O desfile dos grandes

Noite de domingo para a segunda, 0h02 A Portela vai desfilar. As bancadas do Sambódromo transbordam. Ao longe, o primeiro carro alegórico, azul com uma grande águia ao centro. Avança lentamente enquanto a torcida se agita, e então aparecem as primeiras fantasias azuis e brancas, incluindo cara pintada.
Azul e branco são as cores da Portela, uma das três escolas que esta noite não podem descer de divisão, por terem sido vítimas do incêndio que destruiu três barracões na Cidade do Samba, onde carros e fantasias são preparados para a noite do grande desfile.
Quem aqui está a assistir pagou caro ou foi convidado. Mas os ensaios são de graça, embora não tenham os carros montados como no desfile. Então o povo vem mesmo é no ensaio.
Ontem desfilaram as escolas do Grupo de Acesso, ou seja, a segunda divisão. Hoje e amanhã desfilam as escolas do Grupo Especial, a primeira divisão. Tudo vai acabar na quarta-feira, quando as pontuações forem conhecidas.
Fundada em 1923, a Portela é a campeã absoluta de vitórias no Carnaval carioca. O seu tema deste ano é “Rio, azul da cor do mar”. Fantasias de peixes e escamas. E carros com monstros de grandes pescoços prateados, cavalos marinhos, tentáculos de polvo. Mas também barcos egícicios, galeras romanas, índios.
Então vem a Bateria, o momento mais vibrante de qualquer desfile, em que o samba-enredo parece bater dentro do peito e da cabeça, tão poderoso é o som de mais de duas centenas de tambores, tamborins e outras percussões.
Isto significa que o desfile da Portela está a meio. Há o antes e o depois da Bateria. Depois, ainda aparecem zulus, corsários, caravelas e até gente em cadeiras de rodas. E a fantástica ala das baianas, que todas as escolas têm, com velhas mulatas de saia rodando, como derviches tropicais. Estas vêm de branco, tradicionais, com delicadas sombrinhas de renda.
E ainda uma ala de crianças., vestidas de caixinha de música.
A fechar os homens do lixo, varrendo serpentinas e outros despejos, que as bancas de ambos os lados foram atirando.
É sinal que o desfile da Portela acabou, e lá atrás, na avenida Presidente Vargas já se perfila a escola seguinte à espera de avançar.
O intervalo é grande o bastante para as várias praças de alimentação dos vários sectores do Sambódromo se encherem de gente.
Mas quando a Unidos da Tijuca se anuncia, o Sambódromo está totalmente recomposto. E o que se segue é tão extraordinário que no fim só conseguimos dizer: vai ganhar. Porque não parece possível que alguém supere aquilo.
Primeiro, o samba-enredo é viciante. E logo a seguir vem o primeiro de oito carros sensacionais e inesperados, que nada têm a ver com os carros tradicionais: um túmulo, cheio de fantasmas e esqueletos ondulantes.
“Escreve aí: muito bonito!”, diz um homem ao P2, de boca aberta. O carro fecha com um estandarte que é o tema do samba-enredo: “Esta noite levarei a sua alma.” Não exactamente morte: medo no cinema.
No carro que se segue, os mortos erguem fantasmas brancos em paus, arrancando aplausos de todo o Sambódromo. “A Tijuca é uma escola jovem!”, declara o mesmo espectador, mas o entusiasmo parece geral. Aliás, a Tijuca é a actual campeã.
Samurais, um robô gigante e aceso com gente em volta saindo de dentro de carros de cartão, uma ala toda de robôs amarelos. Aplausos e mais aplausos.
Mas mal há tempo de recuperar. Atrás vem já um carro todo feito de pessoas ondulando, como tentáculos, com um passarão ao centro. Mais robôs, depois as galinhas da “Fuga das Galinhas”, o Capitão Gancho na boca de um jacaré, um autocarro a dizer “Tijuca 2011”.
Segue-se uma ala de travestis, maquilhadíssimos, tacões altos, enviando beijos em todas as direcções, com o sapato brilhante de “Priscilla, Rainha do Deserto” atrás.
Mas ainda não vimos nada. Porque o carro seguinte está cheio de gorilas horrendos, e alguns lançam-se na direcção das bancadas, pendurados por cabos. Aqui o Sambódromo explode em euforia. Depois os gorilas tiram as máscaras e cantam para nós.
Tudo isto foi o pré-bateria. Lá vem ela, toda de amarelo, enérgica, festiva, e por momentos o mundo inteiro é aquela batida.
No pós-bateria haverá lugar para uma Joana d’Arc a ser queimada na fogueira, para Harry Potter e toda a sua escola de feiticeiros, com uma sensacional mesa que ondula até quase ficar de pernas para o ar, para tubarões e dinossauros, para a arca perdida de Indiana Jones.
Parece impossível que tudo isto, todos estes filmes sambando, tenham sido feitos apenas para este momento. E queremos já ir para a Tijuca, que tem carnavalescos tão inventivos e tais e tantos fiéis.
Mas eis que uma manif se aproxima. Cartazes pela greve geral, a dizer que a rua derruba a ditadura, contra a censura e pelo fim do aparelho repressivo. Uma ala de Carnaval totalmente política.
E a Tijuca encerra com um carro em que dois homens, pés contra pés, rodam como uma ampulheta.
Lá vêm os homens do lixo, e nem de propósito, talvez inspirado, instigado, um deles desata a sambar loucamente no meio da pista, com a suas vassoura, arrancando aplausos. Está certo. Este é o maior palco do mundo.

Som Mangueira

O azar da Vila Isabel, a escola que se segue, é seguir-se ao “show” hollywoodesco da Tijuca. O tema é cabelo, e há um carro com elefantes hiperealistas, que piscam o olho e movem a tromba, e haverá um carro com a modelo-estrela Gisele Bündchen, mas a impressão geral é de algo que se arrasta.
“Olha para ela!”, irrita-se uma mulata de meia idade, apontando a loura Gisele que mal se mexe. “É demasiado magra. Na televisão parece um mulherão, e olha aqui! Desaparece.” É totalemente verdade. Ao pé das mulatas, cheias de músculo e de silicone e sobretudo de uma garra imparável, a Bündchen é uma garota pálida e sem movimento.
Entretanto, a mulher que lhe chamou magra olha o céu: “Ah Santa Clara! Clareia!” Porque é mangueirense, a seguir vem a Mangueira fechar a noite e começou a chover.
Mas Santa Clara não clareia.
Em carros e fantasias a Mangueira vem morna, e a insistência da sua direcção num longo discurso inicial é mesmo recebida com vaias. Vale Alcione, senhora de um vozeirão e mangueirense de criação, abrir o desfile. E quando vem a bateria há que declarar: não existe nada mais emocionante no mundo.
Então amanhece em segundos. Voam pássaros, e quando as últimas alas da Mangueira passam, é dia claro.
No dia seguinte, entre os picos de expectativa estão a escola Grande Rio, que perdeu tudo no incêndio da Cidade do Samba, e a Beija-Flor, que é sempre forte mas este ano tem o Rei Roberto Carlos, como tema e convidado.
A Grande Rio desfila às 2h, justamente quando desata a chover, o que leva um dos seguranças a exclamar: “Ou é fogo ou é água!” Carros e fantasias improvisadas, mas mesmo assim parece prodigioso tanto feito em um mês, desde o incêndio. E o desfile fecha com centenas de fiéis não-fantasiados, apenas com t-shirts onde à frente se lê: “O sonho não acabou” e atrás: “Aguardem 2012.” É o momento mais comovente da noite.
Segue-se a escola Porto da Pedra, e enquanto isso Beija-Flor já encheu o Sambódromo de rosas vermelhas de pano. Cada pessoa tem uma. Imaginem para quem são.
5h06. Os deuses estão com o Rei Roberto Carlos. Parou de chover e a torcida da Beija-Flor é esmagadora, agitando bandeirinhas.
O desfile começa com uma telefonia de onde saem, e desaparecem e voltam a aparecer uns seres azuis. A energia é contagiante. Alas e alas de fantasias luxuosas, de cores quentes, coreografadas. Carros cheios de animais e plantas tropicais. Depois o carro alusivo ao calhambeque, feito de calhambeques e de vespas. Alas de crianças e de baianas vermelho-rubi, flamejantes.
Amanheceu já por cima do Sambódromo. “O beijo da flor é só para dizer: adoro você!” Toda a gente está à espera do carro em que o Rei vai aparecer. Mas antes ainda há fantasias de táxi, o carro alusivo à canção “Caminhoneiro” e mais outro com as baleias e golfinhos e Nossa Senhora.
Mas falta um carro ainda. Ei-lo, com Jesus e crianças vestodas de brabco cheias de rosas. Então todo o Sambódromo vai levantando as rosas à medida que o carro passa. Porque no alto, nos braços de Cristo, está o Rei, pondo a mão no peito e sorrindo, abrindo os braços ao seu povo.
E de cada lado do Sambódromo os morros das favelas, entrando na manhã de Carnaval.

(Público, 9-3-2011)

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