Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

7 de Setembro de 2017, 08:28

Por

@ entre acentos, géneros e beijos

Na linguagem da Net, foi dada sentença de morte ao espartano acento circunflexo, ao lânguido til, aos austeros acentos agudo e grave, e às cerimoniosas cedilhas. Quanto ao diacrítico trema, já antes do internetês, foi ao ar na reforma ortográfica de 1945, ainda que se use noutras línguas, como o alemão e até o espanhol, sem ser uma vergüenza. Dizia o grande escritor de língua portuguesa Machado de Assis que “escrever é uma questão de colocar acentos”.  Há acentos (às vezes confundidos com assentos) para todos os gostos nas línguas do mundo. Por exemplo, o acento circunflexo invertido chamado cáron (Ă) próprio de alfabetos eslavos e não só, ou o anel das línguas escandinavas (Å).

No endereço electrónico, fui dos sacrificados. Na primeira versão, tiram-me um til e um acento e juntaram-me voluntariamente à força. Fui, assim, bagaofelix. Entretanto mudei, depois de insistentes pedidos destes apelidos. Mas também os meus nomes próprios António e José apanham com tal cerceamento de acentos. Como tentativa de aliciamento, deram-me, desprezivelmente, uma arroba @, igual para todos, retirada da tradição britânica de afixação de preços – at – nas velhas mercearias da ilha. Eu que, da arroba, só sabia os quinze quilos! Curioso é que, cada país, cada arroba, sobretudo zoológica. Em Itália o símbolo @ é o caracol (chiocciola), na Suécia é a tromba de elefante (snabel), na Holanda é o rabo de macaco (apenstaartje), na Grécia é o patinho (papaki), na Rússia é o cão (sobaka) e na Polónia é o macaco (małpa). À atenção do PAN!

Devido a ausência de um género gramatical neutro em português (e também noutras línguas), movimentos de (outros) géneros lembraram-se de usar o símbolo @ como substituto neutro para se referirem a grupos de géneros mistos, em desfavor da regra que, na maioria dos casos, dá preferência ao género … masculino. Tal parece ter resultado da forma da própria @, uma quase fusão das letras a e o, que definem o género feminino e masculino das palavras. Assim, a “correcção política” fica assegurada exterminando essa diabolizada discriminação linguística, embora cá para mim, a @ (ela própria feminina) esteja mais inclinada para, fisicamente, se associar a um a do que a um o. Palavras como amigos, moradores, candidatos, caros, alunos, meninos são transformadas em amig@s, morador@s, candidat@s, car@s, alun@s, menin@s, se o grupo citado for composto por pessoas do sexo masculino e feminino. E, já agora, que tal portugues@s para evitar o longo e inchado “portugueses e portuguesas”?

Ora, de quando em vez, lá me aparecem no telemóvel ou no computador mensagens de atacado enviadas para car@s senhor@s ou querid@s amig@s fazendo da @ um símbolo assexuado em termos gramaticais.  Como @ puxa @, lembrei-me, por associação, da contracção abreijos, que evita os “beijos e abraços” no final das ditas mensagens. Curioso, se a contracção fosse ao contrário, daria beiços e o seu aumentativo beiçolas. Não me agradam os abreijos, devo dizer. Primeiro, porque não sei como se dão. Segundo, porque não sei se beijo e abraço são simultaneamente obrigatórios. Terceiro, porque ainda fico mais confuso quanto à decisão de dar um beijo numa face ou optar por dois ósculos nas duas faces. É que há uma senha ou um código para distinguir o grupo dos “beijos-dois-em-um”. Em certos grupos sociais pretensamente poderosos, ricos, ou “bem-educados”, o beijo deve ser em dose mínima, não vá o diabo tecê-las. Já a larga maioria beija-se em dose facialmente dupla. Custa o mesmo e não paga imposto. Ainda não desisti de tentar perceber a razão daquela, literalmente falando, singularidade beijoqueira.

Comentários

  1. “ridendo castigat mores”(corrige os costumes sorrindo).

    Vergílio Ferreira conta em “Manhã Submersa” como era possível, na Guarda, ou lá perto, em Melo, os filhos dos camponeses terem a possibilidade de aprender latim e acesso a comida e dormida. A Igreja recrutava o seu Pessoal nas classes mais desfavorecidas. Assim, desta forma, os mais pobres tinham acesso ao latim. Era o Portugal do Estado Novo. Manuel Maria Carrilho, confessou que, em viagem no automóvel ministerial de Lisboa para Melo-Guarda, para acompanhar em 1996 o funeral do escritor, passou umas horas de puro deleite a ler o diário “Conta Corrente”. Em 1996 os tempos já eram outros e Carrilho soube estar à altura.

    Os mais endinheirados mandavam os seus filhos para os Liceus -o liceu dava acesso à Universidade, na altura sinónimo de vida decente e desafogada no futuro, o que já não se verifica nos dias de hoje. O pianista Pedro Brumester disse há uns anos, a este Jornal, que o facto de ser bom pianista não era propriamente excepcional, porque se limitou a aproveitar as condições da sua origem de classe e não fez um grande esforço para atingir tal desiderato. Os filhos dos camponeses, retratados pelo escritor Vergílio Ferreira, esses sim fizeram um grande esforço. Como primeira condição para o efeito tiveram de vencer a fome e o berço desfavorecido. E, nesta óptica, fazem juz aos aplausos do pianista.

    A Internet é isto mesmo: é possível aprender latim on line e, quase tudo, por esta via. Existem licenciados on line pelo Serviço Público de Ensino – vide Universidade Aberta de Portugal. Já não é preciso nascer em berço de ouro para aprender Latim, Física, Literatura ou Matemática. O mundo mudou e está a mudar.É preciso que todos reconheçam esta verdade.

    Não vale a pena a colocação em bicos de pés. A erudição já não é o que era. Dantes ajudou muita gente a governar a vidinha, engrossando as extensas redes clientelares dos partidos do centrão. Os lugares estão ocupados e os obstáculos para a entrada para a “carreira” de boy ou girl são cada vez maiores. A crise e o “colete-de-forças” europeu estão a ditar a sua lei. E no próximo dia 1 de Outubro existe nova distribuição de benesses. Mas nada que se compare ao antigamente…foi chão que deu uvas.

  2. Estimado Senhor Dr. Bagão Felix
    Passeando, com o meu “rato”, encontrei-me, sem esperar,”entre acentos, géneros, beijos e @”. Humor, maravilhoso, culto, subtil e oportuníssimo. Obrigado. Ocorreu-me a frase:”ridendo castigat mores”, vinda dos nossos “maiores” e inspirada em contexto que não o ortográfico. Quanto à questão subjacente, permito-me dizer que me sinto desconfortável, ao verificar que o AO 90 atropelou,atrofiou e secou a raiz erudita de muitas palavras do nosso rico e suave léxico e a internet volatilizou muito dessa riqueza e suavidade.

    1. Aditamento

      Escrevi juz e não o deveria ter feito.É jus, a forma correcta. Na dúvida, consultei o dicionário já depois de ter introduzido o texto. Errei.

      É sempre a velha questão: eu não sou José Pedro Machado. Nem Rodrigo Sá Nogueira ou Rodrigo Fontinha. Quem escreve neste país com base na derivação do latim ou de outra origem? Os linguistas, claro. Os restantes com consulta aos dicionários em caso de dúvida e servindo-se da memória. O que me leva à seguinte questão: para quê valorizar, pela negativa, estas situações? Estou de alguma forma em concordância com o comentário de Silva. Simplificação precisa-se. Acha-se que o capitalismo é o melhor sistema económico possível, não é, caro Professor Félix? Então, viva-se com os seus inconvenientes, porque no capitalismo é preciso crescer sempre para que alguns cresçam muito mais e, sobretudo, é preciso vender e comprar. Simplifique-se, portanto.

      jus latim de ius -direito(Rodrigo Fontinha).

  3. Adorei a sua crônica. Como jornalista, cronista, ex-professor de Jornalismo aqui em São Paulo, Brasil, fico encantado em ler o jornal Público, especialmente quando se bate de frente com uma cronica tão bela, curiosa e cativante. Como é linda e complicada a nossa Língua Portuguesa, não? Mas como é bela em muitas de suas palavras como amor, saudade, Portugal, que eu adoro tanto. Parabéns António Bagão Félix, António, que por aqui perderia o acento, que não tem nada a ver com o assento. De qualquer forma é muito gostoso ler o Público aqui de longe, sonhando com o Portugal dos meus avozinhos.

  4. A nossa língua está (sic) “sobrecarregada de manhas”. E, onde há manhas, há, seguramente, manhosos. Não será o caso daqueles que acham ser a sua “língua a sua Pátria”, parafraseando o poeta.

  5. Com um computador comprado em França não é possível escrever com correcção algumas palavras em português.Exemplos: rã; má; mão;meritíssimo; molúria(orvalho), moluscóide; nórdico;núcleo; município, etc…

    Vogais em francês(para o português, algumas não são necessárias e outras não são utilizadas):

    vogal a com diferentes acentos: a; à; â (payer; voilà; âme)

    vogal e idem : e, è, é; ë; ê (sec; mère; étudiant; noël; forêt)

    vogal i idem : i; î; ï (si; île; maïs)

    vogal o idem : o; ô (sot; drôle)

    vogal u idem : u,û;ü (jeune; jeûne;jeüner)

    No francês temos as seguintes características(o português, em comparação, terá outras): (1) só existe acento agudo na vogal a; (2)o trema aparece nas vogais e,i,u; (3) o acento circunflexo aparece nas cinco vogais; (4) não aparece na língua o til.

    O melhor será adoptar um conjunto de símbolos adaptados às línguas do mundo ocidental. Para um conjunto determinado de línguas a adaptação não trazia grandes benefícios; vide árabe e outras línguas.

    1. Só existe, mais exactamente, acento agudo na vogal e, em vez da vogal a. Lapso de escrita.

  6. Na realidade, o trema continuou a ser usado na língua portuguesa até à adoção do Acordo Ortográfico de 1990. Tremo de pensar que o douto cronista ache que no Brasil não se fale… português.

    1. Como facilmente verificará, referi que o trema acabou com a reforma de 1945. Não disse que acabou no Brasil, o que é bem diferente. E não trema com o trema. No Brasil fala-se evidentemente português. Não tenha duvidas quanto a eu saber isso. Aliás, basta ler a parte do texto em que me refiro a um grande escritor de LÍNGUA PORTUGUESA Machado de Assis que, como saberá era brasileiro.

    2. Ha trema no Brasil por enquanto. O povo não votou nele tem a legitimidade colhida. Em breve deixa de haver trema no Brasil.

  7. Tudo boas noticias. Quanto maior simplificação no português melhor, para tornar objectiva e sã uma língua tão sobrecarregada de manhas.

    1. As manhas estão mesmo nas pessoas, nunca nas palavras de uma língua, por mais complicada que ela seja. Está a confundir a simplificação do acordo abortográfico com o desaparecimento das manhas e isso, como saberá, é impossível.

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