Teatro Oficina: eles comem tudo

1. Começo
O quê, ainda mexem? E ainda se despem?
Quem pergunta assim ficou para trás: não só o Teatro Oficina está bem vivo na véspera de 2011, como passou 2010 a devorar e a ser devorado por aqueles que têm idade para serem seus netos, milhares deles, Brasil fora.
Agora são oito da noite em São Paulo, Sampa, grande caldeirão da antropofagia brasileira. O que é a antropofagia? Quando os diferentes se comem e ficam mais fortes. No velho bairro do Bixiga, uma rua desce entre o que parecem escombros. Mas há uma luz acesa: noite de ensaio no Oficina. Daqui a dois dias estreia “Dionisíacas em Viagem”, sequência de quatro peças que tem andado em digressão: Brasília, Salvador, Recife, Belém, Manaus, Inhotim/Belo Horizonte, Rio de Janeiro.
Sampa, rebaptizada Sampã, vai ser o culminar, não só porque o Oficina mora aqui, como pela vitória inédita que acaba de obter.
Fundado em 1958 por José Celso Martinez Corrêa, essa encarnação de Dionísio tropical por todos conhecida como Zé Celso, o Oficina criou um antes e um depois no Brasil ao encenar em 1967 “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, autor do “Manifesto Antropofágico.”
Foi o arranque do Tropicalismo.
E desde então o Oficina marca a cena brasileira, reescrevendo Shakespeare e a Tragédia Grega, Genet, Brecht, Nelson Rodrigues ou Euclides da Cunha, transformando-os em musicais catárticos com texto próprio, aos quais gerações de actores se entregaram sem limites.
A sombra, nos últimos 30 anos, chamou-se Sílvio Santos. Ícone da TV brasileira tornado grande empresário, ele queria fazer um “shopping” ao lado do teatro, eventualmente com o teatro dentro. O Oficina correu o risco de ser engolido pelo arqui-inimigo. Mas afinal foi o contrário.
Um rombo de 2,5 mil milhões de reais no Banco PanAmericano, do Grupo Sílvio Santos, forçou o empresário a dar o seu património como garantia, e buscar a paz com o Oficina. Para mais, o edifício do teatro acabava de ser enfim classificado como património, o que tornou o terreno ao lado dificilmente compatível com um “shopping”.
Então, Sílvio Santos cedeu o terreno para uma tenda onde cabem 1500 pessoas, primeiro passo do Teatro de Estádio, ambicionado por Zé Celso. Ei-la, a reluzir na noite, toda branca. É nela que acontecerão as “Dionisíacas”.
Mas o ensaio está a acontecer ao lado, no teatro. “Ah, só começou há uma hora”, diz o moço da recepção. Uma hora no Oficina é para aquecer. A porta dos artistas conduz a uma escada em caracol que conduz a um “open space” semi-obscuro, com “charriots” cheios de roupa, espelhos, máscaras, ao fundo um rumor de vozes e andaimes. Avançamos: lá em baixo uma rampa com actores; lá em cima, mais andaimes até ao tecto.
Isto é o Oficina. O que parecem andaimes é a plateia. O que parece uma rampa é o palco. A actuação corre por todo o espaço, ao longo da rampa, como num sambódromo, e por entre os andaimes, sempre que os actores trepam pelos ferros. A parte de cima das paredes é de vidro, com plantas e um tecto retráctil que se pode abrir para a lua.
Eis o encontro de um colectivo extraordinário com uma arquitecta extraordinária, Lina Bo Bardi.
2. Ensaio
O nome está certo: Oficina.
Esta é uma história de sexo, drogas e MPB. Uma história do teatro, do cinema, da poesia, da música, da tecnologia, mas sobretudo uma história de trabalho colectivo, ou seja de amor, ou seja de poder.
E isso é o mais assombroso na primeira experiência de assistir a um ensaio do Oficina. Não os sexos expostos, mas o trabalho que é um teatro total: muito texto, muitas canções, muita música, muita acção, muita acrobacia, muita projecção fotográfica e de vídeo, muita gente a filmar, sempre em movimento. Electricidade.
Ao todo, o Oficina não são menos de 60 pessoas continuamente ocupadas, e as peças podem durar cinco, seis, sete horas. É por isso que o nome está certo. Aqui não se pára de trabalhar. Será o contrário do caos: criação. Cada um implica o outro, vida replica vida.
E fixem este nome: Anna Guilhermina. Pouco mais que um metro e meio de gente, um caule delicado. Mas quando entra em cena devora o teatro até ao tecto.
Ela é “Estrela Brazyleira a Vagar: Cacilda!!”, a peça que Zé Celso escreveu num internamento hospitalar, como se fosse normal alguém numa cama de hospital pôr-se na cabeça da diva do teatro brasileiro nos anos 40-50-60, Cacilda Becker, e na alta sair com uma história do mundo no século XX, vista a partir dos palcos do Brasil, fase Getúlio Vargas, entre o Casino da Urca e o deslumbre pela cultura americana.
“Nada se perderá, nem se perdeu, mas o mundo agora é meu!”, canta o coro. Eles cantam, dançam, correm, dizem nacos de texto sem perdermos uma palavra, trocam mil vezes de figurino, estão em cima e em baixo e em toda a parte, mudam adereços, e cenário, e tudo isto se articula sempre com a banda ao vivo, piano, bateria, baixo, guitarra, sopros, e projecções em dois ecrãs.
Anna Guilhermina está de pernas escancaradas, num frenesim. É a defloração de Cacilda, aliás, a floração. O Oficina convida os espectadores a trazer flores para este momento. A Origem do Mundo devorada pelo Oficina. Até ela se erguer, vital, triunfante.
A repórter pensa que não é possível ter corpo e voz para mais texto, mais canção, mais acção, mais defloração e floração, e ainda só viu um terço do ensaio de uma das peças. Quando este texto acabar terá visto 16 horas de actuação, fora bastidores, e Anna Guilhermina nunca deixou de ser protagonista.
Mas reparem bem, o projecto anterior, “Os Sertões”, a partir de Euclides da Cunha, tem 27 horas de duração.
3. A estreia
É hoje.
A sequência das “Dionisíacas” abre com “Taniko”, prossegue com “Cacilda!!”, a seguir “Bacantes” e a fechar “Banquete”. Vai assim do teatro nô à filosofia platónica, passando pelo mais orgiástico espectáculo do Oficina.
Esta noite é “Taniko”, peça invulgarmente curta. Está marcada para as oito e a fila já tem mais de mil pessoas, através dos escombros do que foi demolido no terreno, até às barraquinhas de cerveja, maçarocas, pipocas, sopas, açaí. Em geral, uma noite de Oficina tem intervalo para comer mais do que uma vez.
A fila já mexe. Toda a gente avança de forma fluida, sem atropelos. Cara branca e quimono, Zé Celso está com alguns dos seus samurais a receber o público. Dançam e cantam num sussurro sorridente: “Nô Bossa Nova Trans Zen Iku… Nô Bossa Nova Trans Zen Iku…” Uma evocação da saga que foi a emigração japonesa para o Brasil.
Lá dentro, o palco tem bancadas alcatifadas de cada lado. Os espectadores alastram rapidamente. O velho senador Eduardo Suplicy, que ajudou a intermediar o caso Sílvio Santos, é aplaudido. Uma actriz vem proclamar avisos e agradecimentos, incluindo o ministro da Cultura Juca Ferreira. É dia 17 de Dezembro e ainda não foi anunciado que será Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque, a ficar com essa pasta. Zé Celso agarra no microfone para pedir que Juca fique. E palmas para Lula, “o nosso querido presidente”.
A dedicatória final é para a directora de vídeo do Oficina, Elaine César, hospitalizada depois de perder a guarda do filho de três anos. Os advogados do ex-marido argumentaram que a criança estava exposta a cenas pornográficas no convívio com o Oficina. O caso, defende o Oficina, é um atentado aos direitos humanos.
Luzes. Acção. Caligrafia ao vivo. Uma mãe despede-se do filho que vai partir. Actrizes que deslizam como gueixas e rodopiam como derviches. Tempestades no mar e Bomba de Hiroxima. Uma tábua com facas que servirão para esfaquear um homem talvez 104 vezes (ver entrevista). Velas, bossa-nova, uma sereia.
Depois uma corda dourada puxa os espectadores para a saída, até todos contornarmos a tenda, e voltarmos a entrar. Os actores olham-nos em êxtase, com um sorriso inumano. O nosso destino é sermos engolidos pelo teatro no fim, quando toda a gente se mistura a dançar.
“Você veio da China?”, pergunta uma menina de cinco anos a Zé Celso e seu quimono. Os abraços não param, ele está radiante. A repórter apresenta-se, como combinado. Ele agarra-a e atravessa com ela mais abraços e beijos até aos camarins, por baixo das bancadas.
Mal entramos, temos um nu masculino a secar a cabeça com uma toalha, num esplendor de estátua, mas cor de canela. Zé Celso corre para o sexo e pega-lhe. “Isso é pau do Brasil!”, diz para a repórter. E ri como um sátiro.
A seguir senta-se frente a um espelho, para tirar o branco da cara. Tem 73 anos e esta memória: “Estive em Portugal do dia 18 de Setembro ao dia 25 de Novembro.” De 1975, claro. “Ocupámos uma casa da PIDE e juntámos gente do mundo inteiro.” Pede um bocadinho de creme aqui, outro ali, espalma as mãos na cara. “Ah, isto arde!” E, já nas mãos de uma profissional, continua a falar do PREC, e como depois o Oficina foi para Moçambique.
Quando lhe vêm dar parabéns pelo espectáculo, lamenta um problema na luz. “Sofre, Zé, sofre!”, ri-se alguém. “Eu sofro…”, sorri ele. “E em Belo Horizonte, quando o morro invadiu?”, pergunta a uma das actrizes. “Nossa! Belo Horizonte foi o melhor! Eles tomaram tudo!”, responde ela. É Mariana, uma jovem violoncelista. Zé Celso viu-a uma vez e pronto. No espectáculo seguinte ela já era uma bacante.
Desgrenhados, suados, alegres, os actores cirandam nus. Fora Zé Celso, o mais velho será o cubano Hector Othon, barbas grisalhas. E depois há o protagonista masculino Marcelo Drummond, que tem tantos anos de Oficina como o belo Roderick, namorado do fundador, tem de idade: 24 anos.
Liberto do pó branco, Zé Celso põe baton vermelho e agarra a mão da repórter: “Vamos ver o ‘show’.” É que aproveitando o Oficina estar a actuar na tenda, a cantora Iara Rennó faz esta noite no edifício do teatro o seu concerto de estreia, inspirado no “Macunaíma” de Mário de Andrade.
Repórter numa mão, namorado na outra, Zé Celso atravessa os escombros até à boca de cena. Os técnicos sussurram que estavam à espera dele. Avançamos pelo centro da rampa, na obscuridade. Os andaimes transbordam de gente até ao tecto, olhos postos em nós. A banda aguarda, segurando baquetas e baixos. A orquestra aguarda, segurando violinos e violoncelos. Somos um cortejo de três. E só quando Zé Celso se senta, ao fundo, um ecrã se acende e aparece Mário de Andrade.
Depois, de trás do ecrã irrompe Iara, num tantan de pés descalços, cabelo afro, voz de menina, poderosa: “No fundo do mato virgem / nasceu Macunaíma / era preto retinto / e filho do medo da noite…”
Daqui a nada Zé Celso está deitado no chão a ouvir. E depois, sempre agarrando a repórter, sobe os andaimes. Pendura-se do primeiro andar, até que Iara volte a cabeça e cante para ele. Volta a agarrar a repórter e sobe mais um andar: “Aqui! Aqui!” Iara levanta a cabeça, à procura. “Olha para mim, meu amor!”, grita ele.
Quer que ela domine todo o espaço até ao tecto. Que nos devore.
4. O almoço
No dia seguinte a repórter toca à campainha de Zé Celso pelas 14h. Atende Marcelo: “Vou já descer.” Desce com o seu rabo de cavalo e um pequeno cão, mas como está a chover e o cão tem medo volta para o elevador. Subimos juntos.
Livros em modestas estantes de ferro. Livros muito lidos. E mobília desirmanada. Luxo nenhum.
Roderick roda os braços para trabalhar a respiração. Marcelo vai buscar um baseado, ou seja um charro, e oferece. No Oficina fumam-se mais baseados que cigarros.
Aparentemente moram os três nesta casa. Zé Celso atravessa a sala concentrado à procura de algo. Marcelo explica porque é difícil viajar com o Oficina. “Cena contemporânea quer dizer pobre: quatro actores e duas cadeiras. Quem consegue pagar 60 pessoas de um lado para o outro, alimentação e hospedagem?”
Falamos na duração dos espectáculos. “Mas o ‘Mahabharata’ [encenação de Peter Brook] tinha nove horas”, diz ele. “O problema é que o teatro europeu é chato. E o Zé é alegre.”
“Vamos almoçar?”, pergunta Zé, já pronto, malinha de rodas, fato de treino e colar de penas.
Desce a rua como se não chovesse. Marcelo ficou em casa, mas Roderick vem, trazendo um chifre de boi que comprou. E enquanto Zé Celso pára na farmácia, Roderick conta como se conheceram. Ele era estudante de Química em Florianópolis. Há um ano foi ver o “Banquete”. “O Zé olhou para mim e se apaixonou na hora. E no fim disse: vem ser actor connosco.” Roderick hesitou meses e depois foi. Largou tudo e veio para São Paulo.
Zé volta com os remédios, seguimos para o restaurante, três saladas, dois sucos de melancia, e ala para o teatro.
“O PT tem uma política cultural estalinista”, diz Zé Celso no táxi. “Utiliza a arte para conscientizar as pessoas. Gosta muito do Teatro do Oprimido. É a cultura para fins políticos. É ismo, também, colonizado pelo marxismo. Mas o Gil, o Caetano, o Hélio Oiticica, o Glauber Rocha, o Oficina, nós vimos a arte como um poder em si. A arte como carnaval, africano, tropical, dos imigrantes, a partir do lugar onde estamos. E o Gil trouxe essa cultura orgiástica, popular, carnavalesca, mas usando a revolução tecnológica [para o governo de Lula]. O Juca [Ferreira] foi assessor do Gil. Então o Gil saindo, sucedeu o Juca, que foi maravilhoso. Aumentou o orçamento e estabeleceu concursos, porque antes era só celebridades. Essa política deu lugar aos novos, estabelecendo pontos de cultura por todo o país, ligados à Internet. Nunca tivemos um ministério da Cultura assim no Brasil nem talvez no mundo. Lang e Malraux também eram colonialistas. E essa cultura da Tropicália é completamente descolonizada.” Mas sendo crítico do PT, Zé Celso não só é fã de Lula como de Dilma. “Naquela crise enorme do PT [Mensalão, mesadas dadas aos deputados] ela se mostrou muito firme.”
Roderick fala sobre a sua ascendência, de olho azul misturado com índio.
“Essa é que é a cultura da antropofagia”, remata Zé Celso. É que aqui a gente se come, se mistura, então é mais fácil a gente se aceitar.” E daqui vai lançado: “O marxismo só considera o oprimido e o opressor. O capitalismo está-se desmoronando.” O que aconteceu entre o Oficina e Sílvio Santos prova isso: “Uma vitória sobre o capitalismo e a especulação imobiliária.”
E como uma criança, vendo o táxi aproximar-se do teatro: “Ai chegámos! Que bom!”
5. Bastidores
Quase quatro e “Cacilda!!” começa às seis. Não temos muito tempo para concluir a conversa. Um bocadinho no camarim, antes de Zé Celso fazer alongamentos. Marcelo enrola um baseado em cima de uma Bíblia. “Eu fumei uma Bíblia inteira já”, diz Zé Celso. “Às vezes eu lia, depois eu viajava….” E ri.
A maravilhosa Cacilda está a ser já maquilhada. As outras actrizes circulam nuas. Mariana, a violoncelista, mostra o joelho esfolado na véspera.
Como é que Zé Celso escolhe as pessoas assim, olhando uma vez? “É um mistério”, diz ele, roubando o baseado que ficou pronto. “Eu sei que existe uma ‘oficinofobia’ ou uma dionisiofobia. As pessoas têm medo de trabalhar aqui porque há uma ligação total entre arte e vida. Mas tem de haver uma morte iniciática do ego para chegar no ‘em mim’. Quando você está entregue, tem muito mais individualidade. O ego é um espectáculo para o outro, não é você. Então tem de ter um desmembramento, um amassar as uvas para virar vinho. É um processo muito diferente da vida patriarcal, convencional, do sistema. Para fazer uma grande peça, um Shakespeare, um Nelson Rodrigues, você tem de se entregar. O deus Dionísio está totalmente em mim. Quando você se perde no carnaval está mais em você que nunca, ligado aos minerais, aos vegetais, aos objectos, ao cosmos. Para ter essa ligação, tem de matar a sua anatomia antiga, a colonização do corpo. Tem de encontrar a vocação das pessoas que querem retornar aos rituais dionisíacos do teatro. O teatro faz parte da natureza. É uma arte parte da ecologia humana. Os actores experimentam todos os delírios e loucuras, para além do bem e do mal.” Nietzsche é um dos autores de Zé Celso. “Essa vocação bate. É como você se apaixonar.” Roderick, por exemplo: “No ‘Banquete’, ele derrubou a cena. A tendência é o espectador cada vez assistir menos e e receber a incorporação do actor.”
O Oficina faz oficinas, as Uzynas Uzonas, e ensaios abertos. Foi assim que encontrou Anna Guilhermina. “Ela apareceu num ensaio aberto dos ‘Sertões’. É de uma família de actores, menina judia, fez ‘kibbutz’ em Israel. E na ‘Cacilda’ faz o papel da melhor actriz do Brasil, uma mulher que captava a energia toda da sala. Tem de imaginar João Gilberto actriz.”
Ri, com a cabeça para trás.
Se João Gilberto aqui estivesse ia pegar nesse baseado e dar uma tragada. “Somos muito amigos. Ele me chama de Minotauro. Uma vez deixou de fazer ‘show’ em Nova Iorque para ficar tomando cogumelos comigo, ‘peyote’.” Foi no mesmo ano do PREC, 1975. “Me convidou para ir na casa dele. Eu ia ver um ‘show’ e ele disse: ‘Isso é porcaria, venha cá já. Ele é um iogui rebolado. De bossa nova. ‘Taniko’ é isso: o João Gilberto.” O baseado está quase no fim. “Experimentei todas as drogas e não me arrependo, fez muito bem. Só não posso cheirar porque sou cardíaco. E sou favorável ao fim da guerra do tráfico pela legalização.”
Alguém toca Gershwin numa trompete, umas costas nuas dobram-se como num Renoir, Cacilda/Guilhermina relaxa numa bola de pilatos.
“É preciso um trabalho que chamo de atletismo afectivo, de respiração, de voz, de acrobacia, de resistência, de leitura”, diz Zé Celso, fechando os olhos. “Ler Nietzsche ou Oswald de Andrade para o corpo dar o que quer. Fazemos uma coisa próxima da macumba. Não é macumba, é teatro com essa religião de inversão dos valores. O cristianismo é a sublimação dessa religião. Dionísio é filho de um imortal e de uma mortal. Tem o poder intermediário, põe-nos em contacto com o divino, do dar valor à vida, a um banho de cachoeira, a tudo.”
O baseado actua. Zé Celso deita-se no chão para alongar.
Saindo dos camarins, a banda ensaia, acertam-se vídeos, há bombeiros a passar, cortinas içadas: o Oficina é tudo isto. Cada um sabe o que tem a fazer para que a beleza emerja e atinja o seu clímax.
6. Orgia
Quatro e meia e lá fora já há fila. As pessoas trazem flores para Cacilda. Rapazes com acne e brinco discutem deuses gregos.
Um problema técnico vai atrasar o início. Em círculo, no palco, os actores aquecem a voz. Zé Celso, t-shirt às riscas e suspensórios dá instruções: “Soltem as falas, liberem, liberem, e vamos dar ritmo, velocidade!” Roderick faz de anjo negro de Cacilda: Satanás.
MERDA!!!!, gritam todos.
E a tenda abre-se aos espectadores.
Durante todo o espectáculo Zé Celso anda pela cena. Anna Guilhermina vai em crescendo até à apoteose das flores sobre o seu sexo aberto. Ela é a Nina da “Gaivota”, Madame Butterfly e Desdémona. Ela bebe vinho. Não. Ela bebe absinto. Ela é o Brasil do Candomblé. “E a vida é ma-ra-vi-lho-sa”, diz ela, a rodopiar.
No intervalo, entre ruínas, fila para comer e beber. Depois a campainha chama. Assim será duas vezes. De cada vez a sala vai ficando com mais clareiras. A passagem do tempo filtra. Má sorte de quem saiu: o último acto é já o mergulho na orgia que serão as “Bacantes”.
E no dia seguinte não se consegue avistar sequer o fim da fila, compacta, fervilhante. A repórter entra pelos camarins. Zé Celso caminha de túnica vermelha e bordão. Às seis e meia o público entra, lotando as bancadas. Está tanto calor que toda a gente usa o programa ­— com as canções de cada espectáculo — para se abanar. Bancada diante de bancada, é como ver o nosso gesto ao espelho. Mas ali naquela fila, são mesmo espectadores nus? Sim, tiraram a roupa e estão ali sentados, com tufos de pêlos, barriguinha pendendo sobre o pénis, nuinhos.
Zé Celso grita por Lezama Lima e por “Cuba Libre!” Roderick entra soprando o chifre. Acende-se fogo em cena. Cheira a maconha. Os bandos de jovens que colaboram com o Oficina bordejam a arena, como um cordão em transe, já semi-despidos.
As “Bacantes” tem todos os ritmos: samba, rock, batuque, malhão malhão, ópera, missa de Bach. Eles trazem a Bruxa Má para dar a maçã a Eva. Eles misturam Fidel Castro com Zeus e a revolução. Eles usam coroas de hera e não deixam que o fogo se apague. Eles devoram uvas como se fossem carne humana. Eles viram o rabo para nós, incluindo Zé Celso/Tirésias. Eles fazem que copulam em série. Eles esfregam o pénis nos cabelos delas. Mas não há um sexo erecto.
O vinho jorra, partem-se copos, há que apanhar os cacos no meio de acção sem que ninguém se magoe. A arena enche-se, tudo a descer das bancadas para vir dançar, rebolado. Tiroteio, fumo, tropa de elite, ditadura militar, Guernica. E de novo tudo a cantar. O último solo é de Zé Celso: “É impossível ser feliz sozinho…” Marcelo beija-o na boca.
O minotauro coloca a sua cabeça. Os corpos das bacantes estão sujos de terra, brilhantes de purpurina. As bacantes escancaram as pernas.
No intervalo, um fã de acne diz: “Eu gostava de andar assim pelado, mas sou tão magrinho…”
O último acto recomeça com “Simpathy for the devil”, dos Stones: “Pleased to meet you…” Um pénis dourado de quatro metros entra em cena, como um aríete, seguido por Marcelo, de máscara e chicote, todo de couro, saltos altos e sexo de fora. Na grande orgia final as bacantes atiram-nos uvas. E todo o mundo acaba a dançar samba.
O Brasil comeu tudo e ficou forte.
(Público, 31-12-2010)

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