Endereço Desconhecido: Porto Alegre | O alemão

Bastava ter saído da sala um ou dois minutos antes e não me ter deixado estar como se deve estar quando se está bem, isto é, de barriga cheia de cachaça e cabeça cheia de sonhos. Bastava não me ter deixado estar de olhos coruscantes nos esquissos gaúchos de Lúcio Costa antes deste ser o génio planeador de Brasília, e a minha história de Porto Alegre seria outra.

Esta é a história instantânea de um viajante recém-chegado a uma cidade de que sabe muito pouco – e pouco é sempre o que se sabe do que quer que seja. Sabe da sua costela açoriana ou dos seus 80 títulos que a dizem uma das melhores cidades no Brasil para trabalhar, morar e divertir-se.

É domingo, não se trabalha, é Inverno de estalar o dente, está-se ali de passagem, resta a diversão. Nas ruas da cidade desolada o melhor que se arranja para contrariar a mudez do viajante solitário, e aquecer os pés, são engraxadores (engraxates, como lhes chamam), engenhosos cronistas de almanaque. São eles que contam a vida como ela é, que é tanto dos anjos pornográficos de Nelson Rodrigues como do senhor Moacyr, pintor de retratos e das batalhas da guerra da Farroupilha.

Aprende-se mais a ouvir este homem de voz embargada por décadas de cigarros de palha do que nas páginas da melhor enciclopédia Luso-Brasileira. Onde foi ele buscar o conhecimento? Aos álbuns de família, aos guias épicos do Rio Grande do Sul que celebram o gaúcho como o mais livre dos brasileiros (e o mais orgulhoso das suas botas)? O que é conhecer um lugar em última instância senão vivê-lo abaixo do sangue? De soldados, Moacyr ouviu de ouvir falar, e leu bastante para saber que um homem de palavra formada não precisa de ir à guerra.

Saio de botas negras reluzentes como espelhos na ponta do seu indicador e embrenho-me no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, no outro lado do parque, “onde as paredes falam”. “É só preciso saber escutar.”

Bastava ter ficado mais tempo à conversa com o engraxador, que sabe mais disto de comunicar do que cem livros de auto-ajuda, para nunca ter chegado aos açorianos de Porto Alegre. Nada do outro mundo, na verdade, pois muito passei a saber de apetrechos bélicos, de medalhas, galões, barretinas e sobretudo de calçado marcial. E depois de todos os engraxadores deste mundo, esteja onde estiver, passarei a ver nas biqueiras das minhas botas as mãos falantes de Moacyr e os bigodes de piaçaba dos heróis da Farroupilha.

Estou agora na sala de armas onde flutuam os primeiros desenhos de Lúcio Costa, obras neocoloniais pedantes e afrancesadas antes deste virar a página, tornar-se discípulo de Le Corbusier e suplantar o mestre. O homem anterior a Brasília, ao modernismo, às ideias revolucionárias, aos edifícios-libelinhas que parecem querer voar (e voam) como naves de extraterrestres. Na parede fazem-lhe guarda de honra uma série de fotografias de Porto Alegre, retratos de homens de libré e polainas e dos primeiros monumentos da cidade fundada por 60 açorianos.

O gosto do olhar é uma incógnita. Porque me agrada mais uma ponte de pedra do que um casal de aparência feliz no macadame de uma avenida? Talvez porque o que tem que ser tem que ser e então, nesse instante em que o olhar se demora numa foto e não noutra, oiço por cima do ombro uma voz de alemão emigrado, uma voz de porte tão alto como o seu tamanho.

– Essa foto é de meu pai. Tirou-a para oferecer à minha mãe no Natal de 1932. Era um fotógrafo amador, sabe, mas não é por ser meu pai, foi ele que melhor entendeu essa cidade linda. Deixou no testamento que gostaria de ter o seu túmulo debaixo dessa ponte de pedra e que minha mãe se lhe juntasse um dia. Isso nunca aconteceu, mas para mim é lá que eles estão sepultados.

Bruno Rolf Hermann era o nome do pai, um alemão de Bremen, como é o do filho, nascido em Porto Alegre nos anos da grande guerra, o homem que, tal como Lúcio Costa, faz desenhos de cidades futuristas onde há sempre, semi-escondido, um cântico açoriano, uma flor, um dente de baleia, um pilar, como as arcadas corajosas daquela ponte de pedra que, de outra maneira, me teria passado desconhecida.

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Entre Agosto e Dezembro de 2011, o escritor e viajante Tiago Salazar andou por 12 estados brasileiros a recolher conteúdos para o programa Endereço Desconhecido (a exibir na RTP2). Estas crónicas são o resultado do que acontece aos viajantes quando se entregam ao princípio de que são os países e os lugares que os atravessam – e não o contrário. http://tiagosalazar.com. Endereço Desconhecido no Facebook. Com o apoio da agência Nomad

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