“Funk” no Buraco Quente

1. Buraco Quente é o centro da Mangueira. Falo da favela, não da Quadra de Samba. Aqui não vai haver gringos. Aliás, não vai haver sequer cariocas da Zona Sul. Vai ser noite de sexta-feira no morro, e isso significa “funk”.
Um passo atrás para a panorâmica pós-Carnaval: o terramoto no Japão está a transformar-se num apocalipse, Khadafi continua a largar um arsenal em cima do povo, e no Rio de Janeiro o povo dança em cima do arsenal.
Já vi massas com armas de fogo, mas nunca tinha visto armas de fogo no meio de uma massa que rebola os quadris, flecte os joelhos e vai baixando o bumbum como quem senta, ao som de um refrão contínuo que diz: “ Senta-senta-senta na piroca.”
Piroca é aquilo a que todo o brasileiro chama pau. Homem tem, mulher não, a não ser que se chame Vadila e tenha nascido Lobato. Aí, acreditem, o pau até pode ser virgem.

2. Mas voltemos atrás, porque antes das armas e dos varões assinalados temos um longo aquecimento. Quem quiser aproveitar para sair, esteja à vontade: daqui para a frente só esquenta.
Recomecemos pela chegada: Flávio combinou comigo à porta da Quadra da Mangueira pelas 23h, mas calha que às 23h ainda está na outra ponta do Rio de Janeiro. Então manda o tio receber-nos na rua, até onde o táxi chega: duas caras-pálidas, nenhuma com micro-saia, não tem que enganar. Além disso eu já conheço o tio de uma tarde nos becos do morro.
Tarde não é noite, e sobretudo não é noite de sexta-feira. Negão e neguinha vêm de tudo o que é morro para o baile da Mangueira. Mas o sorriso do tio, negão franzino de 36 anos, também não tem que enganar: Nilson, mais conhecido como Jacarandá, arranca alegrias do peito vá-saber-como. Nada no bolso, nem celular tem, veio de ônibus desde Niterói, lá do outro lado da Baía de Guanabara, a Niterói voltará de ônibus, t-shirt de “nylon” XXL.
Um táxi apita e príncipe Flávio desembarca de tranças verde-e-rosa, as cores da Mangueira. Assim desfilou no Sambódromo.
E aí, Flávio?
— Na paz! Que hora tem? ‘Tá cedo para o som…
Então em vez de seguirmos logo para o Buraco Quente, ficamos cá em baixo, no terreirinho onde estão os “trailers” de pastel e cerveja, mesa de plástico, ecrã na Globo com um velho mulato tocando violão.
— Olha só o Cartola!!! — dizem os meninos, Flávio, mais o amigo Zumbi, que acaba de chegar. E estendem os braços para vermos como estão arrepiados. Zumbi é filho e neto da Velha Guarda e Flávio traz Cartola de cor, pronto a cantar: “Todo tempo que eu viver / só me fascina você, / Mangueira…”
Cartola! Quem compôs como ele? Mais de 500 sambas, se diz.
Jacarandá vai buscar cerveja de litro bem gelada, copinhos para repartir, e ficamos assistindo naquele ar livre, a lua crescendo. Não é que logo hoje, logo a essa hora, a Globo dedica todo um especial a Cartola?
Zumbi nem tem calão para tanta comoção. Neguinho felino, 24 anos, pai há muito. Um? Dois? Três?! Quatro?!! “Vou para o quinto…”, sorri ele, oblíquo. A sua terceira mulher está grávida do terceiro filho que têm juntos. Os outros dois são cada um de sua mãe menininha.

3. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, as meninas da Mangueira a caminho do bar, micro-calção jeans, pernas de gazela. Flávio sussurra: “Aquela do lado de cá é minha ex…” E quando ela volta, pára e cumprimenta, encantando a geral: Alaíde, passista da Mangueira, a coisa dela é sambar.
Vem cá Alaíde, como é mesmo aquilo dos pés? Ela ri, agarra nas minhas mãos. “Põe a mão no meu quadril, assim, e agora… um-dois-três… um-dois-três… um-dois-três…” Os pés cor-de-canela esvoaçam dentro das havaianas, delicadas consequências do quadril, enquanto eu não entendo nem o um, quanto mais o três. Depois um sucessor de Flávio já a reclama, e Alaíde sai voando.

4. Estou a substituir todos os nomes próprios, para os proteger.

5. É uma da manhã quando enfim subimos a ladeira do Buraco Quente, que sempre teve tasquinha: birosca, boteco, boémia. Muito amanheceu a Velha Guarda, de tanto virar noite aqui. Agora a virada é “funk”, de putaria ou apologia, conforme vamos morro acima. Na primeira concentração de colunas de som, está de putaria: “Vem para cá e aquece a bucetinha…” Tum-te-tum, tum-te-tum. Bucetinha pode rimar com facinha, mulher que “dá para todos”, mas mulher que “dá para todos” também pode ser piranha, e quando a piroca entra na xereca o refrão repete: “Vou socar / vou socar”. Tum-te-tum, tum-te-tum.
O som está tão alto e os baixos tão baixos que vibram na base do estômago. Subir o Buraco Quente é ser tomado por uma massa quente que começa a pulsar nos nossos orgãos internos.
Os meninos páram para mais uma cerveja, fora Flávio, que é mais de uísqui. Cheira intensamente a maconha, com um travo de urina. Uma mulata sorri para nós, enquanto baixa, e baixa, e baixa o bumbum, joelhos flectidos, uma mão em cada joelho. Quando um bumbum encaixa no outro, e no outro, e no outro, tem trenzinho. “Funk” é todo um comboio de bumbuns.
Mas olhando bem, que anca lisa tem essa mulata. É então que Jacarandá a reconhece e se abraçam numa festa: ela também é de Niterói, aliás ele. Nasceu Lobato, escolheu chamar-se Vadila. “A primeira vez que ‘dei’ para homem tinha 11 anos”, conta, coquete. “Só dei para homem. À frente sou virgem.” Quer dizer, no pau.
Assim avançados que estamos, o alegre Jacarandá, que nem gosta de “funk” e está aqui de cortesia, vai revelando que ele mesmo “dá” para homem. “E sou galinha!” Quer dizer, “dá” muito.

6. Mas massa a valer vai ser agora, quando subirmos até lá acima. Há que furar entre coxas e bíceps, braços erguidos com bebidas, braços não erguidos com cigarro aceso, pares encaixados no ritmo, sentando, sentando, tum-te-tum. Todas as mulheres têm as coxas nuas, todos os homens têm tatuagem. Há um momento em que o som do “funk” de putaria, lá em baixo, ainda se cruza com o som do “funk” de apologia”, cá em cima, mas uns metros adiante já é só apologia. Adivinhem de quê.
Agora furamos entre espingardas e metralhadoras. Aliás, elas é que furam entre nós, canos para cima, dedo no gatilho, nas mãos de matulões de cara fechada, cordões de ouro ao pescoço grossos como cordas.
“Metralhadora AR-15 e muito oitão
/ A Intratek com disposição
/ Vem a super 12 de repetição
/ 45 que um pistolão
FMK3, m-16
/ A pisto UZI, / eu vou dizer para vocês
/ Que tem 765, 762, e o fuzil da de 2 em 2 / parapapapapapapapa
parapapapapapapapa
paparapaparapapara clak bumm
parapapapapapapapa…”, diz um “rap” dos MC’s Júnior e Leonardo. “Vem pistola glock, / a HK
/ vem a intratek Granada pra detonar
/ vem a caça-andróide e a famosa escopeta
/ vem a pistola magnum, a Uru e a Beretta
/ colt 45, / um tiro só arrebenta
e um fuzil automático com um pente de 90 / Estamos com um problema que é a realidade
/ e é por isso que eu peço paz, justiça e liberdade.”
Ninguém sabe exactamente quando é que a polícia vai tomar o morro da Mangueira, mas que vai, vai. E as sextas à noite no Buraco Quente vão acabar, pelo menos esta amálgama de corpos com pontas saídas, que são os canos das armas, cada vez mais subindo, como se fosse a “happy hour” dos traficantes. Nem dá para encaixar e fazer trenzinho.
Quando formos para baixo, uma coronha vem por trás, encostando na nossa cabeça. Do “skunk”, do “crack” ou do pó, o matulão que a segura olha em frente como se não visse ninguém. Os olhos dele estão vazios.

(Público, 17-3-2011)

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