Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

6 de Outubro de 2017, 20:00

Por

O sectarismo é uma consumição

“Lumière! L’Aventure Commence”, filme composto por Thierry Frémaux, abriu esta semana a Festa do Cinema Francês. É “composto” porque é uma selecção dos geniais filmes dos irmãos Lumière, explicados e comentados por Frémaux, o organizador do festival de Cannes. Os originais, restaurados com notável qualidade, têm todos até 50 segundos e são cenas do trabalho, de festas, de comemorações, de paisagens urbanas, algumas encenações cómicas, outras documentais. São filmes espantosos pelo enquadramento, pela figuração, pela representação do movimento naquele virar do século XIX para o século XX em que se inventava o automóvel, o trânsito ganhava velocidade perigosa, a Torre Eiffel se erguia sobre Paris, as fábricas já empregavam milhares de homens e mulheres e o mundo estava a mudar. E pus-me a pensar como é que estes filmes têm sido esquecidos, o que é uma forma de perguntar sobre o sectarismo, porque há uma estirpe de sectarismo que é simplesmente ignorar ou desprezar o passado, como se o tonante acabado de chegar inaugurasse um universo vazio, sem história. Todos caminhamos sobre o nosso passado e é bom lembrá-lo e respeitá-lo. Sim, chegamos depois de outros e o que aprendemos foi com eles. Se cada pessoa tivesse começado do zero, seria nada. Portanto, o brilho dos Lumière não nos mostra só a fundação da sétima arte, também nos ensina a olhar para hoje.

Há, no entanto, outra forma de sectarismo, porventura mais agressiva. É o sectarismo já não contra o passado, mas contra o presente. É o que em política se pode definir assim: o sectário é o que detesta quem dele está mais próximo e com quem seria mais fácil e mesmo natural cooperar. Esse sectarismo é uma consumição. Destrói uma força política por dentro e, como a história portuguesa está cheia de exemplos, todos com o mesmo destino, vale a pena reflectir sobre esse perigo.

Antes de escrever sobre esse perigo, uma palavra de precaução. Na vida pública, num grupo de teatro, num partido político, num sindicato, numa associação, criam-se sempre identidades, que são necessárias e úteis. Quem vive em comum uma luta social, uma campanha eleitoral, a encenação de uma peça, cria laços e esses laços fazem comunidade. Somos animais comunitários e ainda bem. Aprecio por isso os cânticos, até as frases que parecem imitadas de uma pessoa para outra, as liturgias, as alegrias, o orgulho que um militante tem do seu partido ou associação. Permito-me até pensar que é porque essa força comunitária é tão importante que o sectarismo deve ser evitado.

Ora, o sectarismo é perigoso porque é fácil. Ele cria um sistema de sinais e de referências auto-suficientes que, servindo para delimitar, também fecha o grupo numa redoma. A pertença é nesse caso definida pela partilha de uma linguagem tribal e pela rejeição de quem não a reconhece. É por isso que o sectarismo precisa da intriga que aponta os inimigos, exigindo com ansiedade a criação de fábulas ou de engrandecimento (o que se pode chamar caciquismo ou culto da personalidade) ou de desprezo (os outros são seres inferiores).

É, assim, uma forma de imunização à realidade: para o sectário, o que quer que aconteça pode ser lido numa rede de conspirações que nos perseguem, o que exclui qualquer responsabilidade. O mito da infalibilidade precisa de agigantar os monstros que nos atacam pois, a haver falhanço, a responsabilidade deve sempre resultar da dimensão e do armamento dos fantasmas que nos cercam.

Por isso, o sectarismo é uma armadilha para o sectário: prende-o no seu universo. O problema é que não aprender com o próximo não é um ataque nem é uma defesa, é uma fragilidade. Não ouvir o que nos diz a sociedade é uma forma de enclausuramento voluntário. Um bom conselho contra o sectarismo é: não atravesse a rua sem olhar para os lados.

Comentários

  1. Conta errada? É possível. O que leio sobre a xi legislatura é que o PSD tinha 81 lugares e o CDS 21, o que perfazia 102 contra os 97 do PS. Se a minha fonte (https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/resultadoseleitorais.aspx ) está errada, as minhas desculpas. Se não está, agradeço que me esclareça, pois algo me escapa.

    No mais achei interessante o seu argumento, F Louçã, e entendo perfeitamente a sua lógica: como em 2015 ( ao contrário do que acontecia em 2009 …) já não havia mais nada para privatizar nem para cortar, já foi possível o acordo parlamentar das esquerdas. Brilhante, meu caro! Chamo a isso cortar os dedos para salvar os anéis.

    1. Agora opta pelo deslize para debates estranhos. Em 2009? Estamos a falar de 2011 e 2015. Nada para privatizar? Havia (e há) muito. O governo actual recuou em privatizações (TAP e transportes públicos) que o PEC4 prometia privatizar. O governo actual compromete-se a nenhuma privatização. O PEC tinha um programa de privatizações que foi rigorosamente seguido pelo PSD e CDS (não fizeram nem uma privatização que não estivesse no PEC). Não se ofenda, mas prefiro o governo actual ao programa de privatizações do PEC.
      Quanto a contas do número de deputados, aí está: tivesse o Bloco renegado o seu programa e votado as privatizações com o PS, o PEC4 teria chumbado na mesma.

    2. Então, caro F Louçã, desconversamos ? Não percebeu que a minha referencia a 2009 respeitava à composição da AR quando do chumbo do pec iv ( xi legislatura , a que resultara das eleições de set de 2009)) ? Portanto, não me esclareceu pq disse que uma maioria necessitaria de 116 votos, como afirmou na sua resposta ao meu comentário.
      Quanto às contas que faz, elas não respeitam esta disputa. Tivesse eu votado PCP e não seria a si que estaria a pedir contas. Além de que não foi o camarada Jerónimo quem escreveu que «o sectário é o que detesta quem dele está mais próximo e com quem seria mais fácil e mesmo natural cooperar».

    3. As suas contas estão erradas e torna-se constrangedor lê-lo a insistir. Tivesse o Bloco renegado o seu programa e aprovado o tal plano de privatizações e cortes salariais (o PEC4) com o PS, e este chumbaria na mesma (votos contra do PSD, CDS e PCP). Claro que se podia pensar em mandar prender os deputados do PCP para que as suas contas dessem certo. Mas não pode, pois não? Porque é que então insiste numa conta que está errada? O PEC4 nunca poderia ser aprovado a não ser que toda a esquerda ao mesmo tempo traisse os seus compromissos. Se só o Bloco ou só o PCP o fizessem o PEC4 nunca seria aprovado. Ou seja, isso nunca aconteceria e é aliás por isso que os dirigentes do PS hoje não dizem uma palavra sobre o PEC4, nunca o reivindicam, nunca o dão como exemplo.
      Volto por isso ao essencial, que é a sua “desconversa” (pouco elegante, não havia necessidade, pois não, Rodrigues?): a esquerda nunca aceitou as privatizações e ainda bem. É por isso que agora pode fazer um acordo com o PS para as bloquear.

  2. Notei, notei, F Louçã ! Notei perfeitamente que bastavam ao PS ( 97 dpts ) seis votos para derrotar a direita ( 102 dpts ). Ou seja, bastava o seu e mais cinco. A restante malta da nossa esquerda “séria” até podia ter metido dispensa a pretexto de trabalho politico, se a abstenção lhes doía assim tanto, que a história tinha sido outra. Qual ao certo, não sabemos. De ciência certa sabemos apenas o resultado dos quatro anos de experimentalismo social que vivemos e quem lhes abriu a porta, apesar de todos os avisos.

    Melhores cumprimentos

    1. Conta errada, bem suspeitei: a maioria são 116 deputados. De resto, fantasias para exigir a dois partidos que renegassem os seus programas e que dessem a mão à austeridade que rejeitavam. Pode insistir nessa revisitação do passado, J Rodrigues, mas o facto é este: o actual governo só existe porque faz exactamente o contrário do que o PEC4 propunha, e só por isso é possível.

  3. Meu caro FLouçã,

    Ferro e Vitorino podem ter dito o que quiser sobre o assunto que isso me passa completamente ao lado, pois não me consta que tenham contribuído com votos para desmatar o acesso da direita ao poder. O meu caso não é com eles . É consigo e com o seu voto. Ponto.

    Obrigado pela polémica.

    1. Acho que nem notou que, se o Bloco tivesse renegado os seus compromissos eleitorais e aprovado o plano que Sócrates tinha negociado com o PSD, o PEC4 perdia na mesma.

  4. Não, caro F Louçã. Eu não entendo que o BE deveria ter-se substituído à direita; entendo que deveria ter contribuído tanto quanto possível para evitar a deriva de direita que se adivinhava, ainda que para isso tivesse de abrir mão de alguns dos seus compromissos com os eleitores. Além disso não creio que o seu critério de “seriedade” seja o adequado. Em politica a seriedade perante os eleitores também se mede pela capacidade revelada de gerir a circunstância, rompendo se necessário compromissos eleitorais, e explicando porquê. Sectarismo é ficar enfeudado em princípios e valores mesmo quando daí não é expectável que resulte qualquer mais valia para o bem-comum, bem pelo contrário, como ficou bem demonstrado.

    1. António Vitorino em 2011: “O programa do PEC é em 96% o PEC4”. Eduardo Ferro Rodrigues em 2014: “Mesmo se o PEC4 tivesse sido aprovado é provável que tivessemos a troika”. I rest my case.

  5. Caro F Louçã,

    Em primeiro lugar eu não votei PS em 2009, votei BE, e vexas defraudaram as minhas expectativas.
    Em segundo lugar não teci qualquer critica à politica actual, mas aquela que prevaleceu durante os quatro anos que o chumbo do PEC IV desencadeou.
    Em terceiro lugar continuo sem perceber o que vos impediu em 2011 de promover uma politica de alianças à esquerda que permitisse uma gestão de danos tão eficaz quanto possível, atendendo às dificuldades da conjuntura de então. Se não foi sectarismo, não sei o que lhe chamar.

    Cump.

    JRodrigues

    1. Temos uma noção diferente do que é o compromisso com os eleitores. O programa do BE em 2009 defendia o SNS, a alteração da política fiscal para defender os trabalhadores, opunha-se à liberalização dos despedimentos. O J Rodrigues entende que o BE deveria, pelo facto de o PS ter falhado a negociação com o PSD para aplicar as exigências europeias de austeridade, substituir a direita e renegar os seus compromissos com os eleitores, aumentando o IRS, facilitando despedimentos, promovendo privatizações e cortando no SNS – exactamente o que era o PEC4. Chama “sectarismo” a cumprir o compromisso eleitoral. Eu chamo seriedade. Espero que um dia entenda que o acordo actual só é possível porque o PS renegou a austeridade do PEC4, que foi exactamente o que o PSD-CDS aplicaram linha a linha.

  6. Filosofar sobre o sectarismo depois de percorrer grande parte do caminho e mostrar entende-lo será louvável. Mas se a FILOSOFIA apenas procurar abranger aqueles que nos projectam a sombra, então poderá tornar-se preocupante…

  7. Estava a ler este belissimo texto e a memória a teimar em escapar-se para o chumbo do PEC IV ! Mas claro que se trata de uma deriva despropositada, são coisas que não têm nada a ver . Sectarismo no chumbo do PEC IV? Não houve !

    JRodrigues

    1. Compreendo que haja no PS quem queira voltar ao tempo do PECIV e do governo que o propôs, o que só tem que ver com os diferentes pontos de vista internos. Espero no entanto que faça a indulgência de reconhecer que a política actual é o contrário do PECIV: onde se propunha aumentar o IRS, agora reduz-se o IRS para os trabalhadores; onde se propunha reduzir as pensões e salários, agora sobem-se as pensões e o salário mínimo. Etc. O sucesso actual depende só de fazer o contrário do que se propunha no PECIV.

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