De jipe por um “passado comum”: De Mértola a Marraquexe

[Maria João Lopes inicia aqui o acompanhamento da expedição todo-o-terreno “Rotas do Al-Andaluz”, entre Mértola e Marraquexe, Marrocos. Decorre de 31 de Agosto a 10 de Setembro e é organizada pela autarquia de Mértola e a Merturis em conjunto com os Marafados do TT Algarve]

O calor do deserto há-de ser parecido com o que estava dentro do Museu de Arte Islâmica, em Mértola. Uma espécie de treino para o que nos espera nos próximos dias: uma expedição de 10 dias de jipe que começa precisamente em Mértola e acaba em Marraquexe. Rotas do Al-Andaluz: assim se chama o programa, organizado pela autarquia de Mértola, vila na qual não se escondem, mas exibem várias camadas de diferentes culturas e civilizações. Não é por mero acaso que amanhã 15 jipes partem daqui, rumo a Marrocos.

Dentro do museu, dizíamos nós, estava um calor que não matava, mas moía. A temperatura não é, porém, o único ponto de contacto entre esta vila portuguesa e Marrocos. Antes de chegarmos ao museu, fomos, entre outros locais, a uma antiga mesquita do século XII – hoje uma igreja católica – contemporânea, segundo o arqueólogo Cláudio Torres, de um bairro cujas ruínas – Alcáçova do Castelo – também visitámos.

No museu, numa tela, passava um filme: nele, mulheres e homens desempenhavam diversos ofícios tradicionais, ligados ao artesanato e à agricultura. As imagens sucediam-se: gente a pôr lenços na cabeça, a caiar casas, a tocar pandeireta, a pisar o barro, a tecer… Não era só a paisagem natural e as casas que, por vezes, se assemelhavam dumas imagens para as outras, era a própria forma de fazer, eram os utensílios. Uma imagem de Mértola, uma de Marrocos. Outra de Mértola, outra de Marrocos. “As raízes misturam-se umas com as outras”, explicava Fernando Martins, o guia que nos levou a descobrir o património local.

Mais tarde, no jantar, o autarca Jorge Rosa explicaria que a ideia de organizar esta “aventura”, em colaboração com os “Os Marafados do TT Algarve”, foi precisamente a de enaltecer as ligações entre esta vila portuguesa e Marrocos. Ok, também passaram por cá outros povos, como os romanos – e tudo culpa do rio Guadiana que sempre tornou este local apetecível -, mas é para o Norte de África que lhes foge o coração…

Jorge Rosa não se cansa de explicar que há um “passado comum” que se pretende celebrar com esta aventura todo o terreno. “Esta herança é muito importante para Mértola”, continua. A vila até organiza há doze anos (já vai em seis edições) o Festival Islâmico, que decorre em Maio e que, para além de conferências e debates, reúne grupos de música de Marrocos, Egipto, Tunísia, entre outros. Mas, até pela proximidade geográfica, é com Marrocos que sentem mais ligação.

“Chefchaouen, em Marrocos, tem uma parecença muito grande com Mértola. Nas ruas do centro histórico, na forma de construir as casas, na vivência das pessoas. Temos vários intercâmbios com Chefchaouen: publicações, exposições”, diz Jorge Rosa. Em Mértola, há ruelas bem estreitas, uma termina de forma tão apertada que lhe chamam “funil”. Por ali, dizem, uma vez não passou um turista… Teve de ir à volta…

Quando ainda estávamos numa camioneta que saiu de Beja aos solavancos a caminho desta vila, recebemos uma mensagem de alguém que precisava com urgência de nos falar: perguntava se ainda estávamos em Portugal. Dissemos que sim, que só amanhã é que estaríamos noutras paragens. Se fosse agora, e fiando-nos nas semelhanças entre Chefchaouen e Mértola de que nos falou o presidente da câmara, talvez a resposta fosse outra. Amanhã, por esta hora, já estaremos a tirar isso a limpo – e ver se descobrimos antes as diferenças…

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