia de engate, pelo menos passou a procurar chamar a atenção exibindo os ombros despidos por baixo do casaco. Na ausência de feedback da parte da senhora e da indiferença do resto da clientela, o Don Juan fora de prazo acabou por tirar o casaco e mostrar o tronco já um bocado flácido, antes de sair teatralmente para a noite entretanto salpicada de neve.

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Luís Maio (tex­tos e fotos) viaja na Poló­nia a con­vite da TAP e do Turismo da Polónia

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