Jay Gatsby c’est moi

gatsby-le-magnifique-57-10914092sfhue_1713

 

Vários adereços à procura de um filme, enquanto as cortinas ondulam com o vento dos videoclips

 

Cannes-2013-Poster-HRSe Jay Gatsby tivesse agarrado Daisy Buchanan nos braços, em vez de perseguir os seus sonhos de grandeza…

Se ao menos Baz Luhrmann não utilizasse as palavras de F. Scott Fitzgerald como massinhas na canja 3D…

Filme de abertura em Cannes: O Grande Gatsby a três dimensões. Pode-se prestar, tem sido essa a tentação, a ser visto como um filme que tem o rosto chapado do protagonista: alguém que, avistando uma shimmering light, caminhou ao seu encontro, reinventando-se como silhueta dourada a partir das suas origens de fancaria. A tentação é chegar com essa aproximação a um retrato do australiano Baz Luhrmann, alguém que em tempos pegou no texto de Shakespeare como quem rabisca a letra de um hit adolescente (Romeu e Julieta) ou que reimaginou o fin de siècle parisiense como uma sessão karaoke para os espectadores no cinema (Moulin Rouge) – os dois filmes de uma teatral Red Curtain Trilogy que Luhrmann iniciou em 1992 com Strictly Ballroom.

Depois disso, houve Australia (2008). Foi decisivo porque foi o fim do golpe de teatro: terminou com qualquer candura na relação com o cinema de Luhrmann, que se mostrava aí com um imaginário estereotipado (Tarantino também fez com Django Libertado o seu E Tudo o Vento Levou e não foi nada disto…) e argumentos com amplitude de irreverência curta. No caso de O Grande Gatsby, a aventura de Luhrmann atrás de Fitzgerald tem sido empolada através da banda sonora coordenada com o rapper Jay Z ou das 3D. Não há, de facto, outras “ideias” (se é que isso são “ideias”), mas mesmo essas não se fazem ver e ouvir no filme. Luhrmann não lhes dá tempo para existirem como mais do que colagens ou adereços. São vários adereços à procura de um filme enquanto as cortinas ondulam com o vento dos videoclips.

cear-on-set-baz-luhrmann-great-gatsby-hO automatismo promocional que se reflecte em alguns retratos do realizador por estes dias publicados – tipo: um homem e o seu sonho  – apenas reflecte o automatismo da fórmula em que Luhrmann se encerrou e que já só impossibilita a existência de personagens e história. Não há filme para ver. O inebriamento orgiástico não é sequer promessa. Actores não existem (Leonardo DiCaprio deixou-se abanar por Tarantino, mas neste filme volta a ser invólucro baço como nos filmes de Scorsese), não há uma personagem que segrede mistérios ao ouvido do espectador, e polvilhar o ecrã com as palavras de Fitzgerald é um golpe baixo audiovisual.

O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann, é como Jay Gatsby e o palacete que mandou construir para se aproximar de Daisy e que enche com festas e com gente: tudo a esbracejar – mas, como se perceberá, ele não mora ali.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>