Sagração da pinavera (III)

Podia ser uma personagem de uma das suas peças. Encontrei-o junto à campa de Pina Bausch, no fim do cemitério de Wuppertal, já quase a entrar na floresta. Tinha, ao seu lado, uma série de sacos com o que pareciam ser flores para plantar. Disse que era amigo dela. Podia ser um amigo efectivamente. Dos tempos da escola, talvez. Podia ser alguém que ia ver todas as suas peças, juntando todo o dinheiro que tinha, de cada vez, e se achava amigo dela porque ela lhe falava de coisas que ele achava serem só suas, íntimas. Era certamente alguém que tinha um fascínio grande pela coreógrafa que morreu em 2009. Ficou ali sentado o tempo todo. A campa fica em frente a um lago, e a família comprou o terreno à volta para que ninguém o ocupasse. As ervas daninhas crescem à vontade junto das plantas que ali foram colocadas. Há ofertas de crianças, que assinam com os seus nomes, flores de plástico e uma pena presa junto ao seu nome.

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