Agora não é Dilma que vai aos EUA, é Obama quem vem ao Brasil

Obama no Corcovado. Obama na favela Cidade de Deus. Obama no centro do Rio a falar aos cariocas. Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a visitar Dilma, a primeira presidente mulher do Brasil. Será histórico, antecipam os analistas. E porquê? Porque o que sempre aconteceu ao longo da história foi o presidente brasileiro visitar os EUA mal era eleito. Mas agora não será Dilma a ir a Obama. É Obama quem vem a Dilma. E isso significa uma coisa: o reconhecimento do Brasil como 7ª economia do mundo, com aspirações a 5ª em breve.
Em suma: já não são só os Estados Unidos que interessam ao Brasil. O Brasil interessa muito aos Estados Unidos.
“Esta é a 15ª visita de um presidente americano ao Brasil, mas é única e diferente”, resume ao PÚBLICO Paulo Sotero, director do Brazil Institute at the Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington DC. “É de facto a primeira vez que o diálogo entre a administração americana e brasileira começa ao mais alto nível com a visita do presidente americano.”
Antes de 1964, os presidentes viajavam menos. Depois o Brasil viveu 20 anos de ditadura militar, não era o mais reputado dos parceiros. Só com a democratização, em 1985, “começa a ter uma presença internacional maior”, diz este analista. A partir daí, invariavelmente, quando o presidente americano vinha ao Brasil era em agradecimento da visita do presidente brasileiro. “E dos cinco últimos presidentes, três viajaram a Washington ainda como presidentes eleitos”, acentua Sotero. Ou seja, antes mesmo de terem tomado posse. “Porque era importante aparecerem como estando com os Estados Unidos.”
Tudo isso foi mudando, à medida que o Brasil emergia como potência. “E agora o embaixador dos Estados Unidos no Brasil tem dito que o Brasil já não é mais um emergente. Diz que Brasil e Estados Unidos têm de aprender a relacionar-se de outra maneira.”
Mudanças climáticas, finanças globais, actuação nos orgãos internacionais quanto a segurança e paz, temas internacionais que agora estarão em foco no diálogo entre ambos, para além das questões especificamente bilaterais.
“Há um ambiente muito propício a que os líderes conversem”, crê Sotero. “Vamos colher o resultado de 20 e tantos anos a construir democracia e estabilidade. A visita de Obama representa um reconhecimento disso, num momento em que os Estados Unidos enfrentam a sua maior crise e se colocam numa posição de declínio relativo.”
Dito de outra forma, “os Estados Unidos são um país que precisa de amigos”, sendo que a relação com o Brasil vem de há 200 anos. “Foram o primeiro país a reconhecer o Brasil.”
A nova centralidade económica brasileira está bem destacada nas notas oficiais da Casa Branca, que sempre precedem as andanças do presidente: não só o facto de ser a 7ª economia do mundo como de ter crescido 7,5 por cento em 2010 e de prever um crescimento de 4 ou 5 por cento em 2011. Washington fala assim de Brasília, associando as duas nações: “As duas maiores economias e as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental, partilham uma das relações comerciais e económicas mais importantes do mundo.” Não só o Brasil é já o 10º maior parceiro comercial dos EUA como as exportações americanas para o seu grande parceiro a sul crescem duas vezes mais que todas as outras exportações americanas.
Por isso, a economia vai tomar boa parte do primeiro dia de Obama, amanhã em Brasília. Depois de se encontrar com Dilma de manhã, o líder americano tem uma cimeira comercial.
A visita poderá gerar, por exemplo, “maior cooperação em África”, aponta Sotero, onde o Brasil “se sente como em casa” e já tem 16 multinacionais.

Praça ou teatro

A parte carioca da visita será a da dimensão popular. Obama sairá de Brasília ao fim da tarde de amanhã para o Rio de Janeiro, onde dormirá. No domingo de manhã vai ao Corcovado com Michelle e as filhas, e depois, enquanto elas vão ao Jardim Botânico, visitará a favela Cidade de Deus, célebre por causa do filme com o mesmo nome. Estava anunciado que à tarde falaria ao povo na Cinelândia, grande praça do centro histórico (ver texto no P2), mas ontem esse plano foi cancelado, e prevê-se que Obama fale agora dentro do Theatro Municipal, que fica na mesma praça.
Os jornais brasileiros têm especulado sobre uma possível tensão Dilma-Obama a propósito deste discurso: Dilma não teria gostado da ideia de Obama fazer um discurso em plena praça pública no Rio.
Mas o facto do plano ter existido, a ponto de terem sido espalhados cartazes convidando toda a gente a aparecer, dá conta do empenhamento americano com a dimensão popular da visita.
“O Brasil é um país relevante que não representa ameaça para ninguém no mundo”, diz Paulo Sotero. “E tratando-se de Obama, há significados importantes, como o facto de ele ter origem africana e estar visitando a maior nação de origem africana depois da Nigéria. Existe uma simpatia natural por Obama, não apenas porque tem a cara da maioria dos brasileiros, como porque representa o contrário do seu antecessor [George W. Bush], que era muito impopular no Brasil.”
Para o comum dos cidadãos, a questão dos vistos será central. Há um milhão de brasileiros nos Estados Unidos, e “70 a 80 por cento estão ilegais”, diz Sotero. Mas também aí os fluxos começam a inverter-se. Menos brasileiros estão a ir para os EUA e mais brasileiros estão a regressar de lá: porque a economia no Brasil os chama. “Isso está fazendo com que as estatísticas de rejeição de vistos tenda a melhorar. E é possível vislumbrar um momento em que a exigência de visto deixe de existir, um futuro em que os brasileiros visitem os Estados Unidos como turistas e estudantes.”
Segunda de manhã Obama arranca para o Chile, e depois termina o périplo latino-americano em El Salvador.

(Público, 19-03-2011)

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