Preta e Bela no Cosme Velho

1. — Elas saltaram para a rua, foram atrás — disse o Marcos quando liguei do aeroporto, a dizer que tinha deixado a chave debaixo do tapete.
Elas são a Preta e a Bela.
A Bela é um pastor-alemão criança. A Preta não sei, alguma mistura. É tão grande como a Bela, mas mais velha, e a ficar cega.
Nunca tive cães e sempre tive medo de cães. Vim morar para o Rio de Janeiro e ganhei dois cães, que aliás são elas. E no começo, como já contei, eram três: havia o Bento.
Na minha primeira manhã nesta casa saí para comprar um colchão ortopédico. Foi premonitório, porque quando voltei o Bento tinha marcado o seu território bem no centro da minha cama. O lençol de croché da minha avó e a terra do jardim desfeita em lama, labor antigo e jorro orgânico, tudo num rodilho.
Era o cio.
Mas não era o primeiro, nem o décimo.
— Ele até já comeu o sutiã de uma hóspede — asseguraram-me os donos da casa. — Ninguém tem mão nele. Vai para Petrópolis.
Por isso é que na noite da Grande Chuva o Bento estava lá na Serra. Mas não se magoou.
Talvez ande a roer algum osso imperial.
2. Então ficámos nós, as garotas: Preta, Bela e eu, sempre veladas por Marcos, que não é apóstolo, mas tem faixa negra de karaté. Janeiro é mês de férias grandes, os donos da casa partiram, os filhos também.
A casa são duas, quase três. Há a Casa Grande, onde moram os donos. Há a casa por baixo, onde moro eu. E há uma casinha a ser feita no jardim. Imagino que quando tudo isto estiver cheio de gente, depois das férias, a Preta e a Bela já nem se lembrem do meu cheiro, mas entretanto, como além de Marcos só cá tenho estado eu, elas decidem da minha vida.
Aprendi com os maias do México que todos temos mais ou menos animais nossos pares. Aqueles que têm 13 animais são os xamãs. Gosto dessa ideia, mas nunca passei da ideia. Já o Marcos deve ter 13. É uma autoridade.
Ele chega, Preta e Bela estacam em adoração. Ele assobia, elas vão como flechas.
Eu, ali estou a bater no computador e pam-pam, a Bela empurra a porta com o focinho, desfila pela sala com a maior cara-de-pau, aquilo a que os judeus bem chamam “chutzpa”, e enrosca-se a meus pés, língua de fora, a arfar do esforço, à espera de festas. Lata, pura lata.
— Tem de lhe dar com o chinelo para ela perceber que não pode entrar — diz o Marcos.
Para ele é fácil. Ele é o flautista de Hamelin do Cosme Velho. Mas eu nem sei assobiar.
— Bela! Sai! Bela! Aqui! Para fora! Já!
Isto sou eu, num vai-vém, a ver se ela vem atrás de mim. E claro, ela vai e vem ladina, sem me olhar, mais rápida que a minha própria sombra. Ganha sempre: saio de vez, sento-me no banco de pedra, ela estatela-se de barriga para cima, e eu faço-lhe festas.
— É que elas foram criadas com muito carinho, estas cachorras — diz o Marcos. — Estão carentes.
Estamos todos, não é Bela?
Parece um título do António Lobo Antunes: eu comecei a amar um cão, neste caso dois, que aliás são elas.
3. Tem de amar, dizia o Jobim, porque quando você ama, você se interessa. Aí, começa a ver.
Eu comecei a ver.
Uma destas noites de Janeiro estava sentada com dois amigos no pátio e o céu começou a rebentar. Eram foguetes. Há muitos foguetes no Rio de Janeiro. Então a Preta e a Bela vieram a correr e esconderam-se debaixo da nossa mesa, onde não havia espaço sequer para uma, o que significa que se esconderam debaixo de nós. Era uma amálgama de cães com pernas e pés por cima. E de cada vez que rebentava um foguete elas tremiam e encolhiam-se.
Tiveram muitas festinhas.
Cachorro tem saudade. Cachorro escuta alto. Cachorro cheira longe. Cachorro treme. Cachorro tem medo.
Estou a escrever isto num avião, porque vou a Portugal uns dias, e só de pensar nessa noite, no medo dos rebentamentos na cabeça delas, quero voltar a correr para lhes dar mais festinhas e dizer que está tudo bem.
4. Quando a gente ama é claro que a gente cuida.
No dia em que vim ver esta casa e vi os cães, tinha duas opções: ou eu saía ou eles entravam na minha vida.
Entraram eles.
Então eu, que nunca tive cães e sempre tive medo de cães, agora chego de noite, subo entre as árvores na escuridão, e logo dois cães se enrodilham nos meus pés. E de cada vez que desço à rua, tenho de lutar para que não me sigam. Empurro-os, puxo-os, agarro-os, como me dizem que não se faz aos cães.
Eu empurro um pastor alemão. Eu?
E o homem que vem fazer uma entrega transpira de medo, todo bíceps e gémeos.
— Tem de segurar neles, já cheiraram que eu estou com medo.
Eu seguro dois cães. Eu?
5. Hoje a Bela aprendeu a saltar pela janela. Ali estava eu a bater no computador. E em vez do pam-pam na porta, ganhou impulso, cravou as patas da frente no parapeito, patinou um bocado, e depois zás, saltou para dentro, quase aterrando na secretária.
Aí, sem sequer olhar para mim, enroscou-se à espera de festas.
Será que sabia que eu ia embora?
E como é que elas, que nunca tinham saltado do muro para a rua, souberam que hoje à noite eu não ia voltar?
(Público, 28-1-2011)

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