Complexo do Alemão: o poder já não é paralelo

A vantagem de Mozart é morar no Complexo do Alemão. Mozart, claro, é um brasileiro, e quando o PÚBLICO pára o táxi dele na rua e fala no Alemão, ele vira a cara radiante. Isto acontece ao fim de uma hora em que a rádio-táxis ainda não conseguiu um condutor que aceite ir lá.

Todo o Rio de Janeiro dos postais é Zona Sul. O Complexo do Alemão fica na Zona Norte. Não é nada difícil chegar lá de táxi se forem três da tarde e não houver engarrafamento na via rápida que sai do centro: demora 40 minutos, custa 20 euros. Mas o Alemão está a emergir da mais fulminante operação que o Rio já viu, e ninguém a deu como terminada. Ainda há buscas (homens, droga, armas) a que alguma imprensa chama “caça”. A atmosfera é volátil, e portanto ainda há medo.
Não Mozart, claro. “Essa operação foi excelente. A minha casa até valorizou.” Casa-casa, junto à entrada principal do Alemão. Saiu barata por estar na linha de tiro. “Agora bala perdida vai acabar porque a polícia vai permanecer e eles vão colocar UPP.”
UPP — Unidade de Polícia Pacificadora — é a sigla que nos últimos dois anos mudou uma parte do Rio. Não a maior parte, mas uma parte crescente. A polícia tomou vários morros da Zona Sul, o que foi empurrando o tráfico ainda mais para a Zona Norte e inchou o Complexo do Alemão.
Complexo por ser um complexo de favelas, aliás, de comunidades. “Já não diz favela”, avisa Mozart. “Os moradores não gostam. A palavra é comunidade.”
Nas comunidades do Complexo o poder verdadeiro era o Comando Vermelho, um gangue com origens na prisão da Ilha Grande (estado do Rio de Janeiro), quando presos políticos politizaram presos comuns, há mais de 30 anos.
Mas a recente onda de arrastões e carros incendiados que deixou a Zona Sul em pânico precipitou a queda do Comando Vermelho no Alemão. O poder oficial avançou com tudo. Já se sabia que ia acontecer, mas aconteceu agora e assim porque era preciso responder, e responder certo. O mundo estava olhando, em 2014 há Copa do Mundo, em 2016 Olimpíadas. O poder paralelo transbordara.
“Quem provocou essa queima de carros foram eles, a ordem partiu daqui de dentro”, diz Mozart, apontando o amontoado que é o Alemão, barracos de tijolo e cimento entre morros. Num dos morros sobressai um teleférico, quase pronto. A seus pés, fábricas velhas e igrejas novas (Igreja Cristo Rei — o Poder Pentecostal). Ao longo da via rápida, um canal de esgoto.
O primeiro soldado aparece junto à antiga fábrica da Coca-Cola. É aí que os militares estão acampados, com as suas rações de combate. O trânsito, flui, o soldado vai mandando avançar, não há controle de identidade.
Quarteirões cheios de habitação social novinha em folha, com painéis do Governo Federal (“Conjunto Habitacional Jardim das Palmeiras”). Anúncios de clínicas e Bolsa Família. Um esforço de mostrar trabalho.
Mas quando o PÚBLICO se despede de Mozart na Itararé, última rua asfaltada por onde passam carros, a primeira coisa que vê, morro acima, é um cartaz a dizer: “Sras Autoridades, Socorro. Convivemos com muito lixo, ratos e caramujos africanos. Pedimos obras nesta rua.”
Os caramujos africanos são uns caracóis gigantes que transmitem doenças e se reproduzem velozmente.
Todos (quase) contentes
A principal entrada do Alemão é a Joaquim Queirós, uma rua sem trânsito um pouco caótica, daquelas onde tanto se vendem mangas como mochilas do chinês, e a gente se senta em degraus partidos ou caixas voltadas ao contrário, e fica na conversa. Podia ser um campo de refugiados no Líbano, mas com raparigas de alcinhas e bebés ao colo, e rapazes com nomes de rapariga tatuados nos braços, e todo o mundo chinelando no pó.
O que todo o mundo vai dizer é que “antes” — ou seja, há uma semana  — os traficantes gingavam por aqui, bem armados. E agora o que se vê é o Estado numa azáfama.
Primeiro, são os emails que o povo foi mandando à polícia, e a polícia imprimiu e estendeu, tipo roupa na corda, com molas (“Parabéns a todos os policiais, heróis da nossa cidade, do nosso país!”, e por aí fora). Depois é a tenda da Defesa Civil, que busca voluntários. Depois a carrinha da Ouvidoria (Secretaria de Estado do Trabalho e da Renda), e pelo meio de tudo isto polícia civil, militar, federal, e soldados de boina vermelha.
Quando de repente aparecer a fachada do banco Santander (sucursal pioneira aqui), a AfroReggae fica por cima. É a mais influente ONG brasileira no mundo das favelas. Um “graffiter” pinta a porta, o que só por si entretém as crianças. Cada degrau anuncia uma coisa diferente (dança, circo, serviço social…) Empurrando a porta, há uma fila de gente deitada no chão, e estão todos a fazer ginástica. No canto, três miúdos jogam cartas. Por trás deles há três estantes. O painel de actividades anuncia uma “Antígona” em cartaz.
Tudo tem um ar usado por muitas mãos.
Sentada na recepção, Daiana, 21 anos, põe a mão na barriga. É uma pré-mamã de aparelho nos dentes. A filha vai nascer em Março. Vai chamar-se Ana Clara. “Me casei no sábado, no meio da confusão.” Estamos a falar de tanques entrando pelo Alemão, para além dos polícias. “Tinha policiamento até à porta do salão. O casamento estava marcado há muito e não tinha como adiar, porque eu não tinha como pagar tudo novamente. Mas como não podiam passar carros, toda a gente teve de levar tudo à mão. Passámos por tanques, inclusive o meu esposo ficou parado pelos policiais.” E ela de vestido branco até aos pés. “Voltei a pé de noite, subindo para casa.”
“Eu ia ir e fiquei preso aqui dentro porque na minha casa não teve luz durante uma semana”, conta Rafael, 22 anos, agente de projecto na AfroReggae. “Convidei 200 pessoas e devem ter ido uns 80, 100”, calcula Daiana.
Entretanto, a ginástica evoluiu para piruetas.
Lá dentro, num pequeno escritório, está a sorridente Ana Pinheiro, pedagoga, coordenadora local da AfroReggae, 37 anos de vida no Alemão. “Minha avó veio do Maranhão, criou 10 filhos aqui e aqui morreu aos 86 anos.” Isto para dizer que o Alemão é um lugar de famílias. “O meu pai e a minha mãe diziam-me sempre: ‘Você é que faz o lugar, não o lugar que faz você. Era a lei da minha família.”
O pastor e o pão
Lá fora, o pastor Benedito Romão ajeita pilhas de cuecas. É pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada “pelo apóstolo Valdemiro Santiago em 1997”, e o ramo dele é isto, uma lojinha de roupa, com extensão à rua.
Benedito é um pequeno homem grisalho, que pondera cada palavra. “No passado vivemos uma vida atribulada por falta dos orgãos competentes da sociedade, para ter educação, saúde, tudo o que dá ao homem uma vida plena. Então o jovem que está no desemprego, se é convidado a ganhar sem fazer nada, vai. Eu sou a favor da lei, sendo que onde há lei tem de haver justiça. Quando você vive numa sociedade em que existe uma desigualdade muito grande, o Estado é omisso.”
Estas carrinhas, estas tendas, todos estes serviços do Estado que aterraram no Alemão, atrás da polícia e da tropa, é tudo novo?
“Sim, tudo tão novo como um bebé que nasceu. Hoje estão. E amanhã? A sociedade tem os olhos fechados para as comunidades.” No Alemão, isso quer dizer talvez 250 mil pessoas, ninguém sabe bem.
“No passado”, diz Benedito, como se estivesse a falar de outro século, “você entrava aqui e via drogados.” Hoje o Alemão é sol e acção. “Mas tem de ter uma política voltada para o apoio ao ex-traficante, ao viciado, à prostituta…”
Na Padaria Santa Luzia da Alvorada, Eduardo, 26 anos, mulatão de “short”, vê todo um futuro-já. “Essa operação tá sendo bem vantajosa. Só o facto de você vir despreocupado e não ter aquela criminalidade já veio beneficiar. E veio a Secretaria da Renda, uma assistência social nova, legal, que não tinha.”
Nem no pico da guerra Eduardo fechou a porta. “Estive aqui aberto sábado e domingo. A gente tem de controlar o medo com trabalho. Tenho dois cabeçudos para dar de comer, e menina tem dois anos, e o menino fez 10.” Ou seja, ele foi pai aos 16.
E que viu no pico da guerra? “Eles entraram bem determinados. Houve muito tiro, tinha bala passando aqui. O poder paralelo tentou responder mas não conseguiu.” Mas havia gente para comprar pão, no meio disto? “O pessoal está tão acostumado com os tiros que vinha comprar.”
Traficantes, bandidos, criminalidade, o poder paralelo tem vários nomes, mas Eduardo prefere chamar-lhe assim mesmo, poder paralelo. “Não tem o poder judiciário e o executivo? Então eu chamo de paralelo, porque antes dominavam o Complexo todo.” Antes, ou seja, a semana passada. “Até fugiram com roupa de mata-mosquitos, de pastor, do PAC…” O PAC é o Programa de Aceleração do Crescimento, uma das bandeiras de Lula. “Tinha uns 700 bandidos na favela, eles exibiam armas para cima e para baixo, cordão de ouro, motas roubadas…”
Algumas dessas coisas, dizem os moradores do Alemão, estão acabando nas mãos de alguns polícias. Há queixas de arrombamentos e furtos. Uma pequena sombra no grande sol que parece ter tomado o Alemão. Mesmo quem se queixa, termina dizendo: “Mas 90 por cento dos polícias são honestos…”
Esse sol é a liberdade. “No tráfico, a gente tinha uma espécie de opressão”, remata Eduardo.
Ónibus olímpico
Adiante, há todo um ónibus da Secretaria de Estado do Trabalho e da Renda. É um ónibus verdadeiro, pintado de azul por fora, e reconvertido por dentro em sala de aula,  com ar condicionado e 16 computadores com ecrã “flat”, tudo resplandecente de novo. Um cartaz gigante anuncia Curso Grátis de Inglês Informatizado.
“Chegámos hoje mesmo”, diz Thiago, o coordenador, todo bíceps e sorriso. E receberam indicação para vir quando? “Ah… para ser sincero, ontem. O senhor Beltrame solicitou que o Estado ficasse presente.” Beltrame é o Secretário de Segurança no Rio de Janeiro, o homem por trás das UPP’s e de toda esta operação. “Eu ia ficar esperando o Alemão acalmar”, confessa Thiago. Mas veio a ordem para não perder tempo.
“O que fazemos é qualificar os moradores do Alemão na área de turismo para trabalhar na Copa e nas Olimpíadas.” Duas pessoas por computador, 32 pessoas em cada turma, 350 pessoas em cada seis meses, que é a duração do curso. “Até à Copa do Mundo a meta geral é qualificar 5000 pessoas.” Em várias favelas. Dessas, 700 serão no Alemão.
E na loja Toninho, de celulares, ou seja, telemóveis, que pensa a loura Eliety, 45 anos, deste acampamento estadual? “O morro precisa destas coisas, de poder tirar um documento, por exemplo. Tem muita gente carente aqui. Não tinha nem telefone. A companhia abandonou a gente. Quando abrimos a nossa loja e pusemos TIM [operadora móvel] fixo, foi quando as pessoas passaram a ter telefone.” Custa 10 vezes menos que um TIM móvel.
Eliety viu os traficantes crescerem. “Para mim era tudo menino. Mas era normal eles andarem por aqui com armas. Acho que agora as pessoas vão-se sentir mais livres.”


(Público, 4-12-2010)

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