Dois irmãos

Antes de me fazer à estrada, mais precisamente ao km 53, em Araçariguama, lugar do “Rancho 53” dos irmãos Alves, os maiores embaixadores gastronómicos da cozinha lusitana no mapa do Brasil, e onde se faz fila para saciar as papilas de dez variantes de bacalhau, ocupei um par de dias em São Paulo, muito bem ocupados diga-se, a cumprir à letra o poema de Ascenso Ferreira, o bardo da vida do Nordeste brasileiro. Isto é: “Hora de comer, comer/hora de dormir, dormir/hora de trabalhar, de pernas para o ar, que ninguém é de ferro.”

Dá bué de equívocos dizer que nem tudo são nenúfares na vida de um viajante (tantos como justificar o apelido que me veio por via do Abel), embora me paguem para viajar e escrever, como se essa circunstância do meu destino fosse apenas a soma de dois acasos felizes. Ora, viajar e escrever saem-me do pelo, como soe dizer-se, e chegada a hora de trabalhar, de vergar a mola e o aço, e fazer de formiguinha ao tostão, prefiro saudar o sol, segundo o princípio já aqui confessado de mover a vida de barriga cheia de cerveja e cabeça a abarrotar de sonhos.

Por exemplo, no caso desta impiedosa semana paulistana, aliviei as agruras do meu destino de pobre homem só (largado na capital da solidão) a provar o bolinho de bacalhau e o chope do Bar do Leo, que desde 1940 sai religiosamente abaixo de zero graus e com colarinho, na Rua Aurora, 100, em Santa Ifigénia. Entre 200 coisas para fazer em “Sampa” (o carinhoso nome da cidade imortalizada nas canções de Trem das onze, de Adoniran Barbosa e Sampa, de Caetano Veloso) consegui averbar perto de uma vintena, e a passada de lesma.

Nisto de ser viajante profissional, e quando não há tempo para deixar que a cidade nos aconteça, o recurso é o dos homens da maratona. Ou seja, fazer quilómetros na pista traçada a régua e esquadro como quem espeta punaisesno mapa. Estais agora a pensar, então o homem fala em maratonas e um parágrafo antes exorta as lesmas como as viajantes mais dignas da sua morada? 48 horas na vida de uma lesma são uma eternidade. Dão tempo para comer bolinhos de bacalhau, circular pelas bancas do Mercado Municipal, na Avenida do Estado, e consumir, sem medo de ser feliz, toda a sorte de guloseimas encontradas pela frente, para então dali seguir de papo cheio, mas ainda não tão cheio que não lá caiba o bauru do Ponto Chic, do Largo Paissandu.

O viajante que viaja à romana depressa arranja espaço para degustar, sem pesos de consciência, a dobradinha pastel de feira com caldo de cana numa das dezenas de possibilidades espalhadas pela cidade (elegendo a do Pacaembu, de segunda a sábado em frente ao estádio). Cumpridas as horas de comer, dormir. Hospedei-me no Fasano, a conselho do crítico de viagens Ricardo Freire, uma das três hospedarias possíveis em Sampa além do Unique e do Emiliano. Segundo Freire, “o Emiliano é whisky, o Unique, champanhe, o Fasano, conhaque». Tudo o resto, que não vi de cabo a rabo para contar, deve ser zurrapa.

Está-se muito bem no Fasano, entre poltronas Charles Eames, moças fagueiras saídas dos poemas de Vinicius e uma vista capaz de conferir à imensidão da cidade, uma panorâmica quase tão espantosa como a que se tem do Vale do Anhangabau de cima do Viaduto do Chá. Chamam a Sampa a Nova Iorque da América Latina e não custa achar a razão do epíteto, sobretudo na atmosfera pós-moderna dos edifícios da Avenida Luís Carlos Berrini, no Brooklin paulista, ou na extravagância do Instituto Tomie Ohtake, na Avenida Faria Lima, 201, em Pinheiros, ou ainda no vão livre do MASP, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, na Avenida Paulista, 1578.

Ainda no bate bolas com Nova Iorque pode sempre tentar descobrir-se, num raro passeio a pé, se os arranha-céus da Paulista são belos ou horrendos, para então concluir que nada supera os Jardins ou o desalinho cozyde Vila Madalena onde é possível beber um chá das cinco ou comer um “vrai” croissant como se estivesse no Marais, afinal estamos na cidade que venera Paris, e é três vezes o seu tamanho – a prova dos nove é ir aos jardins do Museu do Ipiranga, na Avenida Nazaré, fazer de conta que se está nos Jardins do Luxemburgo. Ao contrário de Paris, esta não é a cidade óbvia do amor, mas não faltam negócios de reivindicação nessa matéria de peso, como a Rua das Noivas, o paraíso das devotas do matrimónio kitschou a Sex Shop “Ponto G” na Rua Amaral Gurgel, 206, sempre atenta às novidades como a mais recente invenção da punheta de bacalhau, que as más línguas dizem ter a mão dos irmãos Alves.

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Entre Agosto e Dezem­bro de 2011, o escri­tor e via­jante Tiago Sala­zar andou por 12 esta­dos bra­si­lei­ros a reco­lher con­teú­dos para o pro­grama Ende­reço Des­co­nhe­cido (a exi­bir na RTP2). Estas cró­ni­cas são o resul­tado do que acon­tece aos via­jan­tes quando se entre­gam ao prin­cí­pio de que são os paí­ses e os luga­res que os atra­ves­sam — e não o con­trá­rio. http://tiagosalazar.com. Ende­reço Des­co­nhe­cido no Face­book. Com o apoio da agên­cia Nomad

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