Portugal-Dakar Challenge: Dançando com dromedários


Foram o Alexandre e o Hugo, a dupla que segue no camião de apoio, que primeiro o avistaram. E nem pensaram duas vezes: inversão de marcha feita e dedo indicador esticado frente aos lábios a indicar silêncio, passaram por nós sorrateiros em sentido contrário. Tinham detectado, a cerca de 200m da pista e numa zona segura, um dromedário a pastar entre uma paisagem salpicada por árvores tombadas ao capricho do vento que parece não ter descanso. Pelo rádio ouvimos: “’bora! Sabe-se lá se voltamos a ter uma oportunidade destas: vamos tirar uma fotografia ao lado do bicho”.

E dê-se início ao baile. Camião pela direita e GC1 pela esquerda, aproximando-se devagar e sem grandes ruídos. O belo animal, naturalmente, tenta escapar-se aos voyeurs mas lá conseguimos a imagem desejada, sem o chatear muito. Só depois o dromedário nos decide mostrar o que é o todo-o-terreno, dando uns valentes galopes para longe destas bestas de metal. O instante arranca gargalhadas de prazer, boa-disposição e a certeza de que o deserto já nos acolheu como um dos dele.

É sexta-feira e, assim que o sol nasceu, deixámos a teimosa fogueira da noite anterior (demorou um bom par de horas e vários e inusitados recursos para atear, mas de manhã ainda ardia) juntamente com os homens da Gendarmerie marroquina, e partimos com destino a Dakhla. Prosseguimos a etapa 8 rumo ao vazio no GC1, um dos veículos da organização, com o Zé Pereira.

A bordo do carro do mecânico, o todo-o-terreno revela-se uma injecção de adrenalina em estado puro. Zé Pereira, que no seu currículo conta com uma posição entre os dez melhores na classificação geral do Rali Estoril Portimão Marrakech, nem parece estar a fazer nada de especial com a Ford onde seguimos. Mas a verdade é que brinca como poucos nestes trilhos de todo-o-terreno. Com ele, surfamos o deserto. Até porque, como gritava de vez em quando alguém pelo rádio, “o mar aqui à frente está crispado”. É verdade que, sem contar com os reflexos que, qual alucinações, parecem mostrar-nos o oceano em várias partes do trajecto, água nem vê-la. Mas ondas não nos faltaram. Quer as feitas pela natureza, quer as que os outros carros vão criando.

Pelo caminho, saltitamos, corremos, aceleramos, afocinhamos. A palpitação também acelera, mas o medo parece não ter atravessado a fronteira connosco. Embora, como nos garantiu o nosso condutor, tivéssemos “vindo calminhos”.

O GC1 é o carro que fecha a caravana e, por isso, não pode passar nenhum dos outros participantes. Isto dá direito a várias pausas ao longo do dia: se há um que pára, nós paramos. O tempo que for necessário. E se alguém se lembra de almoçar, nós almoçamos (desta feita na ementa havia paio, presunto, queijo, lulas e polvo para acompanhar o pão trazido no dia anterior de Es Semara; para beber, uma cerveja fresquinha).

Já agora, ao contrário do que supúnhamos na última nota enviada, não houve nenhuma roda para trocar ou pneu para remendar (a estafa do jipes da semana seria descarregada no dia seguinte, com uma ida a uma oficina improvisada, onde Zé Pereira e Pedro foram aviando um a um). Mas não faltou que fazer nem razões para travar a marcha. Como os carros que iam parando para despejar os jerricans no depósito, um outro que precisou das reservas do GC1 para abastecer de gasóleo, pelo menos três atascanços – um deles, nosso (culpa desta vossa escriba que se lembrou de pedir para que se imobilizasse a viatura precisamente numa zona de areia com a triste intenção de captar a fotografia ao grupo reunido no topo da duna) – e a tentativa de assistência a uma Tenéré após uma aparatosa queda. A mota porém não precisou de assistência mecânica. Os problemas dela resolver-se-ão mais tarde e vai acabar a viagem à boleia do camião, enquanto o condutor prossegue até Dacar com apenas uns arranhões.

Houve ainda quem se tivesse “perdido”, obrigando-nos a seguir uma pista diferente que nos levou a uma outra paisagem, marcada ainda mais pelo branco. A areia nesta parte é mais fina e o vento varre-a insistentemente, fazendo com que os trilhos desapareçam num piscar de olhos. Já o horizonte surge cada vez mais perto. Mas a seguir a um horizonte, vem outro. E outro. E outro. Sem fim à vista. E é então que percebemos onde estamos: numa armadilha gigante em que o deserto parece desafiar-nos a tentar afrontá-lo. Não o fazemos e voltamos para trás, esperando que se tenha tratado de apenas um pequeno desvio, mas preparados para accionar a procura se o pior se confirmasse. Não viria a ser necessário: cerca de 100km à frente recebemos a informação, via rádio, que o veículo em causa estava bem e já no Dakhla Attitude, o complexo de bungalows, encaixado numa ravina junto ao mar que todos os dias recebe fãs do kitesurf.


Não será difícil adivinhar o mar esmeralda com que os nossos olhos acordaram no dia seguinte, num contraste absoluto com o que se viveu nos últimos dias. Um dia de descanso (excepto para médicos e mecânicos), mas com todos os sentidos direccionados para as próximas etapas: ao longo deste domingo, o objectivo é chegar à Mauritânia.

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Carla B. Ribeiro acom­pa­nha o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, a con­vite da orga­ni­za­ção, de 30 de Dezem­bro a 13 de Janeiro. Infor­ma­ções gerais sobre o evento no pri­meiro post

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