Poesia do design em Conquet

Quiseram dar-me a mesa com melhor vista sobre a baía de Conquet. Da janela ao meu lado direito posso contemplar uma das mais fotogénicas enseadas da Finisterra bretã, toda bordada com coloridas embarcações desportivas. Na ponta do braço de mar em frente há um pitoresco farol cilíndrico, agora mesmo dourado pelo sol crepuscular. É de facto um espectáculo.

A mesa que me permite usufruir desta vista fantástica sobre Conquet é, no entanto, também aquela que fica mesmo em cima de uma parede decorada com um fotografia em picado da baixa de Nova Iorque, tirada ao fim do dia (edifícios parcialmente iluminados) e a preto e branco. Ou seja, se olhar para a janela à direita vejo um dos mais belos portos do litoral bretão ao passo que se olhar em frente vejo uma imagem clássica da Grande Maçã.

A ideia do decorador pode ter sido sugerir/recordar ao cliente o tremendo contraste entre o idílio marítimo que é a vila portuária onde se encontra e o inferno das grandes cidades, que são o seu habitat quotidiano. Vendo melhor, a dita fotografia de Nova Iorque é um dos artigos mais comuns em venda numa das grandes cadeias de mobiliário europeu. Ou seja, representa menos as grandes cidades que todos os quartos suburbanos que usam essa imagem como decoração. Neste caso o seu emprego no restaurante bretão poderá querer simbolizar a antítese entre as rotinas suburbanas e as férias à beira mar.

Claro que nada disto terá passado pela cabeça dos donos do restaurante, que simplesmente terão comprado o primeiro quadro barato capaz de encher aquela parede. Mas é giro pensar que é tudo muito mais complicado e que há verdadeiros poetas da decoração barata nos confins da Finisterra bretã.

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