O sábio surfista

(Alexandre Campbell)

Em cima de uma prancha (uma canoa, para os surfistas satíricos) o lugar do pensamento é tão breve como a velocidade da onda cavada a rebentar ou o tempo que demora o maçarico a estatelar-se e submergir, do além-mar, entre golfadas de espuma.

Na minha condição de aspirante a surfista, o único pensamento possível entre o take-off e o stand-up (comedy), isto é, o atracar dos pés na “canoa” e manter o equilíbrio chama-se “Deus é grande”, como se essa força maior do que os homens fosse o autor daquele instante em que prancha, onda e homem (ou mulher) são um só-eu de energias. Quando se dá esse instante epifânico em que o pensamento e o sentimento se juntam para uma dança de apanhar onda, é “tudo de bom”, como se diz por aqui.

Em estando no Brasil, o momento zenital (como também se pode ouvir chamar de qualquer coisa com travo a orgásmica) podia ser ainda na roda da capoeira, no terreiro de candomblé, no calçadão de Ipanema ou numa das festas míticas do Ronaldinho Gaúcho.

Mas antes de ter o meu orgasmo amestrado é preciso explicar. Não era a primeira vez que ia para o mar imbuído de ideias alquimistas. Os mares do Guincho, da costa do Estoril e da Praia Grande conheciam de cor as minhas proezas de homem-âncora. No meu ser mais profundo, o surf é a minha praia, tanto como o budismo de Inverno, o nudismo de Verão, o piano e até o canto (chão).

Como podeis ler, a motivação ia comigo debaixo do braço (junto com a canoa) naquela manhã polar na praia do Rosa, no estado de Santa Catarina, onde diziam estar, juntas como comadres de longa data, as mulheres mais belas e as ondas mais perfeitas do Brasil. Imaginar-me longe do meu país à deriva, levado em braços por um coro de ninfas e entrar num oceano de ondas talhadas como esculturas de Miguel Ângelo (ou prédios de Niemeyer, canções da Elis, contos da Clarice…), as águas de Agosto tinham por essa altura o poder hipnótico de uma grande pia baptismal.

Na verdade, a praia estava desolada, suja de cacos de vidro, tocos, paus, pedras, as ondas não iam acima de meio metro, a única mulher num raio de três praias, e até onde a minha vista de falcão alcançava, era uma vendedora de aracajé em estado de anabiose e o frio (de vento ventando, de pingos pingando, de chuva chovendo) impedia qualquer manifesto de euforia de vida. Quando tudo me inclinava para o desgosto, o fim do caminho, o fundo do poço, chegou o anjo das pernas tortas, não o fantasma do Garrincha mas o surfista Evandro, Santos de seu apelido.

Chegou de pés firmes lá das ladeiras e ribanceiras. Chegou como um raio de sol, uma prata a brilhar. Chegou descalço e de maravilhoso corpo juvenil, ele, um homem curtido, a roçar os 40 anos, 30 deles debaixo de sol, de sal, de águas a abrirem e fecharem o Verão. Chegou a caminhar para o mar como o único sentido da sua vida. Foi já na água, e de poucas conversas, que o surfista Evandro me contou o princípio (e o fim) disto de ser surfista. Quem me falava enquanto as mãos entravam na água em concha como as barbatanas de um boto ou de um merlin podia ser um monge, um profeta, um filósofo, um apóstolo, um poeta, o homem da Atlântida. Podia ser quem fosse mas era alguém que sabia do negócio do ócio de fazer das palavras coisas alegres e bonitas.

Vê-lo a deslizar pelo mar e a encontrar-se na espuma das ondas era o mais próximo que estivera da epifania de alguém. E de repente (não mais que de repente), ao ouvir duas ou três vezes o surfista Evandro dizer-me com a sua voz de bardo doce e nasalada, “quando vem a onda você não pense, aí você existe mais, você é já a onda e seus braços e pernas e tronco e prancha não terão princípio e fim”, aconteceu a promessa de vida.

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Entre Agosto e Dezem­bro de 2011, o escri­tor e via­jante Tiago Sala­zar andou por 12 esta­dos bra­si­lei­ros a reco­lher con­teú­dos para o pro­grama Ende­reço Des­co­nhe­cido (a exi­bir na RTP2). Estas cró­ni­cas são o resul­tado do que acon­tece aos via­jan­tes quando se entre­gam ao prin­cí­pio de que são os paí­ses e os luga­res que os atra­ves­sam — e não o con­trá­rio. http://tiagosalazar.com. Ende­reço Des­co­nhe­cido no Face­book. Com o apoio da agên­cia Nomad

Um comentário a O sábio surfista

  1. Floripa, em agosto, é frio mesmo, meu chapa. Só nao entendi a parte da vendedora de acarajé, em Floripa? na praia da Rosa? dificil de acreditar.

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