Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

17 de Agosto de 2017, 08:22

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Topos de gama e gamas de topo

Gama, terceira letra do alfabeto grego, mas também expressando uma série de coisas da mesma categoria, ordenadas segundo o seu valor. Topo, entre outras significações, quer dizer o grau mais elevado que se pode alcançar. Topo de gama, uma expressão recentemente lexicalizada de carácter qualificativo, que atribui a um dado objecto um lugar preferencial numa determinada escala.

O tempo de agora convive bem com esta desengonçada expressão. A obsessão topo-gamista invade tudo e enevoa cabeças. Topo de gama para automóveis, topo de gama para andares de luxo, topo de gama para equipamentos electrónicos, topo de gama para telemóveis, topo de gama para as “bimby” e respectivos ersatzes, topo de gama para canídeos, topo de gama para comida de animais de estimação, topo de gama nos lugares dos estádios, topo de gama para topos de gama …

As regras são implacáveis na “topolândia”. Quem não alinha (por não poder ou não querer) com esta bitola consumista é antiquado, parolo, rústico, pelintra ou pobretana. A marca de água neste novo reino do gastar e do trocar é o “certificado topo de gama”, adquirido algures e exibido por toda a parte. Tem a vantagem de se mostrar por símbolos exteriores, por sinal bem visíveis e assinalados. Não exige, por seu lado, atributos interiores e invisíveis que são suporte da vida fora da efemeridade dos topos e das gamas. O coleccionador de topos de gama veste bem e calça melhor. Fala de arte e cita Montesquieu. Exibe, garbosamente, um insondável kit de gadgets, incluindo o último grito da moda tecnológica segundo a revista da especialidade. Fala abundantemente com estrangeirismos e aprimora a fragrância matinal.

Evidentemente que o topo de gama pode ser mais de topo do que de gama, ainda que de gama, enquanto tempo de um verbo, se possa sempre dizer algo mais. Sobretudo, considerando a convergência, que por vezes existe, entre o topo de gama e a gama fiscalmente declarada do salário mínimo nacional, ou seja, o rendimento de menor grana, mas de maior gama.

O verbo topar é inseparável do topo de gama. Porque este só faz sentido se for topado. Quer dizer, falado, comentado, invejado, atraído, comparado. A relação com outro verbo – gamar – não é absoluta, mas a sua correlação é crescente. Quer dizer, gamar pode ser uma condição necessária para se chegar ao topo de gama, dependendo, obviamente, da gama e do gamão. Topam?

Há também os topos de gama que, recorrentemente, levam uma topada fiscal que os torna inacessíveis ao comum dos mortais, a não ser se exibirem passaporte e recursos topos de gama chineses, franceses, russos e de outras paragens.

Falando em impostos, é verdade que os há também topo de gama. Mas esses ninguém os quer exibir, embora, por vezes, topem (isto é, tropecem) nas declarações tributárias.

O certo é que o Estado Fiscal qualifica quase tudo como topo de gama. O mais recente imposto topo de gama é o adicional ao IMI. Mas também no IRS, onde um modesto ordenado paga uma taxa marginal de 42%, nos combustíveis onde o fisco mama qualquer gama, para já não falar no mamão IVA, que é o topo de gama dos tributos. Pena é que o IVA da electricidade que é de alargada gama, mas não é de topo, tenha a mesma taxa de IVA dos diamantes, carros de alto luxo ou vestuário sacado aos animais selvagens que são de restrita gama, mas de elevado topo.

Há ainda os topos de gama literários. Há quem lhes chame best-sellers, ainda que os dois conjuntos não sejam necessariamente iguais. Mas basta ir a uma livraria para apanharmos nas ventas logo à entrada os topos de gama “light” (lidos (?) agora, nas praias e arredores), enquanto nos vemos em palpos de aranha para encontrar um livro de Torga, Jorge de Sena ou Herberto Helder.

 

Comentários

  1. Excelente no conteúdo e na (irónica) forma, como sempre, aliás Ainda bem que há vozes respeitadas a denunciar este show.off de novo.riquismo, infelizmente protagonizado por muita gente da classe política, intelectuais e outros, que povoam as revistas cor-de-rosa a falar de futilidades, sendo famosos porque aparecem, e aparecendo porque são famosos… a distância entre a vida normal e a espiritualidade e a frugalidade (não me refiro a religiosidade!) está cada vez maior.
    Topo de gama e topo de fama… se não fosse patético seria ridículo, e vice-versa…
    Abraços e Bom Verão.

  2. Acho que estão a exagerar totil na questão das livrarias. Torga, Herberto Helder, Jorge de Sena, Jorge Amado, Marguerite Yourcenar, etc é bastante fácil de encontrar. Hoje fui comprar o Arquipélago Gulag que achava que era capaz de ser difícil, foi logo à primeira. É já que estamos em dia de recomendações, recomendo Ricardo Adolfo. Fica-se logo mais mais bem disposto, e com melhor trânsito intestinal.

    Ps: reparei que me censurou no comentário onde refiro a ópera “cosí fan tutte” e o livro “Os Maias”. Estará no seu direito, mas não me parece que tenha dito asneiras ou falsidades. Talvez um pouco crú, mas eu sou assim.

  3. pergunta:tem aquele livro chamado “Memorias de Adriano”?
    resposta:não
    P: Os capitães da areia? R:não
    P:Quando o lobos uivam? R.Não
    P:A Agustina,o Namora,o Tintin,a coleção vampiro,o dinis machado,o denis mcshade,enfim qualquer coisa que se leia? R:não,não e não…mas tenho o ultimo daquela famosa cor de rosa,ou alimentação “saudavel”,ou raiki,ou….R:Fugi da “livraria” mentalmente transtornado,mas não apertei o pescoço á empregada,que afinal ate foi prestavel.

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