Brasil: A viagem como ela é (notas soltas)


Amor,
Como é que um homem vai para a guerra a amar perdidamente? Percorro mapas cor-de-rosa. Percorro estradas de cansaço. O meu matadouro em forma de desvario é esta viagem solitária. Isto pertence-te. Estava escrito no caminho, e não foi preciso escalar um vulcão. Estava debaixo das pedras da nossa estrada de caminhos que por vezes se bifurcam.

Lava
fome da tua fome
da tua boca na minha boca
fome de ternura pura, fome nua
daquilo que olhos nos olhos se diziam
quando palavras partiam
para longe do silêncio
da descoberta
das tuas mãos nas minhas mãos
no meu corpo
no teu dorso a minha língua
percorre estradas de pequenas gotas
de cansaço que convergem num só ponto,
no epicentro do teu mapa
traço rotas invisíveis com os olhos
com as mãos…
comigo todo já em ti, em nós.
Era lava que percorria o meu corpo
lava na cama do meu ventre
Meu amor de longe, meu amor de sempre!

Vejo um país motivado, confiante, sem lamento, festivo, um país que bebe, fornica, dança, canta, brilha para onde quer que se dirija o olhar. A bordo do machimbombo conta-se a história do “treco” que estava rolando, a mulher que gemia (como uma prostituta, coisa profissional, portanto) e a vizinha careta, que denunciou a ocorrência por poluição sonora. 5-0, perdeu a vizinha na votação de bordo. E perdeu na justiça, tendo que indemnizar a ré por incontinência verbal.


7 de Setembro

Janto numa casa original do Projecto Piloto de Brasilia (a ideia visionária de Óscar Niemeyer). A casa, que podia ser um T4 dos Olivais, é da irmã da guia Daniela (Carla, psicóloga junguiana). Os pais e o irmão juntaram-se sem me conhecerem de lado nenhum e logo ali de repente (não mais que de repente) adoptaram-me como um velho amigo da casa. Fala-se de vários temas de peso, como a confirmação da estória da cachaça de Minas preferida por Juscelino Kubitschek*. O pai, J.C.
Fragomeni, médico, biosofista, cientista (autor de dúzias de livros desconhecidos, e todos brilhantes, da poesia ao ensaio) fala num tal de João de Abadiânia, o médium que Oprah Winfrey tornou famoso, autor incontestado de curas milagrosas e cirurgias espirituais. Fala-se do fim do mundo marcado para dia 21 de Dezembro de 2012. De mochileiros que andam com a mochila para o caso de o mundo acabar e ser preciso um farnel (o método dos mórmons). Ou a história de Einstein que passeava na praia quando observou um rapaz que catava estrelas-do-mar na areia e as devolvia ao mar. O cientista perguntou-lhe por que o fazia e o rapaz respondeu que as devolvia ao seu lugar. Imbuído da razão, Einstein explicou-lhe que o trabalho era em vão, pois as poucas estrelas que devolvia, se comparadas ao tamanho do mar e à quantidade de estrelas-do-mar, faziam-lhe o trabalho inútil. Einstein voltou para casa e não dormiu nessa noite a pensar no trabalho do rapaz. Na manhã seguinte foi ele próprio para a praia fazer o mesmo. “Não há caminho que leve do mundo dos fatos para o mundo dos valores”, escreveu o cientista.

*JK tinha especial predilecção pela cachaça Providência e sempre que as reuniões do Planalto ficavam bocejantes, sua eminência pedia “licencinha” para tomar uma Providência.

17 de Setembro
Leio na casa de um holandês demissionário da vida dos ares e convertido à pastoral de Alto Paraíso o livro (raro) de Tom Jobim e Zeka Araújo, inspirado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Começa providencial como só podia. “Deus faz o que pode… e se um dia Ele perde a paciência?”. Fala Tom desse negócio de fazer coisa bonita que podia ser a ocupação de cada um, bicho incluído. Nas alamedas do Jardim desfilaram as visitas mais ilustres, vieram reis e rainhas, príncipes, celebridades, artistas de renome, cientistas famosos, e todos se curvaram com humildade diante do Jardim, monumento vivo de exuberância natural. A obra ao natural e ainda intacta é devida a D. Pedro I, espírito lírico e boémio, homem largo e aberto que um dia considerou que um espectáculo tão fabuloso não poderia ficar restrito a um bando de maduros aristocratas. Entrelaçado nas flores (liberadas) nasce um poema (liberal) adaptado aos tempos sombrios.

Os peixes nadam contra a correnteza.
Os pássaros voam contra o vento.
Os aviões poisam e levantam contra o vento.
Aprendem com os pássaros.
E nós remamos contra a maré.

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Entre Agosto e Dezem­bro de 2011, o escri­tor e via­jante Tiago Sala­zar andou por 12 esta­dos bra­si­lei­ros a reco­lher con­teú­dos para o pro­grama Ende­reço Des­co­nhe­cido (a exi­bir na RTP2). Estas cró­ni­cas são o resul­tado do que acon­tece aos via­jan­tes quando se entre­gam ao prin­cí­pio de que são os paí­ses e os luga­res que os atra­ves­sam — e não o con­trá­rio. http://tiagosalazar.com. Ende­reço Des­co­nhe­cido no Face­book. Com o apoio da agên­cia Nomad

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