Massacre nos fundos da Cidade Maravilhosa choca Brasil

Gritos. Gente a correr. “É o prefeito saindo!”, grita um homem. A multidão precipita-se, dezenas de polícias cobrem a saída de Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro.
A esta hora, num dia normal, as crianças da escola pública aqui em frente teriam acabado de almoçar. Mas neste momento o refeitório está cheio de assistentes sociais, e o primeiro andar tomado por peritos da balística.
Porque pelas 8h30 Wellington Menezes de Oliveira entrou com dois revólveres, subiu ao primeiro andar e foi apontando à cabeça e ao tórax das crianças. Matou 10 meninas e um menino, feriu 18. O pior massacre do género no país, um dos mais mortais no mundo.
O Brasil foi despertando para o choque, ao longo da manhã.
Mas o choque aqui em Realengo, bairro dos confins do Rio de Janeiro, tem pânico, raiva, luto. São os filhos deles, ou dos vizinhos.
“Na hora de pedir voto você sabe!!!”, grita uma negra para a comitiva do prefeito, antes que os carros arranquem. “É isso mesmo!!!”, apoia um homem. “Não pára nem para falar com o povo!”, continua a negra. “Tem muita mãe chorando lá! Não é filho meu que estuda aqui, mas podia ser! Quando a gente pede uma água frente a essa escola, ninguém abre a porta. Mas chega um homem dizendo que vem fazer uma palestra e já entra!”
Forma-se uma roda de aplausos. Ela chama-se Raquel Dias, tem 27 anos, um filho de seis. “Moro aqui trás”, conta. “Ouvi tiros e crianças gritando ‘Me ajuda! Me ajuda!’, batendo nos portões…” Falta-lhe a voz, está em lágrimas. “Uma das crianças mortas é filha da minha vizinha… Ele lhe deu um tiro na cabeça…”
Apontou sobretudo às meninas, como mostram as mortes.
A escola, Thasso da Silveira, tem mil estudantes a partir dos nove anos, em três turnos. É uma escola pública, o que no Brasil, com boas excepções, quase sempre quer dizer escola de pobres.
Basta olhar em volta.
Para chegar a Realengo leva uma hora de carro desde o centro, se o trânsito estiver óptimo. A alternativa é um comboio degradado. Quilómetros de favelas, depois zona industrial, zona militar, habitação social e de novo favelas. Povoado por açorianos no tempo de D. João VI, o Realengo tornou-se bairro de operários e soldados. Ainda permanecem os regimentos. Aqui esteve Gilberto Gil preso pelos militares, e por isso na canção “Aquele Abraço” aparece: “Alô, alô Realengo!”.
Mas a parte mais pobre é além dos quartéis, aqui em volta da escola.
Se o Realengo tem dos piores índices de desenvolvimento do Rio (89º entre 126 bairros), esta zona terá dos piores índices de Realengo.

Sem guarda

“A escola não tem nem um guarda municipal”, protesta Lucas, 17 anos, aluno da noite. “Fica aberta directo”, reforça Kennedy, 17 anos, aluno da tarde. Estão os dois na multidão contida atrás de uma fita.
A imprensa pode passar até ao pátio da escola. Aí, acumulam-se câmaras, microfones, carros de exteriores, polícia civil e militar, funcionários, médicos e capelões acabados de chegar.
Um quadro de catástrofe.
No modesto campo de basquete, com cestos em fiapos, Martha Rocha (nova chefe da Polícia Civil), Mário Sérgio (chefe da Polícia Militar) e o sub-secretário de Inteligência dão uma conferência de imprensa, confirmando mortos e feridos.
Como toda a imprensa se concentra ali, a vigilância na porta principal abranda e o PÚBLICO entra sem ninguém barrar a entrada.
O átrio central é onde estão as mesinhas de fórmica do refeitório. Ao fundo, num cartaz azul com corações brancos, uma frase de Ralph Waldo Emerson: “A confiança em si próprio é o primeiro passo do êxito.”
À direita, as salinhas da direcção. É aí que estão vários professores, entre dois médicos. Uma delas, Elaine, professora de português, 44 anos, 27 dos quais aqui, toma a iniciativa de dizer isto ao PÚBLICO: “É preciso saber que a maioria dos professores mora longe e trabalha aqui por amor. Aqui não tem tiroteio na comunidade [favela], sempre foi muito pacífico. Então isto é chocante, surreal. Nunca imaginámos que fosse acontecer aqui.”
Entra Martha Rocha, seguida de seguranças que afastam a repórter da sala.
Mas como Elaine sai para atender uma chamada, terminamos a conversa no átrio. “A maioria dos nossos alunos não é da comunidade. Tem criança com pai pedreiro, pai com loja…”
E foi por ter sido ex-aluno, há anos, que o atirador entrou.
“Ele arquitectou tudo”, conta Elaine. “Veio aqui antes pedir um histórico escolar. Depois veio hoje, data marcada, pegar o documento na secretaria [aponta a entrada]. Então pediu para falar com uma professora. A professora Doroteia estava na sala de leitura, no piso de cima, e ele subiu. Aí quando ele entrou, ela disse: ‘Você é o rapaz da palestra?’ E ele escolheu uma sala… Eu estava no andar por cima e foi horrível, horrível…” Minutos de tiros, com pausas e recomeços. “Muito, muito tempo. Foi um pânico, as crianças saíram correndo…”
Algumas encontraram na rua polícias que estavam a fazer uma fiscalização, e por isso a polícia militar veio rapidamente. “Chegaram em cinco, dez minutos. Se não, teria sido bem pior.”
Os primeiros agentes apanharam o atirador nas escadas. Segundo o relato tornado público, balearam-no na parte inferior do corpo, ele caiu no chão e matou-se com um tiro na cabeça.
Ibis Pereira, porta-voz da Polícia Militar, informou que os dois revólveres, calibre 32 e calibre 38, tinham “acelerador de disparos e muita munição”. Foram recolhidas mais de 100 balas não deflagradas.

Premeditação

A polícia divulgou também uma carta dactilografada e assinada à mão que o assassino deixou no local. Prova premeditação e antecipa a própria morte. Interpretações da polícia e de psicanalistas viram na carta um “psicopata”, um “sociopata”, um “fanático religioso”.
“Os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adultero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue”, escreve Wellington. Um subprefeito da Zona Oeste concluiu disto que o assassino era seropositivo.
Seguem-se instruções pós-morte: “Os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branço que esta nesse prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar (…).”
E a frase que revela planeamento do crime: “Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.”
Depois, Wellington doa a casa a uma instituição de defesa dos animais que “não podem pedir comida ou trabalhar para se alimentarem”. Fora acentos, é uma carta sem erros ortográficos.
Apanhada pela notícia numa cerimónia pública, Dilma Rousseff chorou e decretou luto nacional por três dias.

(Público, 08-04-2011)

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