Portugal-Dakar Challenge: Em caravana pelo deserto


O Sara pode ser apenas um único deserto, mas encerra mais mundos do que aqueles que se poderia conseguir enumerar em parcas linhas. Desde Es Semara atravessámos, num artilhado e muito alterado Range Rover, oceanos de cascalho, ondulações de areia, planícies lunares. Sítios inóspitos em que o céu parece ter sido pintado à mão e onde o tempo parou. Sempre dentro da mesma cúpula que nos parece manter aprisionados, como se estivéssemos dentro de uma daquelas bolas que quando se agitam cai neve. Só que, aqui, em vez de neve, à noite poder-se-iam agitar estrelas. Ao longo de 150km e umas seis horas passámos por um único ser humano: um segurança de uma antena numa zona em que a paisagem é marcada pelas fortificações que se vêem, ao longo do Sara. Foi preciso chegar ao asfalto, a 15km do acampamento, para nos cruzarmos com outros carros, cuja aparição parece, mesmo no meio do nada, arrancar-nos a uma espécie de alucinação e obrigar-nos a regressar ao mundo real.

Ao contrário dos outros dias, hoje viajámos em caravana. Mantendo os grupos, cada um com mais ou menos cinco carros, mas bem juntos. Em Es Semara uma coluna militar parou-nos nas últimas bombas de gasolina, de onde se conseguiu o último acesso. Foi necessário mostrar documentos para seguir. Mas, ainda assim, fomos escoltados durante alguns quilómetros pela polícia marroquina. Voltaríamos a encontrar agentes junto ao acampamento: de momento, a uns 20 metros do local onde a caravana se juntou num círculo perfeito para passar a noite, um grupo de polícias cerca-nos para assegurar que a noite seja tranquila: para nós e para eles.

Mas na última cidade por onde passámos as ordens foram claras e inflexíveis: não se pode sair da pista nem tão-pouco afastarmo-nos uns dos outros o suficiente para perder comunicações rádio. Trocando por miúdos, a distância do carro que segue atrás – aquele pelo qual temos a responsabilidade de garantir o seu bem-estar – não deve exceder os oito quilómetros em linha recta. As razões poderiam ser muitas, mas resumem-se a uma questão de sobrevivência. A expedição pode ser turística; a zona não o é.

Além das pedras, da terra, do pó, da areia, estamos a passar também por um mar de minas. E, embora já se tenha procedido à desminagem da área, ainda há muitas por localizar e o melhor é não arriscar. Por isso, circulamos entre os montes de pedras (ou cascalho) que servem de bermas. Para lá destas nada é garantido.


Entretanto, cada grupo ao seu ritmo, todos chegaram ao acampamento algures próximo do Trópico de Câncer que já atravessámos com sentimento de dever cumprido. Pelo caminho, todos foram tirando o máximo partido do que o trilho oferece: areia para brincar com a tracção às quatro, lombas para exercer (nesta altura já não há hipótese de praticar; apenas de fazer… e o melhor possível, de forma a não prejudicar nem veículo nem condutores), curvas para gingar, degraus para voar. Ou capotar.

Nada de alarmes. O dia não foi pautado por nenhum acidente que resultasse em feridos. Algumas avarias, uns quantos furos, um carro a verter óleo do motor depois de um encontro com um pedregulho, detectado no trilho pelo Discovery* que seguia na traseira da caravana e que, contara-nos, avisou o Zé Pereira que, em conjunto com o filho Pedro, presta assistência aos veículos ao longo de todo o percurso.

A desculpa perfeita para parar e apoiar a equipa paralisada e a equipa mecânica que lhes deu assistência e que lhes permitiu prosseguir viagem. Mas também uma óptima razão para decretar uma pausa para almoço: um pão fresquinho trazido de Es Semara com caldeirada de lulas, acompanhado por batatas fritas de pacote e regado com água. Para a sobremesa, pêssego em calda.

A refeição sabe-nos pela vida e dá forças para prosseguir os ainda 115km que temos pela frente. Deixamos o Nissan a repousar o silicone com a equipa mecânica e com o camião de apoio que fechava a caravana e volta-se a pôr prego a fundo – uns com pregos mais rápidos que outros, mas todos a darem o máximo conscientemente possível.

Com a caída da noite, percebemos que já chegámos a um outro deserto. Um deserto onde já há vida, quer em forma de insectos, quem em forma de árvores. Quaisquer deles, com um nível de resistência indicado para habitar um espaço em que do solo só parecem nascer pedras e onde ferve durante o dia (hoje, atingimos uns secos 30ºC) e gela ao longo da noite (são duas da manhã e os dois pares de calças, as duas camisolas – uma de malha, outra polar –, o gorro de lã, o casaco de penas com capucho e meio corpo dentro de um saco-cama não chegam para esquecer o frio.

Amanhã, logo às sete (hora de Lisboa), seguimos para Dakhla, onde nos espera um banho e um colchão. Com sorte, até um mergulho no mar. Bem merecido: a viagem da etapa 8 far-se-á com quem vem a trabalhar para que todos os veículos cheguem ao destino. Por isso, pode ser que ao longo do dia de amanhã a Fugas passe mais tempo a mudar pneus que a fotografar a paisagem.

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Carla B. Ribeiro acom­pa­nha o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, a con­vite da orga­ni­za­ção, de 30 de Dezem­bro a 13 de Janeiro. Infor­ma­ções gerais sobre o evento no pri­meiro post

* por lapso constava Patrol no texto original

Um comentário a Portugal-Dakar Challenge: Em caravana pelo deserto

  1. Obrigado, Carla, por mais este relato magnifico! É, efectivamente, partilhar um pouco da vossa viagem/expedição/desafio.
    Pelo menos para mim, que apenas estive por duas vezes em Marrocos, fazendo parte de dois magnificos grupos, é estar um pouco a disfrutar de tudo o que acabou de descrever.
    Mais uma vez, parabéns e obrigado.