Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

31 de Julho de 2017, 09:56

Por

A gosto

Há enormes atrasos provocados pelas filas, que chegam a quatro horas, nos controlos dos aeroportos como Madrid, Palma de Maiorca, Lisboa, Lyon, Paris-Orly, Milão e Bruxelas, assim diz uma notícia de há dias. Certamente essas filas aumentarão ainda, agora que começa Agosto, o oitavo mês do calendário gregoriano, cujo nome foi dado em honra do imperador César Augusto. Agosto é, naturalmente, o mês da hipérbole turística. Entre os que chegam e os que saem, os aeroportos transformam-se em locais de impaciência e desgaste, como se as pessoas precisassem, paradoxalmente, de mais factores de stress, qual doping da vida, para juntar à ansiedade com que se vive permanentemente. Blasfema-se contra o stress, mas constantemente se produzem ou estimulam novos factores de ansiedade estéril. No fim, fica o cansaço. E, não raro, a memória baça de umas tantas selfies e de uma dose rápida e liofilizada de turismo século XXI.

De há muito tempo, Agosto é o mês, por excelência, de férias. Destroçou Julho, que nos tempos da minha infância e juventude, era o meteorológico expoente do Estio. Dizia então o povo “Agosto candeeiro posto” ou “Agosto, frio no rosto”, com o equinócio de Outubro a aproximar-se. Agosto era, também e naquele tempo, apenas um de quase quatro meses de férias escolares, entre o fim dos exames, as amoras silvestres e o recomeço do futebol. Era o tempo das amizades e dos amores olhos nos olhos, substituído pelo dos amigos e amores virtuais. Agora, o tempo de férias comprimiu-se, Julho tem duas caras e Setembro foi à vida. Agosto é, assim, o soberano do ócio, entre o negócio retroactivo e o negócio procrastinado.

Agosto é o tempo do descanso do trabalho, mas está-se tornando o tempo do trabalho do descanso. Uma espécie de ponto de acumulação de tudo o que sobra de planos, desejos e sonhos, e da velocidade de circulação monetária, que aumenta vertiginosamente, por via de cartões de toda a sorte, na ilusão de que não se gasta no momento do gasto.

Recordo-me do tempo em que Lisboa era um paraíso neste mês. Sem filas de automóveis, com espaço para tudo, tempo para sempre, quietude para saborear, luz enternecida no fim da tarde, ritmo de trabalho para quem fazia de Agosto um mês em regime de “bradicardia laboral”, em que os problemas pareciam tornar-se temporariamente não problemas.

Politicamente falando, Agosto também já não é o que foi. Calmo, deslaçado, com governantes e políticos apenas vistos nas revistas cor-de-rosa lidas no meio das ventanias balneares. O mês central da chamada “silly season”. Tudo mudou. Esta – a silly season – tomou conta do ano. E Agosto importou o ano dos problemas e das discussões. Em 2017, com dramas humanos que não podem ser esquecidos e discussões de culpas e culpados retroactivos, actuais ou até futuros, no meio da despudorada discussão sobre a “necro-aritmética” dos incêndios, e não só.

Aliás, ainda que com notória quebra de entusiasmo, anunciam-se as chamadas “rentrées”, levadas ao país por uns desconsolados minutos em directo nos canais informativos por cabo. Mas, que diabo, porquê as “rentrées” se nem houve “sorties”?… E, no futebol, já nem o defeso nos deixa respirar. E sonhar.

É assim Agosto agora. Constante na inconstância. Percebo o gosto de Agosto, ainda que a contragosto com imposto, logo agora que o pagamento do IRS passou do mais suave Setembro do mosto para o mais exposto e decomposto Agosto. Nem este mês, aclamado como a boa e necessária pausa entre todos os outros meses, escapa à mão fiscal.

Percebo o Agosto, mas eu, cada vez mais, passo Agosto esperando Setembro. Passo o Verão esperando o Outono.

Mas como Agosto não empata Agosto – ora despromovido do A maiúsculo, por imposição ortográfica– pois que seja a vosso gosto!

Comentários

  1. Fernando Lopes, realizador de cinema, elogiava o encanto de Lisboa no Querido Agosto. Menos pessoas, menos automóveis, menor poluição sonora e ambiental, o que dá nota da debandada da urbe no Querido Agosto. Talvez a situação não seja hoje assim tão linear: o turismo debandou em larga escala do Norte de África(Argélia, Tunísia e Egipto, após diversos atentados terroristas e Lisboa viu aumentada a sua preferência turística. E Lisboa talvez hoje não seja tanto assim como dizia Fernando Lopes. “…O autóctone , no fundo, quer viver nesta condição impossível: numa cidade turística,mas sem turistas, ou numa cidade com turistas mas não turística”(António Guerreiro-Público-Ípsilon-01/04/2016).

    É da maior conveniência, do ponto de vista das empresas, as férias acontecerem em torno de um período bem determinado – 1/2 meses -, para não surgirem intervalos de descontinuidade na função trabalho. No sector industrial, a regra é as empresas fecharem por norma no Querido Agosto.

    Considerando alguns nichos do mercado de trabalho,onde já vai sendo razoavelmente praticado o trabalho à distância, através das novas tecnologias, o facto é que na esmagadora maioria das empresas a situação é a seguinte: um certo número de trabalhadores funcionam sob as ordens de uma hierarquia designada, no mesmo local. Daí a escolha preferencial no Querido Agosto.

    Num país em que os seus habitantes foram forçados a viver no litoral, para a obtenção de condições mínimas de sobrevivência, as praias serão necessariamente lugares de filas de veraneantes e/ou turistas para todos os passos do quotidiano. Onde está o descanso procurado? É, sem dúvida, uma má opção. E na costa algarvia atinge o insuportável.

    Quem fala em férias, fala em turismo. O turismo é a grande confusão? Não, necessariamente. Existe uma nova ferramenta em crescente utilização: os locais-santuário são um bem escasso. É necessário investir na procura destes locais e evitar as grandes metrópoles(só frequentar se tiver valor acrescentado garantido: visitas a obras de arte; compras).

    O turismo vem associado ao desenvolvimento e à elevação do poder de compra. Permite trocas entre autóctones e visitantes; alarga o conhecimento de outros povos,outras culturas(música, gastronomia, etc…) e outras visões da vida. Como dizia Sophia:”Viajar é olhar”.

    Vou servir-me do “Fugas” do “Público” para relatar sugestões dadas:

    – 10 road trips de carro pela Europa(“Fugas” de 10.04.2016);
    – 10 road trips por Portugal(Idem, 10.09.2016);
    – Visita à Torre dos Clérigos-Porto;
    – Visita às Árvores Monumentais de Portugal: o carvalho-Alvarinho(Calvos-Póvoa de Lanhoso; castanheiro(Tresminas-Vila Pouca de Aguiar); sobreiro(Montargil-Ponte de Sor); plánato(Quinta da Fôja, Santana, Figueira da Foz);
    – Visita a minas desactivadas;
    – Via Algarviana. Passo a passo, o Algarve a pé pelo interior. Ou de BTT. Bom para repartir tempo de férias com tempo de praia.

    Boas férias e bom turismo.

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