Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Setembro de 2017, 07:57

Por

Anda demasiado nervosismo pelo ar

Há um nervosismo no ar que só pode surpreender. O PSD, mesmo se não for medido pela bitola do Dr. Rangel às quintas-feiras, vai-se enfunando: ora é a lei da imigração, ora os fundos comunitários, ora uma frase do primeiro-ministro, ora o rating, tudo o incomoda, ou seja, não há nada que possamos descortinar nesse apocalipse. O CDS não esconde que Cristas precisa de Lisboa para a sua candidatura seguinte. E, em todos os partidos, as sondagens, frágeis como elas se têm revelado à medida dos anos, provocam epidemias de susto.

Tanto barulho para nada. Excepto no PSD, não há em nenhum partido razão para se não sorrir. Tudo leva a crer que poucos dos autarcas desavindos triunfarão: há o caso de Isaltino Morais, uma recuperação desde a prisão, mas Valentim Loureiro e Narciso Miranda parecem vencidos. Tudo leva a crer que o PS arrebata a maioria das câmaras, mantendo o seu poder anterior com poucas perdas e ganhos. Tudo leva a crer que, onde tem a presidência, o PCP se mantenha e, onde é minoritário, continue numa fasquia relevante. Confirmará assim a sua força orgânica e o secretário-geral discursará aos militantes sobre o trabalho do seu partido. Tudo leva a crer que o Bloco cresça eleitoralmente e eleja vereadores em cidades importantes. Tudo tranquilo. Então, porquê o nervosismo em tantos destes partidos?

A primeira razão do nervosismo é o PSD. Se tudo estava desenhado para Passos Coelho continuar depois de outubro, mesmo derrotado, agora as águas agitam-se. O PSD pode ficar abaixo dos 15% em Lisboa e Porto, se as primeiras sondagens se confirmarem. Isso seria uma tragédia para a sua direcção. Mas o facto é que ninguém quer que Passos se vá embora: o Presidente quer mantê-lo, Rui Rio quer tempo, que a campanha interna não tem sido feliz, o Primeiro-ministro reza para que seja Passos a conduzir o PSD nas próximas eleições, o CDS também, o aparelho aguenta-o. Só que o comboio pode descarrilar em Lisboa e Porto e, aliás, os generais do PSD fizeram tudo para que isso acontecesse.

A segunda razão é o tal André Ventura em Loures. A sua campanha, em si, é uma tristeza, o PSD foge dele, os jornalistas só encontram banalidades e fingimento, a derrota é anunciada e será um ar que se lhe deu. Mas o aspecto mais importante do personagem não é propriamente os ciganos, a pena de morte, a castração e tudo o que mobiliza da conversa de sarjeta. É que o homem nasceu num programa de televisão sobre futebol. Foi o que criou a persona pública, que lhe fez sentir que não importa o que diga desde que seja chocante, que o que é preciso é abanar-se muito e interromper toda a gente. Ou seja, o exemplo pode vir a ser radicalizado: há canais de televisão prontos para inventar os seus candidatos e promover delinquentes, afinal o Brasil fica aqui tão perto.

A terceira é a manha. No caso da casa de Fernando Medina, que comprou mais caro do que um ex-ministro do CDS seu vizinho, no mesmo ano, nada a assinalar se não o interesse de Assunção Cristas que, na CMTV, pré-anunciou o que viria a ser publicado pelos jornais um par de dias depois. Sinal de nervosismo.

A quarta forma de nervosismo é a que não se esperaria que se manifestasse: Jerónimo de Sousa usa o seu repertório da raposa e das uvas para atacar Catarina, porque ela criticou os autarcas que apoiaram a troika. É portanto uma divergência inexistente, um pretexto. Mas revela uma preocupação pouco compreensível: é fácil levantar a base de um partido contra os apontados inimigos, mas era escusado ver um homem experiente como Jerónimo a ter que ouvir a resposta de Catarina rejeitando o sectarismo.

Há portanto muitas formas de nervosismo, mais do que as que se poderia esperar ou do que as que este país à beira-mar plantado merece. Mas, o que quer, cara leitora ou leitor, são eleições.

Comentários

  1. Snr.Louçã: para ser coerente e no futuro querer denunciar actos de corrupção, não pode deixar passar em claro o negócio da casa de Medina. O desejo de construir outras geringonças em Câmaras do país, não pode valer tudo. Seria o descrédito total. Se isso acontecer, a manobra não passará em claro. É bom que faça uma profunda reflexão sobre isto. E nem sei se o PCP estaria pelos ajustes; no fundo, embora conservadores e anacrónicos, têm a experiência da luta contra o Estado Novo. Ora, o Snr. Louçã, lembro-me bem, nasceu para a política muito cedo na idade mas muito tarde no tempo. Ouviu falar de Peniche, Caxias, Tarrafal pelos seus paizinhos, no conforto da sua vida de médio-burguês urbano. Os homens e as mulheres do PCP, apesar de tudo, têm outra forma de encarar a vida e o mundo.

    1. Se se sente bem a insultar as pessoas, ainda bem que fica feliz. Eu conheci a prisão de Caxias onde estive preso quando tinha 16 anos, não foi por ouvir falar pelos “meus paizinhos”. A sua grosseria fica-lhe mal.

  2. Olhando para as eleições e Trump de Loures à parte, é tudo um tão grande bocejo… E que maravilha que assim seja. A tal maldição (apócrifa) chinesa desejava ao amaldiçoado/a que vivesse em tempos interessantes… O pior é que o tempos estão de facto interessantes lá para os lados da Alemanha. A ‘Geringonça’ pacificou o País a tal ponto, Professor, que o seu sucesso ameaça tornar-se um sério obstáculo às causas normalmente defendidas pelos Partidos à Esquerda do PS (e eu só posso elogiar-lhes o pragmatismo e a inteligência). O Capitalismo arrisca-se mesmo a ser salvo, como previa Mariana Mortágua, pelos seus principais críticos. O diabo, se chegar, virá de fora…

  3. Gostei essencialmente da parte da manha. Reduzir a compra do apartamento de Fernando Medina ao preço de compra é brilhante quando é Francisco Louçã por defeito um comentador informado. Também tem por enquanto credibilidade para se poder cingir ao preço do apartamento. É uma coisa da sua especialidade. O branqueamento. Esqueceu-se que Medina é presidente de Câmara. Da Câmara que aprovou o projecto com pareceres desfavoráveis e com uma aprovação tácita em cima desses pareceres. Macário Correia perdeu o mandato por muito menos U. presidente de Câmara tem por obrigação conhecer os processos e mesmo que sejam muitos pelo menos deve conhecer o seu. É o seu está mal aprovado. Daniel Oliveira no Eixo do MAL fez o mesmo branqueamento. Foi mais longe justificou com o facto de que até ele não sabe a quem comprou a sua própria casa. Mas ainda bem que o cidadão Louçã atento trabalha para o Banco de Portugal. Estamos muito mais descansados. Asdi. prevenidos a ” manha”.Cump.

    1. Quanto à sua opinião, não a discuto, escrevi o que pensava. Quanto a “trabalhar para o Banco de Portugal”, está enganado. Faço parte de um conselho consultivo que reune duas vezes por ano, cujos membros não são pagos, e que não tem qualquer função executiva no Banco, onde portanto vou duas vezes por ano.

  4. Porquê gastar tanta cera com André Ventura, se todos o consideram defunto, para mais sendo mau defunto? Até parece que o homem concorre a presidente da república e propõe em caso de ser eleito a abolição do sistema partidocrático, que se diz democrático, mas wm que a maioria dos cidadãos se não revêem?

  5. Caro Francisco Louça,

    Recorda-se de si, antes de ser um Senador da nossa Républica? Da Rua da Palma, do convívio na sede do PSR, da luta anti-MAN, da luta contra o Racismo, a Xenofobia, da campanha contra o serviço militar obrigatório? Das despenalizações do consumo de drogas leves e do aborto? Essas eram boas causas. Que, e muito graças a si, deixaram de ser tão faladas porque a sua luta resolveu algumas destas questões e isso fez de Portugal um país mais livre, um país melhor. Infelizmente, a Xenofobia e o racismo não acabam por decreto e continuam aí, agora até promovidos por quem deveria promover comportamentos e atitudes saudáveis e sensatos. Mas esses passarão, julgo eu.

    Mas quais são as causas hoje? Onde estão as causas que nos permitam identificar com o Bloco de Esquerda? O Pop-Star system de Catarina e Mariana, fascinadas com o seu próprio charme? A luta por causas como a legalização da mudança de sexo aos 16 anos e a possibilidade de julgar os pais que não concordem? A atitude constante de má-educação contra alvos concretos como Passos Coelho e Cavaco, que me parece tão infantil e inconsequente? O permanente jogo de poder com o PS de Costa, Galamba, Moreira, Nuno Santos e Catarina Mendes? Tudo gente que, se estivesse noutro partido e noutra situação, representaria tudo em relação ao qual o Senhor (perdoe-me o atrevimento desta suposição) lutaria nos tempos do PSR. Gente que favorece a intriga, os vícios dos aparelhos dos partidos, os ódios pessoais.

    Enfim, admito estar enganado e estar a ser injusto, mas sinto um vazio quando penso em quem votar. E tenho pena.

    Cumprimentos, AO

    1. Prece um tema sobre necrofilia de um país amargurado para os que nem se mostram porque ninguém merece tal e são reserva da dignidade nacional Vou ver FUTEBOL de que não sei nem o que é um livre mas a TV que pago mesmo que não queira e que podia/devia ser veiículo de cultura e saber e recreio tem 4 canais de futebol Tenho de saber ao menos o que é um livre a atirar para o “canto” – “Se bem me Lembro” já houve boa TV melhor do que qualquer na europa perdida – decapitada e em putrefaçção

    1. Não leu bem: “E, em todos os partidos, as sondagens, frágeis como elas se têm revelado à medida dos anos, provocam epidemias de susto”.

    2. O texto de seguida exemplifica os partidos com razões de nervosismo: PSD (2 exemplos), CDS e PCP (1 exemplo cada). E porque está nervoso o PCP, segundo Louçã? Por causa do Bloco e Jerónimo teria recebido de Catarina a resposta adequada. Com efeito, escreve Louça “mas era escusado ver um homem experiente como Jerónimo a ter que ouvir a resposta de Catarina rejeitando o sectarismo.” Portanto o Bloco não é sectário, dá lições a Jerónimo e não terá razões de “nervosismo” pois Louçã não elenca uma que seja e serena está pois Catarina. E, por exclusão de partes, continuando a desconstruir o texto, também razões de “nervosismo” não terão os Verdes nem o PAN, porque também não são elencadas. Quanto à réplica que me fez o favor de emitir, não vou nessa de qualquer de nós os dois sofrer de iliteracia e consequentemente, como dizia o Herman pela voz duma das suas criações, “não havia necessidade” caro Louçã… Sem acrimónia.

    3. Não fique irritado por eu escrever o que penso. É o que continuarei a fazer. Sem acrimónia.

    4. Eu irritado ? Nem por sombras, nem um niquinho, por esse lado esteja descansado. Mas a verdade é que o Louçã tem sempre que ter a última palavra, mesmo que seja com golpes de rins. . Mas não é por isso que prescindo da minha liberdade de lê-lo ou não, de comentá-lo. ou não. E de analisar os seus estoques com florete florentino, embora de fio algumas vezes um pouco embotado. E não se zangue caro articulista pois por enquanto estamos no mesmo comboio e atentos à marcha e ao percurso, embora com estações de destino diferentes. LOL Ah. De acordo com a minha leitura do artigo que escreveu, o PS também não estará nervoso, pois nem sequer é referido no texto. E deveria estar, pois o que lhe convém – ao PS – e aos seus barões do centrão é a maioria absoluta para pôr e dispor a bel prazer enquanto que para os seus apoiantes condicionais na AR tal não seria desejável.

  6. Pedro Passos Coelho, com tantas qualidades, acabou a tornar-se útil a toda a gente. Quando estava a governar não precisava de ter uma politica, a politica dele era a politica da TROIKA embora com a ambição de ainda ir mais além, acabando mesmo com os sindicatos, e com o estado social. Agora na oposição não consegue disfarçar, que não tem qualquer ideia estratégica mobilizadora, e apesar das qualidades nunca parou de dar tiros nos próprios pés, ficando reduzido à triste condição de ficar rodeado apenas dos seus mais fieis apaniguados

  7. De facto há um silêncio cúmplice em relação a este súbito desvio para o racismo do PSD e de Passos Coelho (com falso álibi dentro de casa). Mesmo na recente lei da emigração, perfeitamente normal em qualquer país da UE, e mesmo sabendo que surgiria sobrecarga nos serviços no início, nada compreende esta posição do PSD (e CDS, no caso da nova lei, lei perfeitamente normal e cristã).

    Eu até desejava que Passos se transformasse num senador da república, uma espécie de Mota Amaral, mas na versão extremista neoliberal estilo prussiano. Sou sempre aberto a ideias diferentes.
    Mas não. O homem está mesmo decidido a “incendiar” tudo o mais possível, incluindo o próprio partido, e caso necessário, “fugir à pressa com Miguel Relvas para um país africano, num velho avião DC4, com um dos motores a deitar fumo negro…”.

    E esteve bem Catarina, na resposta a Jerónimo. É assim que deve acontecer, aquando de “picagens” directas e indirectas, de um lado e do outro, que sei ser irresistível acontecerem, e ainda mais em tempo de eleições.
    Mas Bloco e PCP têm que se lembrar que vão ter que se aturar não até 2019, mas sim até 2024, e com os mesmos líderes, porque eu não acredito que os portugueses vão cair na asneira de deitar os ovos todos no PS, para ele depois virar à direita e aos velhos vícios.

  8. “Mas, o que quer, cara leitora ou leitor, são eleições.” Portanto uma pepineira de excessos. Não terá de ser assim, mas é!

    As eleições são cada vez menos participadas e menos desejadas, são um incómodo. Mais de metade dos eleitores não votarão incrementando a tendência de subida da abstenção desde 25 de abril de 1975. Os partidos instalados estão nas calmas senão apresentavam soluções credíveis para responder às necessidades instaladas nas cabeças que votam abstenção. Não o fazem. Apontam-lhes a “pistola”.

    Em boa verdade os portugueses sabem que o voto não decide nada que não esteja decidido por Bruxelas e Frankfurt e consequentemente não precisam votar. Seja quem for a ocupar os lugares de capataz do protetorado cumprirá as ordens do dono. Com voto ou sem voto a sorte está ditada sem jamais ter sido votada.

    Percebe-se que a chinfrineira do discurso eleitoral apele para dichotes, agoiros medonhos, escória de fusão social passada. Realmente está em discussão que tudo fique na mesma.

    Nervosismo há quando os votos são ameaçadores do “tá-se bem!” como se vê em Madrid por causa dos votos que ainda não foram votados na Catalunha. Vemos como o democrata Rajoy quer distância dos votos nem que tenha de prender os eleitores, roubar os boletins de voto… A malta que está no poder quer votos laudatórios não dos que decidem. As eleições são aquela maçada que está a ficar fora de moda.

    Macron explicou no dia 29 de agosto, dirigindo-se ao corpo diplomático acreditado no Eliseu, que acabaram as democracias nacionais e supra-nacionais e também o interesse público ou a Res publica e portanto a República. O que existe para o sábio do Olimpo é uma lista heterogénea de coisas e ideias??? Ele está bem informado, sabe que o poder não vem das eleições mas das ações!

    1. Macron é um ar-que-se-lhe deu…Nem as confidências intimas à hilariante Amanpour/CNN o salvam. Irá mesmo
      ser flagelado pela dupla autoritária e cinico-imperialista Merkel/ Schäuble,coitado. O pior é o dumping social
      que instalou de bandeja rendido e os inerentes fretes aos Rothschild para vender o TGV aos alemäes. Que desgraca. No
      meio deste cenário de apocalipse, ninguém sabe onde Juncker conseguirá balbuciar a medo a sua demissäo.

    1. Fiquei com a impressão de que, havendo eleições, todos os partidos disputam poder. Estarei errado?

    2. Por acaso está, dado me lembrar perfeitamente (há uns anos) do Bloco dizer que só queria ser oposição. Mentiu claro.

    3. Caro Adriano, fontes para o que diz, tem? Se tiver, disponibilize, por favor.

      Nota: Bem sei que o Adriano “se lembra”, mas isso não é fonte, lamento! Isso é tipo o Trump, que se lembra de ver pessoas em New Jersey a festejar o 11 de Setembro na rua, não aconteceu, mas ele “lembra-se”!!!

      Nota: Se ainda assim, lhe faz confusão as pessoas que dizem uma coisa hoje e outra amanhã,recomendo a visualização deste vídeo:

      https://youtu.be/EartTuAf__M

      Cumprimentos

  9. Dada a superioridade moral com que comenta e aponta como todas as forcas politicas estão erradas, sendo especialmente inócuo perante a sua, seria de esperar que não ficasse tão incomodado com a liberdade de expressão dos outros. Acusa e critica a oposição se ser contra tudo, mas o próprio se enoja contra tudo da oposição. Tem em muito baixa conta a sua audiência, ou sabe muito bem para quem escreve! Um gosto ver a falta de isenção e pouca objectividade de um Conselheiro de Estado (aka. Senador da Republica). #merecemosmelhor

    1. “Superioridade moral”: parece que o David Barata se dá mal com as opiniões com que não concorda. Nada me “enoja” na atitude do PSD, até acho esplêndida a continuidade de Passos Coelho, como escrevi. Se tivesse lido tinha poupado a sua amargura. Bom fim de semana.

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