De pai para filho, de filho para pai

(fotografia retirada do site oficial do escritor)

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt

Lembrei-me desta história quando descobri o novo “site” do escritor brasileiro Moacyr Scliar que está a ser feito pelo seu filho. Ele contou-a há uns anos no Correntes d’Escritas, o encontro literário de escritores de expressão ibérica na Póvoa de Varzim. Nunca mais a esqueci. É uma lição de literatura.

Numa tarde na Póvoa, o autor de “A mulher que escreveu a Bíblia” (ed. Livros de Seda) contou que o seu pai emigrou para um país desconhecido quando tinha dez anos. Saiu da Rússia no período da guerra civil que se seguiu a 1917, meteu-se num navio em direcção ao Brasil, atravessou o oceano e foi parar ao Rio Grande do Sul.

Não fazia a mínima ideia do que o esperava. Chegou a um país completamente desconhecido mas isso não o impedia de ver o Brasil como uma coisa maravilhosa.
Sonhava com o clima ameno, com um país de gente amável e com as frutas. Nunca tinha visto um abacaxi, nunca tinha visto uma manga, nunca tinha visto uma banana. E foi apresentado a uma banana, exactamente no dia em que chegou a Porto Alegre.

Quando embarcou, o pai de Moacyr já era “um menino magrinho”. No barco passou fome, ficou um esqueleto. E quando finalmente o navio atracou na cidade, desembarcou. A população inteira de Porto Alegre estava no cais à espera do barco que trazia os europeus e um gaúcho percebeu que o pai de Moacyr tinha fome e ofereceu-lhe uma banana. “O meu pai imaginou que era uma coisa para comer. Mas não tinha sido treinado para comer banana e, como não falava português, ficou com perplexidade a mexer na banana”, disse o também médico Moacyr Scliar.

Descobriu então que a banana se descascava, tal como a laranja. Imaginou que seria igual e que teria também casca e caroços. “Ao descascar a banana apareceu uma coisa que ele pensou que era o caroço da banana. E jogou fora o caroço. Comeu a casca de banana até ao fim para surpresa do gaúcho”, continuou o escritor a quem até morrer, já depois dos 80 anos, o pai disse sempre: “Casca de banana não é tão ruim como a gente pensa”. Para Moacyr Scliar, o escritor é “o emigrante que vê a banana e que come a casca” e a tarefa da literatura é “transformar o desconhecido em magia”.

No “site” que o seu filho Beto está a desenvolver na Internet ficamos a conhecê-lo melhor. Não só por causa das fotografias que mostram o escritor a trabalhar no seu escritório em frente ao computador, mas também pelo blogue onde têm sido colocados os textos e crónicas que tem publicado na imprensa brasileira. Não deixem de ler a crónica intitulada “Felicidade não se compra. Nem mesmo pela Internet”.

Pouco a pouco está a ser disponibilizado material de arquivo sobre o escritor e querem mostrar também vídeos das suas conferências. Numa das secções é possível enviar mensagens para o escritor. Noutra podem ler-se citações das críticas aos seus livros, consultar o seu currículo, ler algumas entrevistas (ao jornal “Estado de Minas”, à Universidade Federal do Rio Grande do Sul e à revista “Época”), deixar mensagens no Livro de Visitas e ver as capas e as descrições dos seus livros. Criaram uma conta no Twitter onde se anunciam as novidades que vão colocando no “site”.

Moacyr Scliar
http://scliar.org/moacyr/

Moacyr Scliar no Twitter
http://twitter.com/moacyr_scliar

(crónica publicada no suplemento Ípsilon de 9 de Julho de 2010)

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4 comentários a De pai para filho, de filho para pai

  1. Pingback: Ciberescritas » Moacyr Scliar morreu esta madrugada

  2. Pingback: Moacyr Scliar por Isabel Coutinho « Autores e Livros

  3. Caí neste espaço por conta de um post sobre leitura de textos para kindle, do ano passado. E ao verificar as atualizações, tive a alegria de encontrar esse meu conterrâneo admirável.
    Sabe, estou a procurar pessoas interessadas na questão do e-book e da literatura em geral. Então voltarei… Abraços do sul do Brasil.

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