Como um fenómeno da televisão pode vir a ser o prefeito de São Paulo

Lulistas, elites e distraídos em geral estão a acordar para isto: um fenómeno da TV, descrito pelos seus adversários como “populista”, tem boas hipóteses de vir a ser o próximo prefeito de São Paulo, a maior cidade do Brasil, daqui a 15 dias.

Ex-apresentador de programas de defesa do consumidor na Record, emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Celso Russomanno é o acontecimento da actual campanha municipal, com uns firmes 35 por cento nas sondagens, deixando bem para trás, em terceiro, o candidato em que Lula e Dilma apostaram, Fernando Haddad.

Em segundo aparece o insistente José Serra (PSDB), derrotado por Dilma nas últimas presidenciais, e que como candidato continua a dar manchetes humorísticas. Ontem estava na capa dos jornais com uma espécie rara de golo: em vez de fazer entrar a bola fez entrar o próprio sapato.

Já Russomanno tanto está com a bola toda que se deu ao luxo de não pôr os pés no debate que a Arquidiocese de São Paulo organizou quinta-feira com os principais candidatos. O encontro acontecia na sequência de uma polémica entre a campanha de Russomanno e a Igreja Católica. Russomanno disse que só iria se o cardeal Odilo Scherer o recebesse antes. O cardeal disse que o receberia depois: “Em vista dos compromissos de agenda, não pude atender até aqui o pedido de audiência. Mas me disponho a receber o candidato no próximo sábado, dia 22 de setembro, de preferência às 18h00, em local a ser previamente combinado.” Terminava reiterando o convite para o debate. Mas Russomanno não foi mesmo, alegando que a condição era ser recebido antes. E mesmo assim, apesar de a sua ausência ter sido criticada pelos adversários e desagradado entre a plateia, à hora de fecho desta edição o cardeal mantinha o encontro.

A prova de duas forças no Brasil: religião e televisão.

E a polémica entre Russomanno e a Igreja Católica mostra bem como a homossexualidade continua a ser um estigma esgrimido eleitoralmente, à semelhança da descriminalização do aborto nas presidenciais de 2010.

O que motivou a polémica agora foi a divulgação de um texto do coordenador da campanha de Russomanno e presidente do seu partido (PRB), Marcos Pereira, bispo da IURD. Nesse texto, Pereira acusa a Igreja Católica de participar numa iniciativa do Ministério da Educação para distribuir pelas escolas material de combate à homofobia, o chamado “kit gay”. A Arquidiocese emitiu uma “nota de repúdio” onde responsabilizava Pereira por “fomentar a discórdia”. E domingo passado, durante uma missa, o cardeal Odilo acrescentou que Pereira tinha “ofendido e desprezado” os católicos do Brasil.

Russomanno reagiu declarando que é católico e que a percentagem de evangélicos na sua campanha não é maioritária. Comentadores contrapuseram que os evangélicos têm os principais comandos. E cresceu a expectativa em torno do debate organizado pela Arquidiocese.

 

A influência Mensalão

 

Uma das bases tradicionais do PT é a Igreja Católica, mas nesta eleição a força do PT, de Lula e de Dilma está a ser afectada pelo histórico julgamento do Mensalão, relacionado com casos de corrupção que remontam ao primeiro mandato de Lula. Já houve uma primeira fase com condenações e está em curso a segunda fase, em que se avizinha a sentença do ex-ministro José Dirceu, o homem que tinha o aparelho do PT na mão.

Fernando Haddad, o candidato pêtista em São Paulo, tem tentando distanciar-se do caso Mensalão, mas não consegue ganhar fôlego nas sondagens. A sua fraca prestação é vista como uma derrota de Lula: o antigo presidente não quis a popular Marta Suplicy, que já foi prefeita, como candidata. Em vez disso, convenceu Dilma a prescindir de Haddad como ministro da Educação para o lançar à prefeitura. Marta recusou-se a ajudar na campanha e só mudou de ideias na véspera de ser convidada a assumir o Ministério da Cultura. É bastante consensual a leitura de que Dilma terá oferecido o cargo a Marta para que ela ajudasse Haddad em São Paulo.

E Marta ajudou, entrando logo a matar num comício por Haddad, lançando-se a Russomanno: “É lobo em pele de cordeiro. Aquilo que ele faz na TV é negócio. É pilantragem. Não é o que parece. Ele faz comércio com a angústia do povo, com a infelicidade.”

Lula ainda pesou mal outra jogada: ter ido buscar o apoio de Paulo Maluf, símbolo dos piores vícios da política paulista, para a campanha de Haddad. A fotografia do aperto de mão repugnou muitos pêtistas. E fez com que o PT e Haddad não possam atacar Russomanno pelas suas antigas ligações a Maluf.

 

Quatro menos um

 

No lotado teatro da periferia paulistana, em Tatuapé, o debate organizado pela Arquidiocese foi uma boa montra para esta campanha, incluindo a eloquente ausência de Russomanno. A plateia estava cheia de bispos, padres, freiras e crentes, além de apoiantes de cada candidato. Quando a cortina se abriu, apareceu uma mesa com cinco cadeiras, cinco nomes e quatro pessoas. A cadeira da extrema-direita, com o nome de Russomanno, e o seu copo de água, foi mantida até ao fim.

O cardeal Odilo sobe ao púlpito para as boas vindas. E sem qualquer referência a Russomanno, diz: “Não aprovamos que nossas igrejas sejam transformadas em espécies de currais eleitorais ou que também o voto de nossas comunidades religiosas e nossos votos, os votos de nossos católicos, sejam impostos por cabresto eleitoral a eles por ministros religiosos.”

Mas como a Igreja Católica “está presente de forma capilar” na vida de São Paulo e “sente os seus problemas de forma aguda”, quis convidar “os cinco candidatos mais bem colocados nas pesquisas”.

Um padre-moderador apresenta depois as regras, com cronómetro e sorteio, e Gabriel Chalita, o bem-falante e seguro candidato do PMDB, é o primeiro a intervir, ressaltando a importância da igreja católica na sua formação. Uma “ponte entre a São Paulo rica e a São Paulo pobre” é o desafio que propõe. Porque, estando entre “as dez cidades mais ricas do mundo”, São Paulo tem mais de três milhões de pessoas em favelas, 200 mil crianças em fila de espera para creche, gente que espera dois ou três anos por uma cirurgia, e uma população de viciados em crack e sem-abrigo com a qual a actual prefeitura e a polícia têm lidado sem “humanismo”.

São os principais tópicos da discussão sobre São Paulo, somados adiante ao drama do trânsito, com metro e autocarros lotados, e filas compactas de automóveis.

Patrono do actual e impopular prefeito Gilberto Kassab (PSDB), José Serra vai por outra via: apresentando-se como “de uma família pobre”, “alfabetizado por salesianos”, diz que a sua felicidade é “levar um pedaço de felicidade a uma pessoa ou a um milhão”. E enumera o currículo dos seus cargos, incluindo ter sido prefeito e ministro da Saúde.

A jovem Soninha Francine (PPS), última dos cinco nas sondagens, centra-se na sustentabilidade, no não-desperdício de recursos, na luta por uma cidade inteligente.

Quando chega a sua vez, Haddad confirma a ideia de um candidato pálido. Insiste na necessidade de habitação social, no drama que têm sido em São Paulo os incêndios em favelas, com mortos e feridos. Nos antípodas de Serra, que repete “eu” a cada fala, usa sempre “nós” ou então o governo de Lula.

Segue-se uma sequência de perguntas previamente preparadas por religiosos na assistência. Mostram, em regra, estar próximos de comunidades pobres, com questões concretas de educação, saúde e a violência com que têm sido tratados pela prefeitura e pela polícia os viciados em crack e os sem-abrigo. Um padre denuncia, veemente, os ataques policiais com gás de pimenta e jactos de água e é a pergunta mais aplaudida da tarde: “Como preparar a cidade para os eventos que aí vêm sem esta ‘limpeza’?”

Cabe a Haddad responder e é o seu momento mais forte: “Entendo que há uma política higienista, arbitrária e violenta, náo só em relação aos moradores de rua como a ambulantes com deficiência, que têm alvarás cassados de um momento para o outro quando estão há 15 anos no lugar.” Cita o drama do Largo de São Francisco, centro histórico da cidade e sede da Faculdade de Direito da USP. “Convido todos a ir ver como amanhece, como a população (de sem-abrigo) é tratada.” Promete substituir a “militarização” actual por uma polícia comunitária.

Em nenhum momento do debate o nome de Russomanno é pronunciado. E só o dinâmico Chalita lhe desfere um golpe ao criticar a luta picuinha entre PT e PSDB: “Hoje corremos riscos por causa dessas picuinhas de ter um prefeito em SP que nem veio hoje aqui, sem proposta nenhuma, com projetos estranhos.” Não hesita em chamar-lhe “populista”.

É possível que esta “luta picuinha” faça com que o PT numa segunda volta entre Russomanno e Serra apoie Russomanno, só para não favorecer o PSDB, seu arqui-inimigo. Aliás Dilma tem no governo o ministro Crivella, da IURD e do partido de Russomanno.

Lá fora, entre lojas de periferia e o trânsito já a caminhar para o pico de fim-de-tarde, carrinhas e peões ao serviço de Russomano distribuem cartões e pregões no lusco-fusco periférico de Tatuapé. Quem agora apanhe o metro para trocar de linha numa das estacões do centro vai ver filas de centenas de pessoas só para passar a roleta dos bilhetes.

 

(Público, 23-9-2012)

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