A festa da Irmandade nas eleições

A festa montada pela Irmandade junto a um centro de voto

No primeiro dia das primeiras eleições pós-Hosni Mubarak, o Partido Justiça e Liberdade não descurou nenhum pormenor. Exactamente um ano antes, a 28 de Novembro de 2010, nas últimas legislativas antes do início da revolução egípcia, a Irmandade Muçulmana era “o partido proibido”. O movimento islamista já era a maior força da oposição no Parlamento (e a única que se podia considerar verdadeiramente da oposição) mas os seus candidatos não podiam concorrer enquanto membros da Irmandade, candidatando-se como independentes. De proibidos mas tolerados (depois de muito perseguidos), os islamistas egípcios passaram a omnipresentes. Agora têm o seu braço político, o Justiça e Liberdade, uma balança como símbolo, e preparam-se para ser os orgulhosos vencedores das legislativas.

A 28 de Novembro de 2011 estiveram por todo o lado no Cairo. Numa visita a dez centros de voto, encontrámos sempre apoiantes do partido, bem visíveis, com cartões ao pescoço e mãos cheias de cartazes ou de pequenos calendários que distribuíam, com o nome do candidato de cada círculo no verso, mais as instruções para votar no dito. Este era o cenário nos bairros cristãos ou mistos. Nos bairros muçulmanos, o Justiça e Liberdade montou verdadeiras feiras populares, com carrinhas de caixa aberta e sistemas de som por onde saia alternadamente música islâmica e discursos políticos. Houve voluntários a distribuir comida em pequenos sacos de papel (alguns garantiam estar a vendê-la, enquanto outros juravam que se destinava apenas aos membros do partido que ali estavam a trabalhar) e outros sentados em secretárias no meio da rua com portáteis e ligações à Internet. Nesses gabinetes improvisados verificavam o local de voto dos eleitores que vinham procurá-los com os seus BI. Mas também instruíam os mais perdidos sobre como votar (cada eleitor tem de escolher dois candidatos e uma lista para que o seu voto seja válido) e sobre os símbolos dos candidatos do Justiça e Liberdade. É ilegal fazer campanha junto dos centros de voto.

Segunda e terça-feira decorreu a segunda volta para desempatar muitos dos lugares destinados aos que concorrem individualmente (um terço da Assembleia). Menos eleitores, mas sempre os membros da Irmandade presentes à porta das escolas e das esquadras transformadas em centros de voto. Em Dezembro e em Janeiro as urnas voltarão a abrir em diferentes áreas do Egipto – até agora só votaram 9 das 27 regiões do país.

Se nesta primeira ronda, e em particular no Cairo, os membros da Irmandade não estiveram sozinhos na sua campanha “à boca das urnas” – aqui e ali havia carros de som de candidatos salafistas e membros do Bloco Egípcio (coligação de liberais) – no resto do país antecipa-se que a Irmandade fará a festa quase sozinha. Com muitos partidos recentes (o Bloco Egípcio existe há dois meses, enquanto o partido salafista Nour foi criado em Junho), a Irmandade é o único movimento com verdadeira implantação nacional. Em Janeiro se saberá a dimensão da sua vitória.

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