Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

2 de Agosto de 2017, 15:53

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Os óxidos de nitrogénio não chegam aos 1900 metros do “novo” monte Olimpo

As eleições de Setembro na Alemanha estão a ser marcadas, em grande parte, pelo escândalo “diesel”, decorrendo hoje, em Berlim, uma cimeira “diesel” com representantes da indústria, governo federal e estadual. A tecnologia diesel nos motores automóveis, peça chave da estratégia da indústria automóvel alemã, parece ferida de morte.

Angela Merkel, naturalmente, não estará presente na cimeira, que foi convenientemente marcada uns dias depois de entrar em férias no Tirol do Sul (Bolzano), num hotel de 4 estrelas localizado a 1900 metros de altitude. Merkel é uma apreciadora de passeios pelas montanhas e, tal como os deuses mitológicos gregos que moravam no monte Olimpo, olhará de cima para os problemas “mundanos” que assolam a Terra.

Poder-se-á argumentar que a crise “diesel” é mais grave do que o roubo de armas de Tancos em Portugal e que, por conseguinte, a chanceler alemã deveria interromper as férias para presidir aos trabalhos desta importante cimeira. Afinal, trata-se da mais importante indústria alemã – a indústria automóvel – e algumas estimativas apontam para que  457 mil postos de trabalhos na Alemanha estejam directa ou indirectamente dependente da produção de automóveis com motores de combustão interna (e.g., motores diesel), de um total de 800 mil postos de trabalho na indústria automóvel, só na Alemanha.

Ora, no presente, está em causa a sobrevivência desta tecnologia diesel, que a indústria alemã lidera. Várias importantes cidades alemães, como Munique e Estugarda, terras da BMW, da Mercedes (Daimler) e da Porsche, assustadas com os níveis de óxidos de nitrogénio no ar (que serão largamente explicados pelas emissões poluentes de motores com tecnologia diesel), estão a considerar impor, nas respectivas cidades, restrições à condução com os modelos mais antigos de automóveis com motor a diesel. Nesta sexta-feira, 4 de Agosto, um juiz de Estugarda provavelmente irá decretar a proibição da utilização de alguns tipos de automóveis diesel.

Mas a crise “diesel” não é apenas sobre o software de manipulação de gases, que alterava o funcionamento dos motores no preciso momento em que os veículos estavam a ser sujeitos a testes de emissões de gases poluentes. É, agora, o principal tema da campanha eleitoral de Setembro.

Martin Schulz, antigo Presidente do Parlamento Europeu, e candidato pelo SPD a chanceler da Alemanha, desesperado pelas sondagens que lhe apontam um resultado inenarrável, promete aos automobilistas alemães que a indústria alemã terá de pagar integralmente os cerca de 1500 euros, por veículo, que se estima custem as alterações a introduzir aos automóveis com motor diesel, para reduzir as emissões dos nocivos óxidos de nitrogénio. Só na Alemanha seriam cerca de 12 milhões de veículos, i.e., 18 mil milhões de euros. E a própria CDU, após anos de resistência, finalmente concordou em alterar, na próxima legislatura, a lei para permitir “class-actions”, facilitando processos judiciais de grupos alargados de cidadãos lesados contra indústrias poderosas. Contudo, essa lei virá demasiado tarde para aqueles alemães que estão revoltados com a fraude diesel da indústria automóvel alemã e que bem gostariam de obter indemnizações da indústria automóvel alemã.

Mas o problema é mais vasto. Por um lado, se o tema ainda é sobretudo de política doméstica alemã, é evidente que se o Governo alemão vier a obrigar os fabricantes à reparação dos carros a diesel vendidos na Alemanha, estes terão também de reparar os carros a diesel alemães vendidos no resto da Europa, e do mundo, com custos muito superiores aos acima referidos.

Por outro lado, o Governo e os principais responsáveis da indústria alemã alegaram desconhecimento do software de manipulação dos testes de emissões de gases poluentes. E mais recentemente veio a público a existência de um cartel entre fabricantes de automóveis alemães. Será que alguns responsáveis utilizaram “assinaturas em post-its” para esconder o seu conhecimento e as suas decisões, como no passado num outro caso, também muito grave, da criação de um fundo secreto para corrupção? Como é possível acreditar que nenhum administrador executivo desses fabricantes automóveis tivesse conhecimento do software de manipulação dos testes?

Enfim, é por estas e por outras que Merkel terá provavelmente escolhido o momento para ir para o seu monte Olimpo por umas semanas: distancia-se do tema, e coloca-se muito acima dos apelos desesperados de Martin Schulz, preparando-se para um resultado triunfal nas eleições de Setembro…

Comentários

  1. Interessante post, professor. Links informativos e totalmente úteis.

    Schulz está completamente fora de jogo.

    A partir de Setembro isto vai aquecer. O mais temível para Portugal é a hipotética substituição de Draghi por um compagnon de route de Merkel.

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