Tropa de Elite 2: o filme-catarse do Rio

José Padilha tem os números de cabeça: “Foram 11 milhões e 200 mil espectadores no Brasil”, responde, à mesa do restaurante onde almoça todos os dias.
Estamos numa ruazinha do Jardim Botânico, bairro de casas e árvores, aos pés de um morro tropical. Carioca, 43 anos, Padilha viveu quase sempre por aqui, e está como parece andar sempre: boné, mochila, t-shirt com uma caneta presa na gola.
Dirigiu o filme mais visto da história do cinema brasileiro — “Tropa de Elite 2”, que ontem estreou em Portugal — e está a desenvolver o roteiro de “Robocop” para uma “major” americana, entre vários projectos próprios. Divide o tempo entre esta ruazinha e Hollywood, mas isso não parece ter mudado um milímetro do boné, que aliás ele não tira nem para comer.
Também não foi difícil marcar a conversa. Bastou o contacto do seu amigo Luiz Eduardo Soares, antropólogo e co-autor de dois livros relacionados com a série “Tropa de Elite”.
Enquanto o primeiro filme se centrava na forma como o BOPE — a tropa de elite da Polícia Militar — combatia o tráfico de droga nas favelas do Rio, o segundo centra-se na expansão de uma máfia: as milícias formadas por ex-polícias com ligações a políticos, que além de serem tão ou mais violentas que os traficantes são muito mais difíceis de atingir, pelos interesses que movem.
Em suma, a ambição de “Tropa de Elite 2” é tocar naquilo a que o Capitão Nascimento chama “o sistema”, ser o filme negro do que está podre no reino da Cidade Maravilhosa, espelho de todo um país.
Para quem não viu “Tropa 1”, o Capitão Nascimento é o herói paradoxal, macho e melancólico, treinado para matar e torturado pelo bem. Um “tour de force” do actor Wagner Moura, que se cola à pele da personagem.
O Capitão Nascimento é Wagner Moura.
E uma das explicações centrais para o sucesso de “Tropa de Elite 2” foi justamente ter-se criado com essa personagem “uma empatia única na história da cultura brasileira de massas”, escreveu Luiz Eduardo Soares num email ao Ipsilon, antes deste almoço. Desenvolvendo: “Com sua loucura, suas ambivalências, seus preconceitos, seu obscurantismo, sua rigidez, seus pecados, erros e crimes, mas também com sua honestidade, suas virtudes, suas intenções, sua devoção às suas convicções, com a intensidade de suas emoções ‘demasiadamente’ humanas, e, depois, com seu crescimento, seu amadurecimento, o percurso até a perda das ilusões, até a descoberta de que sua consciência era o avesso da verdade histórica, com sua educação sentimental, seu romance de formação, com tudo isso esse personagem-painel compôs uma narrativa com a qual os brasileiros se identificaram.”
Criação, também, de Padilha, que além de realizar o filme o escreveu, em parceria com o argumentista Bráulio Mantovani.

A catarse

Talvez o primeiro “Tropa de Elite” tenha tido tantos ou mais espectadores, porque foi pirateado meses antes da estreia em sala, diz Padilha. Nunca se saberá.
Mas certamente que as razões do sucesso já lá estavam, e Padilha resume-as a uma palavra: catarse.
“O público já odeia os traficantes na vida real, já não gosta da corrupção policial nem de políticos corruptos. Então as emoções da dramaturgia se somam às do mundo real. Isso explica a catarse: porque é que as pessoas se levantam no cinema e aplaudem o Capitão Nascimento quando ele bate no político corrupto. Ele está fazendo duas coisas ao mesmo tempo: batendo no personagem que feriu o filho dele e em todo o mundo que o público odeia.”
Há três anos ou quatro anos, o ódio às milícias não era assim tão consensual: “Numa favela sem tráfico nem corrupção policial, a milícia chega e é repudiada, mas uma favela com tráfico e corrupção policial no início acha a milícia boa”, resume Padilha. Isso aconteceu na fase de expansão das milícias, que corresponde à acção do filme. Depois uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) realizada em 2008 expôs a violência e o carácter mafioso da rede.
Mas para isso foi preciso a pressão de um deputado — Marcelo Freixo, na realidade, Diogo Fraga, no filme — e terem sofrido repórteres que investigavam as milícias.
“A CPI só foi instalada depois que os jornalistas foram torturados. Até aí ficou sendo rejeitada por este mesmo governo. O [actual governador do Rio] Sérgio Cabral era o chefe da base política do então governador Garotinho, que estava encorado nas milícias.” Padilha ressalva: “Não estou dizendo que o Sérgio Cabral estava ancorado nas milícias, estou dizendo que não existe uma descontinuidade assim tão grande.”
Na boca do Capitão Nascimento, “o sistema” sempre encontra uma forma de se reciclar e sair por cima, e Padilha admite que esse é o seu próprio ponto de vista: “O sistema é sempre a articulação de poderes escrotos. Não é pessoal. A milícia sobreviveu tanto tempo porque tinha uma base política.”
Mas acreditar nisto é ter consciência de que o problema das milícias — que actualmente continuam a controlar parte da Zona Oeste do Rio de Janeiro — não acabou. “Só se resolve quando houver uma reforma radical das polícias.”

Corrupção endémica

Esse é o alerta que Luiz Eduardo Soares tem feito publicamente, ele que conheceu por dentro o sistema quando foi secretário municipal, e depois nacional, de Segurança.
Sim, tem havido progressos na luta contra as milícias, mas entretanto “as polícias são as mesmas e continuam funcionando conforme a velha rotina”, resume na troca de emails com o Ipsilon.
Tanto a Polícia Civil como a Polícia Militar do Rio de Janeiro, são “ingovernáveis, orientadas por culturas corporativas incompatíveis com a democracia e os direitos humanos, e organizam-se em estruturas institucionais irracionais, refractárias ao trabalho racional, transparente, aberto ao controle externo e, por isso, avessas ao cumprimento das metas constitucionais”. Juntas “mataram, entre 2003 e 2010, inclusive, 8708 civis, em alegados confrontos”.
Então “ou serão refundadas (extintas e recriadas em novas bases), ou as fontes continuarão irrigando o crime, dentro das polícias, seja sob a forma mais organizada (as milícias), seja sob formas indiretas, como o tráfico de drogas com domínio territorial, cujo modelo está em crise por várias razões, sobretudo porque é anti-económico”.
Tráfico territorializado de drogas, lembra Luiz Eduardo Soares, “só existe pela cumplicidade policial”, assim como “tráfico de armas é praticado principalmente pela polícia ou com sua anuência”.
Sentado no seu “bistrô” de todos os dias, Padilha tem a mesma visão, e cita como exemplo o facto dos três últimos chefes da Polícia Civil terem sido “afastados no meio de escândalos de corrupção”.
O actual secretário estadual de Segurança, José Maria Beltrame, é geralmente visto como um homem honesto, e Padilha também tem “boa impressão” dele. “Mas tem de explicar por que escolhe estes policiais. Na ausência de uma reforma real, vai ficar numa situação estranha. É o chefe de duas estruturas totalmente corruptas.”
A corrupção está de tal forma entranhada “na cultura das polícias”, que a tradição remonta à Coroa portuguesa, sorri Padilha, contando que no documento de constituição da Polícia Civil está esta história: “Quando o chefe da polícia fala no salário, o representante da Coroa pergunta: ‘Você já é polícia, para que quer o salário?” Conclusão: “A polícia já foi fundada no princípio de que vai ter fundos ilícitos.”
O que há a fazer é “aceitar o óbvio, que a polícia é corrupta mesmo”, e que é preciso a ajuda do governo federal para resolver isto, “como Luiz Eduardo Soares tentou fazer”, até esbarrar no sistema.
Padilha defende “uma reforma do plano salarial, de treinamento, injecção de dinheiro e trocar as pessoas”, ou seja, “uma reforma radical” das duas polícias. Se assim não for, alerta, podem ir por água abaixo as actuais Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que têm vindo a ser instaladas nas favelas, levando os traficantes a fugir. “Sem uma reforma polícial não tenho a certeza de que as UPP não vão virar milícias.”
O actual secretário Beltrame quis “despolitizar” a escolha de comandantes da polícia, e isso é um ponto positivo, juntamente com a criação das UPP, elogia Padilha, mas não implica deixar de reformar.
Então porque é que não houve reforma? Porque custa e demora, acha o realizador. “É muito mais caro reformar a polícia do que fazer UPP. E do ponto de vista político, o projecto das UPP faz muito sentido, tem um resultado rápido.”
Isto dito, tem havido mudanças. “Vejo cada vez mais a imprensa cobrando uma reforma da polícia. A opinião publicada está mudando. Acho que o ‘Tropa de Elite’ ajudou nisso. A própria polícia, fazendo um crime atrás do outro…”
E o combate às milícias também mudou.
Há três anos, “o tom dominante não era combater as milícias, mas aliar-se com elas”, reforça Luiz Eduardo Soares. “Muitos políticos (como o ex-prefeito e o actual, e mesmo o actual governador antes de ser eleito para o primeiro mandato) justificavam as milícias como auto-defesa comunitária.”
Hoje, são “vistas como o que são: crime organizado da pior espécie, brutal e perigoso”, e isso reflecte-se em números. Se até fim de 2006 “apenas dois milicianos tinham sido presos”, entre começo de 2007 e fim de 2010 “quase 500 milicianos foram presos”.
Pergunta agora para Padilha, à mesa de almoço: então o sistema pode mudar? “Só sob pressão e lentamente. Se a gente não fizer filmes, se a imprensa não fizer matérias, não incomodar, o sistema fica como está.”

Sucesso protege

Padilha não sabe o que o actual governador, Sérgio Cabral, achou do filme, porque nunca falaram. Mas Cabral colaborou em todas as autorizações para filmar.
“Antes do primeiro filme, a polícia tentou não deixar a gente filmar. A gente mandava cartas pedindo autorizações e nunca chegava resposta. Depois exigiram ler o roteiro, o que caracteriza a censura. Isso foi no governo [do anterior governador] Garotinho. Sérgio Cabral não fez isso. Disse: é importante para a cultura carioca, vamos fazer.”
Então no genérico final do filme Padilha agradece a colaboração do actual governador. “Mas quando você agradece não significa que concorde com tudo…”
O único problema que houve foi depois do primeiro filme. “O corregedor da Polícia Militar disse que ia me prender. Em vez de investigar os corruptos queria que eu lhe dissesse quem tinham sido os polícias que me tinham falado dos corruptos. Mas aí o governo do estado achou que era ruim eu ser preso porque todo o mundo gostava do filme.”
Sucesso protege. E quem foi afastado seis meses depois foi esse corregedor.
Fora isso, Padilha nunca foi ameaçado.
“Quem tem que ter medo é o deputado Marcelo Freixo [que conseguiu a CPI das milícias], que está brigando e fazendo prender gente. O filme é genérico, não fala de um político em particular. Há uma mistura de épocas. Aquelas personagens são todas e nenhuma. Os criminosos só fazem algo quando você atrapalha um processo específico. Mas quando você faz uma coisa genérica não é inimigo de ninguém.”
Sendo que essa “coisa génerica” conseguiu mover as pessoas.
Luiz Eduardo Soares não poupa elogios: “‘Tropa de Elite 2’ é uma obra prima, uma dos três ou quatro principais filmes feitos no Brasil, em todos os tempos, e, de longe, aquele que exerceu maior impacto sobre a sociedade brasileira. Como os espectadores sabiam que o filme se baseava em fatos reais, sentiram-se intensamente sensibilizados. Afinal, mesmo supondo o pior e tendo notícias sobre a gravidade dos problemas nas polícias do Rio e na arena política, os espectadores chocaram-se quando, diante de seus olhos, o rei foi desnudado, efectivamente.”
Os críticos brasileiros tenderam a elogiar também.
E Padilha descarta as acusações de quem viu no primeiro filme algo fascista, por supostamente ser moralista contra o uso de drogas ou legitimar a tortura policial, ao retratá-la. “Quando você tenta mostrar a violência não está a fazer um julgamento moral. É preciso ter muito má vontade para enxergar isso no filme.”
Essas críticas, segundo o realizador, correspondem a “uma tentativa de desqualificar” o filme por parte de uma elite carioca. É que em “Tropa de Elite 1” apareciam muito os jovens “maconheiros” [consumidores de marijuana] das famílias burguesas. “Foi a primeira vez que alguém colocou o dedo na ferida: vocês que criticam a violência do tráfico de droga, e compram droga de traficantes armados, têm responsabilidade nesse processo. Houve um desconforto entre a Zona Sul que compra maconha. E essas críticas têm a ver com essa má-consciência. Quem compra droga de um traficante de uma comunidade carente está contribuindo para o problema. Ninguém tinha falado sobre isso. Usuário é como não existisse.”
Em “Tropa de Elite 2” uma amiguinha do filho do Capitão Nascimento também é apanhada com 100 gramas de maconha.
De resto, com ou sem “Robocop” — ser contratado para produzir um roteiro não quer dizer que a “major” avance com o filme —, os planos de Padilha continuam a passar por lugares de tráfico. Concretamente, o violento “farwest” da Tripla Fronteira, lá onde o Brasil cola com Argentina e Paraguai.

(Público, 8-4-2011)

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