Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

10 de Agosto de 2017, 09:43

Por

Penúria televisiva em maioria absoluta

Porque é que veio à praia?” pergunta a jornalista – entusiasmada com tão excitante pergunta, que se lhe assaltou brilhantemente – a um banhista a atoalhar-se depois de um banho no oceano. “Acha que está calor?” questiona o jornalista pressuroso diante de duas veraneantes a apanhar banhos de sol prenhes de ultravioletas. “Está calor, sim”. E, de seguida, remata “e usa protector solar?“ ao que uma delas responde com o grau do dito, adequado para a hora da canícula em pleno Agosto, só faltando mencionar a marca respectiva. “A água está melhor do que no ano passado?” interpela a jovem estagiária com inusitada veemência, recebendo uma resposta algures entre a certeira banalidade e a banal certeza. “Costuma vir todos os anos para esta praia?” é mais uma pergunta-relatório que me faz, por momentos, cortar a respiração, de tão interessante que antevejo a resposta da família Bartolomeu. “As crianças gostam de estar na praia?” é a demanda que ouço a seguir, com a resposta repartida entre a mãe orgulhosa e o pai frenético e acompanhada de sonoras gargalhadas: “adoram!”. “Gosta de ler na praia?” a modos que querendo-se subir o nível da pergunta ao sujeito que folheava o “best-seller” acabadinho de comprar no supermercado. Entretanto, olho para o oráculo, que é como quem diz para uma de várias faixas encavalitadas na parte de baixo do ecrã, e qual é o meu espanto quando leio “a solução para o calor é um mergulho!” Por momentos, fiquei aturdido com tão sábia descoberta. No fim, fica-me a amargura de o país televisivo só ter praia…

Não, não estou a efabular. É mesmo isto que, mais palavra, menos palavra, pude ver e ouvir em alguns canais televisivos. Assim se vão fazendo os “chouriços noticiosos” de hora e meia, entressachados hora sim, hora quase sim, nos canais informativos. É um fartote, convenhamos.

Se a isto juntarmos, um alinhamento de notícias errático e indigente onde se manipula o interessamento do telespectador (aqui até me apetece escrever sem o c, conforme o AO), o futebol ad nauseam de cá e de lá, entre o que há-de ser e o que já foi, com a suprema dádiva de longas peças sobre o futebol espanhol, sem que os ingratos “hermanos” nos retribuam com um segundinho sequer do de cá, a namorada e os filhos de Cristiano Ronaldo, as imagens mil vezes repetidas de fogos para que os pirómanos se excitem quanto baste, a actualidade repetida já sem ser actualidade, e até a publicidade encapotada a telenovelas a estrear e outras coisas do género como se fossem notícias, há de tudo. Um bom filme? Um bom documentário? Sim, mas a horas não recomendáveis, alta noite ou de madrugada…

Assim se vai consolidando a estupidificação da bitola das audiências, neste triângulo de programação – salsichas noticiosas, futebol a rodos e telenovelas a todas as horas – a que se junta aos fins-de-semana o delírio da música pimba e cachopas anafadas pelo Portugal de lés-a-lés. Tudo polvilhado com o uso de um português maltratado.

O problema é que, pouco a pouco, os canais (ditos informativos) vão convergindo nesta massa informe, nivelada pelo “benchmarking” dos piores. Com a pobreza confrangedora de, à mesma hora e em todos os canais, vermos uma conferência de imprensa completamente banal de um jogador ou treinador ou mais uma discursata de um político em viagem de circum-transumância eleitoral.

Ressalvo aqui os canais da televisão pública, que, apesar desta voragem pela qual se deve obedecer acriticamente às audiências, têm vindo a melhorar. Nota-se isso na RTP 1 e 3, mas aqui destaco, sobretudo, a excelente programação da RTP 2, o único canal onde se podem ver – a horas decentes – programas de nível e de entretinimento com qualidade.

Comentários

  1. Até que enfim, alguém chama os bois pelo nome… já me sentia mal quando fazia este mesmo comentário entre amigos mas, não é só as tvs. a rádio também exagera nas musicas sempre as mesmas menos agressivas é verdade mas, não deixam de incomodar chega de espanholada

  2. Foi há dois anos em época de incêndios, como a actual: jornalista para uma senhora idosa – a sua casa também ardeu? – ardeu minha menina! – e está triste?

  3. Pois é verdade! O problema é que o sr. Dr. Bagão Félix escreve para quem comunga das suas ideias. A C.S. e os seus donos continuam a “trabalhar” para as audiências, que querem cada vez mais estúpidas e ignorantes, para que eles e os seus amigos continuem “democraticamente” a enganar e a explorar.

  4. A TELEVISÃO PORTUGUESA !!! TIRANDO UM POUCO O CANAL 2 !! OS RESTANTES É SEMPRE O MESMO DISCO . VIRA E TOCA O MESMO. EXCEPTO OS TJ , É SÓ M….
    NÃO ADEMIRA HAVER VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. SÖ SE VÊ A PORCARIA DE TÉLENOVELAS.
    A MAIORIA DOS PROGRAMAS SÃO NULOS.

  5. Viva a RTP-2!!!

    Com pouco dinheiro fazem-se milagres.

    Ópera, Bergman, Joan Baez(75 anos), Nagisa Oshima, séries sobre a reunificação alemã e sobre a história da família dassler(Puma versus Adidas, a história do calçado desportivo), etc…

    De que está à espera?

    1. Então não! Ainda ontem conheci o enredo escandaloso da ópera “Così fan tutte”: a troca de casais. Da logo vontade de ir à ópera. É como as crianças que não querem ler os maias, mas mal sabem que o livro é sobre um gajo que come a irmã ao engano é velas a correr para a estante.

  6. Pois é meus amigos…Mas eu que pertenço à geração do Senhor Dr. Bagão Félix — um “cota” portanto como dizem os mais jovens, ignorando que se estão a servir de terminologia do baixo-Bantu, e perante todas estas achegas críticas, deu-me para recordar que quando os canais pagos iniciaram os seus prestimosos serviços informativos e outros de elevado calibre espiritual com que tanto se esforçaram (e conseguiram! — obter as audiencias abracadantes de que hoje tanto se gabam, por essa altura difundiam o evangelho de que forneceriam um serviço alternativo de qualidade e SEM PUBLICIDADE pelo que haveria que cobrar uma taxa. A TV CABO, pioneira como foi, facturava cerca de 20$00/Mes! Vejam ao que chegamos, pouco a pouco…
    Estou enganado? Estou a opinar uma aleivosa mentira?! Quem se lembra melhor do que eu? Faça o favor de me corrigir!
    Tal como o que aconteceu com aquela Lei (suponho que não foi anulada entretanto) que interditava a
    difusão de anúncios televisivos comerciais em que fossem usadas crianças com idades abaixo da adolescência. Estou enganado? É uma malévola falsidade que estou aqui a inventar?! Então denunciem-me aqui!!!
    Pouco a pouco, sorreiteiramente, à sorrelfa, à socapa (como quiserem), é assim que se constroiem os hábitos, os usos que ninguém, depois de certa fase, a partir de certa altura, já ninguém consegue põr em causa, recusar com eficácia: paulatinamente passas a pagar por algo que dantes era grátis, passas a descontar para, ou a descontar mais para…Passas a habituares-te a aceitar que
    o ‘para’ tanto pode ser uma forma do verbo parar como apenas uma preposiçãozinha na ótica da óptica dos acérrimos defensores do novo AO — para citar um exemplo do relaxe bem portuga.
    Deixo aqui um voto, um desafio para que o Senhor Dr. Bagão Félix aborde, critique, desmistifique estes temas que deixo aflorados apenas.

  7. Pois … Mas para além da RTP2 – que resistiu à privatização e consequente extinção – também há alguns outros canais não de sinal aberto com interesse e o que nos salva é a possibilidade de ver em diferido os programas que nos mereçam atenção, embora partir de certa altura as séries se repetirem pelos vários canais, para além da dificuldade em conhecer nas milhentas programações o que nos possa interessar.

  8. O que vi ontem na TVI no final do telejornal das 20h, levou-me a recordar a minha avó, quando dizia …. “estamos no fim do mundo”…

    Tanta boçalidade!!!

  9. Penúria?Uma verdadeira catástrofe televisiva.isso sim.E já não chegava o “desacordo ortográfico” ainda vemos,todos os dias a nossa língua cada vez mais mal tratada.Televisão?De facto,exceptuando a RTP não se aprende nada.É,como diz o Dr.B.Félix uma estupidificação constante.Jà quase tudo foi dito e por isso,por aqui me fico

  10. Excelente e oportuno texto sobre a realidade televisiva. A coisa é de tal modo que se desconfia que só pode ser estupidificação programada intencionalmente, e com esse exclusivo fim.

  11. Eu sem RTP2 também largava a televisão. Mas a RTP2 vale a pena, estou farto de apreender com a RTP2, é um prazer. O outro destaque na TDT é a RTPMemoria que pela sua condição aumenta ainda mais a RTP2, também às vezes entretém. E quanto mais antigo normalmente (neste caso televisivo) melhor. Passa programas de poesia (uma heresia do passado) sobre agricultura (mas actualmente existe um bom na 2 sobre jardins) teatro até jogos da bola históricos.

    Estava agora a pensar no Fernando Pessa que quando já era muito muito velho, imagino que para se divertir e mexer o corpo, fazia também reportagens singelas de “praias” ou coisas parecidas. Mas mesmo nesse nada aproveitava a oportunidade para passar uma referência cultural ou um pequeno momento de humor. A diferença de qualidade é assustadora. O Julio Isidro que fazia programas com macacos hoje é um intelectual televisivo de um nível muito superior da juventude que o acompanha.

  12. Um bom filme,dr.bagão? qualquer dia,tendo em conta o que diz,e muito bem,se juntarmos os famosos “factos alternativos”,as pessoas do sec.xxi ainda vão pensar que o grande Charlie Chaplin ,foi um grande “ditador” do sec.xx,e por acaso até foi e de longe o mais divertido de sempre(até o atrasado do adolfo,lhe roubou o bigode).Portanto,contra a ditadura da tv e em nome da sanidade mental,botão off para a tv,e botão on para o Chaplin ou para o Fernando Lopes e essa maravilha chamada Belarmino.

  13. Já digo há muito que o jornalismo português é uma das piores pragas da actualidade. Directos por tudo e por nada, sem razão de ser, pimba pimba pimba a toda a hora, celebridades idiotas com tempo de antena, rodeios à volta do futebol até meter nojo. Um jornalista fazer uma pergunta pertinente é coisa rara agora. E o povo come. Não há tasqueiro em que se entre que não esteja com a TVI ligada. Ou a CMTV. E os miúdos comentam as cenas de pinanço que viram no big brother. E pedem o penteado à jogador. E sabe-se tudo do tipo que esfaqueou o vizinho e não se sabe nada sobre ciência ou artes. Enfim.

  14. Estou plenamente de acordo com o texto de Bagão Félix e apenas o acho demasiado brando pois, o que estamos a ver em algumas estações, é próprio de um país do terceiro mundo e Portugal, supostamente, ainda só bordeja esses territórios.
    Causa náuseas ver alguns telejornais onde as notícias são tratadas à patada para depois surgirem reportagens que teriam lugar em qualquer outro horário que sobrasse do bendito futebol. Diga-se que algumas dessas reportagens valem zero.
    Não sou mesmo nada dado a ligar a telenovelas mas, por dever conjugal, respeito quem por elas se interessa. Tenho reparado que determinada estação antes de dar o episódio diário mostra o que vai dar a seguir. Depois quando entra no episódio a sério, repete quase na totalidade o do dia anterior, seguindo-se então o do dia para, no fim, dar quase na íntegra o que vai mostrar no dia seguinte. Claro que, no dia seguinte, todo este cerimonial se repete. Dr Balsemão, por favor, mande todos esses directores da sua estação fazer um estágio cavando a Serra da Estrela de cima para baixo, do lado de Seia, para ver se eles aprendem a não ludibriar o pobre telespectador por quem não mostram qualquer respeito.

  15. …de forma superior, Bagão Félix escreve e descreve o actual panorama das TVs em sinal aéreo e pago. A mediocridade faz caminho e monta tenda por onde ela entre. De facto a programação PIMBA está privilegiada e ocupa a maioria do tempo. Somos um povo de cultura medíocre porque temos fornecedores de conteúdos reles que lutam entre si para por no ar o que há de pior para formação e entretenimento televisivo. Temos repórteres que fazem as perguntas mais estúpidas durante qq. reportagem que é exibida, que mais parecem querer obter respostas também elas estúpidas. Via-se isso durante os incêndios, nas praias, junto aos estádios da bola massacrante, perto dos mercados, etc. Somos um país pequeno e sem grande escolha, por isso temos que aproveitar para encher programa, tudo quanto apareça à frente da câmara para por no ar. E por aí fora. Bagão fez o retrato certo, neste seu artigo!

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