A ofensiva do “aedes aegypti”

1. Estou a começar este texto em Berlim, enquanto o “aedes aegypti” avança pelo Rio de Janeiro. Segundo o site do “Globo”, no bairro onde moro a situação é “gravíssima”. Isto quer dizer que a epidemia está a caminhar para a Zona Sul, onde moram os leitores decisivos do “Globo”. A situação no meu bairro era a notícia principal do site, antes do Japão e da Líbia. É a lei da proximidade.
O “aedes” não é uma guerra nem uma catástrofe do ponto de vista mundial. Mas no Brasil é uma junção das duas coisas: um problema de saúde pública.
Desde Janeiro, só no estado do Rio, atingiu mais de 26 mil pessoas, oito das quais morreram. Os sintomas incluem hemorragias, cansaço extremo, dores abdominais, de cabeça e nas articulações, e quando parece que há uma melhora a morte está mais perto.
É a isto que se chama dengue.
Mosquito coquete, o “aedes” distingue-se pelas listas brancas nas patas e por uma espécie de lira no tórax. Mas nenhum destes sinais de nascença é tão visível que o consigamos avistar antes dele já nos ter invadido. Além da dengue, o seu feito mais célebre é a febre amarela.

2. Foi justamente em Janeiro que mudei para o meu bairro, o Cosme Velho, tão velho como o nome. Aqui vinha D. Maria à fonte, a ver se recuperava a razão, lá no começo do século XIX. Machado de Assis morou umas casas abaixo da minha, lá nos fins do século XIX. Por aqui andaram Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, que sei eu. E entre bicas e casarões com portadas de madeira eternamente fechadas acumulam-se carros a qualquer hora. Para cima, fica o túnel que leva à Zona Sul das praias. Para baixo, ficam a Glória, a Lapa, o Centro. O Cosme Velho é uma espécie de pequeno quintal do Rio, atravessado pelo trânsito.
A casa onde moro tem a vantagem de ser morro adentro, o que quer dizer que se ouvem mais pássaros do que carros, e que a temperatura é dois graus mais baixa que no resto do Rio. Mas também quer dizer que a humidade toma conta de todos os nossos bens enquanto todos os primos mais ou menos inofensivos do “aedes” tomam conta do nosso corpo. O lugar reúne perfeitas condições: vegetação tropical exuberante; águas paradas em canteiros e poças; uma cidadã de janela e porta aberta todo o dia, sendo que o “aedes” ataca de manhã e ao anoitecer, mas também pode atacar a qualquer hora do dia.
Gosto daqueles conselhos-wikipédia sobre os cuidados a ter com o “aedes”: cobrir braços e pernas e etc. Experimentem viver no vapor do Cosme Velho cobrindo braços e pernas.
Comecei pela estratégia do repelente, mas nunca consegui descobrir qual era a espécie repelida, porque todas as outras continuaram vivas e encantadas da vida, fortalecidas com o meu sangue. Exangue, corri a pé a rua mais poluída do Rio, a Voluntários da Pátria, até encontrar incenso e velas de “citronella” porque os meus amigos diziam que arrumar “citronella” era a solução. Então, na enésima loja de produtos naturais finalmente a citronella não estava esgotada, e arrumei 30 pauzinhos de uma vez e várias velas.
O quarto onde trabalho transformou-se numa Katmandu. Eu, o computador e as serpentes de fumo constituímos uma entidade cósmica. Comecei a recear os efeitos colaterais de inspirar incenso 16 horas por dia. Cheguei a recear que algum leitor de Paulo Coelho chegasse planando. Mas os mosquitos ainda não estão imunes à New Age e o festim acalmou.
Até esta Ofensiva Outono-Inverno do “aedes”.
Bem vejo o céu azul sobre Berlim, e os alemães quase eufóricos, pedalando furiosamente nas suas bicicletas, a caminho dos parques e das esplanadas, para aproveitar cada lampejo de sol. Mas no Rio acabou o Verão.

3. Ao ler o que está no “Globo” sobre a dengue lembro-me do que li sobre a catástrofe na Serra carioca: todos os anos se sabe que vai acontecer, e a cada ano é pior. Quando comecei a escrever este texto tinha morrido um bebé com dengue. Agora, que acabo de aterrar no Rio, leio que morreu outro.
Olá sétima economia do mundo.

4. Durante umas horas em Kreuzberg, entre canais, “graffiti” e bicicletas, concebi viver numa daquelas oficinas com paredes de tijolo, alto pé direito e grandes janelas de quadrícula, onde se paga uma ninharia de renda.
Uma pessoa vem do Rio de Janeiro e em Berlim come-se bem por cinco euros. Tudo parece mais barato que no Rio-fora-das-favelas e ninguém parece obcecado em comprar seja o que for. Não se vêem pessoas a sair de um centro comercial para entrar noutro até porque não se vêm centros comerciais. Não há engarrafamentos e toda a gente que não vem de bicicleta vai de transportes públicos. Além disso, o “aedes aegypti” não fala alemão.
Mas eu tão-pouco, “hélas”, e na verdade qualquer Outono no Rio será mais Verão que em Berlim.
É só questão do Rio estar à altura do que já sabe demais, e à custa de tanta gente.

5. Ao aterrar, a notícia do dia no Brasil é que os políticos condenados na justiça mas eleitos para o Senado afinal vão mesmo poder assumir os cargos. O Supremo decidiu que a Lei Ficha Limpa, feita para afastar candidatos condenados, ainda não se aplicava na última eleição. Na Band News, a rádio que aparentemente todos os taxistas ouvem entre o aeroporto e a cidade (e dentro da cidade também), o “âncora” Ricardo Boechat foi de “corja” para cima, protestando contra a decisão do Supremo. Citou Nelson Rodrigues, a propósito dos “idiotas da objectividade”, que se agarram à vírgula da lei, quando essa vírgula permite as maiores “indecências”. Citou mesmo os nazis, que fizeram tudo o que fizeram respeitando as leis então em curso na Alemanha. “O cara roubou, matou, esquartejou, comprou votos”, resumiu Boechat. “O que é imoral é que seja empossado!”
Nos 50 minutos de engarrafamento não houve novas da dengue, mas ao chegar a casa estava tudo a repelente, e a zona anda a ser fumegada.
Aprendi entretanto que o insecticida está cheio de contra-indicações e que a dengue tem quatro tipos de vírus, sendo que até agora o Rio só conheceu três, mas o quarto já chegou a Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara. Toda a gente que já estava defendida contra os vírus anteriores estará vulnerável a este. Os peritos já prevêem que no próximo Verão aconteça a pior epidemia de sempre.

(Público, 25-3-2011)

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