Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

4 de Setembro de 2017, 08:47

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Barcelona entre o terror, a vergonha e o exemplo

naom_59a0a5d5940efPassaram quase três semanas sobre os trágicos acontecimentos em Barcelona. As Ramblas voltaram ao frenesim do Verão e de um turismo apopléctico. “Não tenho medo” (“No tinc por”) foi a exortação, ainda que naturalmente o haja. Mas – para o bem ou para o mal – a memória já não é o que era. Acontecimentos graves ou ligeiros, profundos ou efémeros, tenebrosos ou divertidos esfumam-se, anulados ou esbatidos pelos que se lhes sucedem numa girândola vertiginosa onde quase só há espaço para o estar e onde parece já não caber o ser. Tudo se transforma numa futura efeméride ou num fugaz regresso por associação de acontecimentos. De uma maneira quiçá rude, a única memória que perdura é a da irreversibilidade da morte. Há sempre candentes chamamentos, exaltação de sentimentos, lutos sociais e palmas, palavras pesadas e creio que sinceras de circunstância, promessas inúteis e declarações pomposas. Depois, é o lugar para o sótão da memória. Para os que desapareceram, passado o percurso dos dias seguintes, resta a memória dos próximos. A “normalidade” volta às notícias, às conversas, aos facebook e outras expressões virtuais de relação. A tudo isto acresce o desvalor da morte, quase banalizada. Primeiro, é um choque telúrico e também de medo, depois é um registo estatístico e comparativo. Tudo graduado e hierarquizado. Morte aqui é assunto grave. No Iraque, na Síria, no Paquistão, no Afeganistão, no Mediterrâneo, sempre em escala brutal e recorrente, é rodapé noticioso e é indiferença ou atenção de desacompanhados neurónios na nossa Europa.

Volto a Barcelona e à impressiva manifestação de 26 de Agosto. O que vimos nos ecrãs televisivos e nas fotos na comunicação social?  Protestos constantes contra o Rei e o governo central e vivas à Catalunha independente e a outras acções afins. Momentos de luto, de respeito, de solene e profunda homenagem aos mortos? Houve, evidentemente, mas engolidos e trucidados por deslocadas e oportunistas expressões de contestação. Quem ali tivesse chegado e não soubesse do que se tratava, até poderia deduzir que que a culpa daquele hediondo atentado foi do Rei Felipe VI e do Governo de Rajoy (evidentemente de direita, pois que de esquerda ou do Podemos outro galo cantaria). Havia cartazes que diziam “as vossas políticas são os nossos mortos”. Outros cartazes sentenciavam “Felipe, o povo quer paz, não negócios de armas”, paradoxalmente depois de um atentado em que a terrorista arma letal foi uma banal furgoneta! Uma vergonha inqualificável.

Os que assim agiram não tiveram, ao menos, o pejo de guardar os seus legítimos protestos para outra altura. Mas, o pior ainda estava para vir. Entre uma profusão de cartazes de protesto de política interna, nem um que se tenha visto a condenar, preto no branco, os terroristas. Havia muitos dizendo “Não à islamofobia”, enquanto eram explícitas ou sugeridas outras fobias, como ao rei e monarquia, à Espanha e à direita democrática. Enfim, sempre moderados para o Islão radical, sempre radicais para a diferença democrática. Felizmente vivem em liberdade!

No meio de tanta hipocrisia e aproveitamento, houve um gesto que vale mais do que toda a manifestação. O pai espanhol de uma criança de três anos que morreu no atentado, disse que sentia “necessidade de abraçar um muçulmano”, para esbater e amenizar a dispersão de ódio, tendo o imã muçulmano, que vive na localidade daquele pai, acedido ao seu pedido. O momento do abraço ocorreu à porta da mesquita onde foi realizada a homenagem e encerra, em si, um gesto corajoso e de incitamento à paz, mesmo nas mais terríveis circunstâncias em que pais jovens perdem um filho do seu sangue. Ao ver as imagens, ainda quero crer na vitória do Bem.

 

 

Comentários

  1. Talvez este “desacompanhamento neuronal” da Europa se deva à incapacidade desta assumir uma identidade cultural. Porque o islão radical é causa directa do terrorismo, da religião fala-se com pinças ou com desfoque e nunca se refere a matriz judaico-cristã que nos distingue mas que, por várias razões, não nos pode liderar. Herdámos do séc. XX a literatura do anti-herói e um nihilismo cínico que, de barriga cheia, faz praia no cemitério do Mediterrâneo. E gostamos de esquecer.

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