Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Julho de 2017, 08:35

Por

O cilindro de Paco Bandeira

img_757x498$2017_07_20_21_54_32_650603Há dias, soubemos que o cantor Paco Bandeira resolveu destruir 50 mil discos seus, literalmente cilindrando-os no chão de um armazém com uma máquina destruidora alheia ao dom musical. O músico tomou esta insólita atitude para protestar contra “os downloads, contra as rádios nacionais que passam pouca música portuguesa e contra as Finanças, que o teriam impedido de doar os seus discos aos países lusófonos porque lhe cobrariam impostos como se, na realidade, os estivesse a vender”.

O primeiro comentário que se me oferece fazer tem a ver com a necessidade, no mundo altamente mediatizado em que vivemos, de se ter de fazer ou dizer algo fora do “normal” para chamar a atenção para um qualquer assunto. Ou seja, se, neste caso, Paco Bandeira tivesse promovido uma tradicional conferência de imprensa para dizer de sua justiça, teria certamente tudo ficado no quase segredo dos deuses. Assim, com a música cilindrada já é outra coisa, algures entre o pitoresco, o exótico, o inesperado e o apelativo. É a velha norma pela qual se o cão morder o homem não é notícia, mas é-o, com um inusitado interesse e relevância, se for o homem a dar uma mordidela no cão.

Independentemente da razão ou não do protesto, Paco Bandeira encontrou uma hábil forma de transmitir a sua mensagem, com eficácia.

O segundo comentário relaciona-se com o conteúdo do protesto. Tendo a acompanhar parte significativa do que disse o músico alentejano. Lamentavelmente, o que vemos e ouvimos do panorama musical português nas rádios e televisões? Fundamentalmente música pimba, rafeira e apalermada, com enorme expressão nos canais televisivos. Nestes, qualquer intérprete ignoto tem a suprema oportunidade de minutos de glória musical, acompanhado por umas meninas que, seja qual for a música, se bamboleiam sempre do mesmo modo, entre coxas e seios.

Sei que hoje, mais do que os meios tradicionais de divulgação artística, a Net é o mais poderoso e universal meio de difusão. Mas, que diabo, isso implica uma completa secundarização da música portuguesa de qualidade (nela incluindo a melhor música popular e de expressão regional) nas televisões e na rádio?

Na rádio, há muito tempo que a regra dominante é a da música anglo-saxónica de pacotilha, onde o barulho é a essência e a gritaria a quintessência. Nos festivais que vão abundando, haver música portuguesa de qualidade é quase como encontrar água no deserto.

Na minha opinião, na última década, melhorámos um pouco na atenção que se dá ao (bom) fado, sobretudo depois de merecidamente ter sido considerado, pela UNESCO, património imaterial da humanidade. Mas, mesmo aí, há filhos e enteados. Nada melhor do que ter uma boa máquina de propaganda por detrás, para nos tentar impingir um ou uma fadista medíocre como se fosse um ersatz sério de “Amália”.

Não obstante, há pouco tempo, pudemos constatar, com júbilo, que a boa música pode ser vencedora aqui e lá fora, sem ceder ao facilitismo indigente e ao pseudo gosto do sónico “doping”. Foi o caso da canção vencedora de Salvador e Luisa Sobral.

“O nacional é que é bom” cedeu lugar ao mais modernista slogan “o que não é nacional é que é bom”. Verdade seja dita, que esta atitude não é apenas na música, antes irradia por quase tudo no nosso País.

Onde se poderão ouvir na rádio ou ver tocar e cantar na televisão Rodrigo Leão, Luísa Amaro, Maria Ana Bobone, Pedro Abrunhosa, Madredeus, Pedro Barroso e tantos outros músicos e autores de inegável qualidade? Haverá por aí outros disfarçáveis e anestesiantes cilindros?

P.S. A reboque deste tema, assinalo aqui a excelente programação musical que a Antena 2 nos continua a oferecer. Pela minha parte, obrigado.

 

 

 

 

 

Comentários

  1. As rádios comerciais passam canções (músicas, nunca!) todas iguais, mudando apenas o nome e o intérprete. A estrutura, o tema, a «fórmula», as vozes são todas iguais. E como se isso não bastasse repetem cada canção 16 vezes por dia. Não é arte, é mero ritmo ruidoso e estupidificante. Quem queima o cérebro a ouvir aquele lixo é incapaz de questionar seja o que for do que o rodeia; são cidadãos mansos e bons consumidores, bem à medida do capitalismo/consumismo.

    Mas há que fazer justiça a quem a merece: a Antena 2, é alternativa mas só para um nicho; já a Rádio Vodafone, a RUM (Rádio Universitária do Minho) e a Rádio Radar têm excelentes programações alternativas. A própria Antena 3, principalmente à noite, também se afasta da triste norma do que é a rádio portuguesa.

    Dou aqui os meus parabéns a quem rema contra a maré nessas rádios. Merecem reconhecimento de quem verdadeiramente gosta de música para ouvir, e não para apenas encher.

    1. A Rádio SIM, é a única rádio que transmite música e canções portuguesas dos anos 40, 50, e 60.

  2. E se começássemos nas escolas a educação do gosto musical? É assustador quando na festinha da escola começa a tocar a “piradinha” e todas as crianças sabem aquilo de cor. Ou o “espacito” ou as “poderosas” outra m* qualquer. As rádios nacionais mais ouvidas, como a RFM e a Comercial, passam música pimba americana todo o dia. Beyonce, Selena, Cyrus, Minaj, Kayene (nem sei escrever o nome deste!) e outras “divas” que vendem por estar semi-nuas em palco. E kizomba nos intervalos. Na TVI o domingo à tarde é passado a ouvir o zé da concertina a falar na vizinha molhada, com as cachopas a abanar-se ao lado. Não há leis para bom gosto… mas pode haver formação e educação. Ensinar a ter espírito crítico. A tirar conteúdo das letras. Daqui a uns anos o panorama talvez melhore.

    1. Se tivesse lido com atenção a primeira frase do meu texto, talvez não escrevesse a sua nota. Digo que ” há dias, soubemos que o cantor …”. Ou seja, não me referi ao acontecimento em si, mas ao tempo em que foi publicamente conhecido. Foi em 2010? Se é o caso, só diria que, em 2017, a situação de que falei se agravou.

  3. Tudo mas com menos economia, é o lema do Prof.Bagão Félix. Muitos temas interessantes.

    Recentemente comprovei que existe uma clara homogeneização das rádios privadas na difusão dos trechos musicais; é o que se passa em Portugal(RFM, Comercial, Renascença e outras), mas também em outros países. O padrão é perfeitamente igual. O negócio da música é transnacional. Depois…é a velha questão.O que é que está a ser oferecido às novas gerações e às minorias? Muito pouco. E o mundo do negócio da música, ao mesmo tempo que divulga mensagens para o mundo ser mudado, aproveita para reajustar o seu negócio. Mas, neste tema, não vou por este caminho;.

    Mais em concreto, o You Tube da Google tem contribuído para a retracção do mercado da música, nomeadamente a que regista volumes caudalosos, a dita música popular( a de expressão anglo-americana). Mas toda a gente ganhou algo,com a situação: o conhecimento é maior e procura-se a qualidade. Um ponto assente: os lyrics, nos autores oriundos de países fora do âmbito anglo-saxónico, são em inglês em significativo número de composições musicais.A tal questão do inglês ser a língua da comunicação fácil, o esperanto da Humanidade, Gostaria de chamar que se devem contabilizar, na questão do You Tube, as perdas no negócio da música ligeira, mas também os ganhos no plano da divulgação cultural. Passa a ficar à distância de um click a audição do Requiem de Mozart por Karajan ou a 5ª. de Beethoven pelas mais variadas interpretações. E, também, “Southern Man”, em “Four Way Streets”, Chicago, Live 1970, onde devem colocar auscultadores e fechar os olhos. Depois sonharão, garanto, porque para isso nasceram, todos na década de 40 do século passado, David Crosby, Stephen Stills, Graham Nash e Neil Young(Uma jam session sensacional com músicos verdadeiramente inesquecíveis, com cerca de 14 minutos mas que toda a gente achará curta);

    Face a isto, a indústria discográfica tem seguido várias estratégias e todos sabemos que os grupos musicais e os outros intervenientes considerados individualmente procuram nos direitos de autor e nas actuações em digressão os seus maiores proventos. Os circuitos normais de distribuição perderam muito mercado em proveito do online, com a selva dos downloads pirateados mas também com subscrições pagas(já estão estabelecidos hit-parades a este nível);

    De notar, pelo menos no caso português, que as rádios públicas têm procurado a qualidade, quer no campo da música ligeira portuguesa quer no campo da música dita clássica, com profissionais competentes e conhecedores;

    Parte da música de expressão anglo-americana tem grande qualidade – o Prof. Félix declarou recentemente, a qualidade de, por exemplo, Paul Simon e Joan Baez. Os músicos veteranos, é curioso, são os grandes ídolos das nossas camadas de jovens. Um concerto dos U2, como salientou Vítor Balenciano no PÚBLICO, é música e mensagem política e de harmonia à escala global. Bono, um militante da paz e da Humanidade, um senhor à beira dos 60 anos, que, paralelamente e com toda a naturalidade, se passeia em locais cosmopolitas com homens influentes. Por alguma razão
    mereceram, ele e os três companheiros, condecorações do Estado Português, num dos mandatos de Sampaio, retribuída mais tarde com uma nomeação deste para a presidência duma organização internacional humanitária;

    A influência da música de expressão anglo-americana estende-se para além dos palcos: Bono e os U2, bem como todas as vedetas da pop, actuam em locais tão improváveis como Havana, Pequim, Varsóvia, Moscovo ou Budapeste, que eventualmente divulgam outro tipo de mensagens que não as dos regimes nessas paragens vigentes. E sabe-se o poder do esperanto inglês.

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