Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Julho de 2017, 12:12

Por

Macromania

A macromania é um dos iô-iôs mais demonstrativos da meteorologia política europeia. Há umas semanas, os euro-institucionalistas anunciavam a catástrofe iminente e declaravam-se sem meios de a esconjurar: em poucos dias, ou em poucas semanas, segundo as versões, a União entraria na sua derrocada moral ou macronno abismo sem regresso, sendo irreversível o “esboroamento” e as “crises sufocantes”. Agora, bastou uma parada solene nos Campos Elísios no dia da tomada da Bastilha e ao lado de Trump e Merkel, e temos de novo a redenção à vista.

Desde a vitória eleitoral de Macron em França, esse discurso salvífico foi relançado com um alívio indisfarçado. Maria João Rodrigues, uma europeísta experiente, anunciava no Expresso que “finalmente – ao fim de oito anos – surge alguma luz ao fundo do túnel da zona euro”, e retomava o menu já conhecido, toca a completar a União Bancária. Aqui no PÚBLICO, um escritor austríaco, Robert Menasse, explicava como foi crítico da União e se converteu, deliciado, compreendendo que é preciso matar a democracia nacional para haver ordem europeia. Todo este triunfalismo e mesmo o atrevimento vem da vitória de Macron.

Ele é o homem de que a Europa precisa, ele é o homem da parceria com a Alemanha, ele é o homem das soluções. Será mesmo? Permitam-me a desconfiança, é que já me deram este golpe, com Hollande foi exactamente este guião. Será agora o resultado diferente?

Responde Assis que sim: ele “impõe-se categoricamente pela coragem com que afirma, entre outras coisas, as suas posições pró-europeístas e a sua vontade de romper com os anquilosados reflexos corporativos que quase paralisam a sociedade francesa”. Mas acrescenta logo que Macron tem “uma certa tendência para a exaltação de um populismo tecnocrático e para a constante manifestação de um narcisismo adâmico geram um sentimento de alguma repugnância”.

Alguma repugnância? Ver Macron a desfilar entre gendarmes de espada perfilada em Versalhes e a falar da “grandeza” da França é somente banal. O que é mais revelador é o contorcionismo político de um homem que há dois anos explicava que o que falta em França “é a figura do rei, cuja morte creio que, fundamentalmente, o povo francês não desejava” (é mesmo a Luís XVI que se refere!), e que se lança agora no projecto de remodelação das relações sociais que a direita sempre temeu promover ou a que faltaram forças para impor.

Uma e outra, a figuração presidencial no registo monárquico por parte de alguém que se faz alcunhar “Júpiter” entre os funcionários do palácio, e a ambição de destroçar a contratação colectiva e a organização sindical, impondo uma negociação na empresa onde os trabalhadores são mais vulneráveis, revelam uma forma de governar: cesarista e autoritária.

Resultando de um saldo eleitoral tão magro, pois os votos de confiança em Macron foram 24% na primeira volta das presidenciais e depois cerca de 30% na primeira volta das legislativas (com mais de metade de abstencionistas), estas vitórias deram-lhe uma esmagadora supremacia institucional, com dois terços do parlamento, através do truque do sistema eleitoral. Mas não lhe deram a supremacia social. Uma parada não resolve a França.

Nem a Europa, já agora. Prometia Macron um novo ministro das finanças e um orçamento europeu, tudo armado por convenções em cada país a partir do próximo janeiro. Ministro talvez consiga, para habituar os países à ideia de um governo europeu, mas esse será mais um instrumento de divergência. Tudo o resto é entretenimento, se não for, como anunciou o pomposo Menasse, para matar as democracias na Europa.

Comentários

  1. Os Depeche Mode em “Where is the Revolution”:

    “Where is the Revolution/Come on, people/You are letting me down/…/You have been pissed on/For too long/Your rights abused/Your views refused/They manipulate and threaten/With terror as a weapon/Scare you till you are stupified/Wear you down until you are on their side/…”.

    O que está em causa com a revisão do Código do Trabalho:

    (1) Uma visita ao passado de Macron: trabalhou entre Setembro de 2008 e Maio de 2012 no Banco Rothschild, instituição esta alvo habitual das organizações anti-semitas. A notícia de hoje do PÚBLICO, sobre o Regime de Vichy e o anti-semitismo, de Sofia Lorena, a sua condenação por Macron e a sensibilidade do tema é um simples pormenor revelador na agenda presidencial, embora o anti-semitismo associado a Vichy seja de condenar. A família Rothschild é simplesmente uma família de origem judaica de grande influência nos meios financeiros internacionais. Para já não falar na actuação de Macron como ministro da Economia de Hollande. Adiante;

    (2) Para a UE, a credibilidade de Macron como reformador será avaliada pelos resultados que obtiver na revisão do Código de Trabalho, porque a UE considera que a França tem reputação de país impossível de reformar. Cínica e curiosamente Moscovici, o comissário nascido no Hexágono, sustenta que “a Comissão não tem que se imiscuir nos assuntos de um país, mas a França precisa de mudanças e reformas”. Revelador. E a UE considera desejável que a França levante as barreiras ao acesso a determinados mercados de serviços(a UBER e outros no horizonte). Claro que Macron suscita muitas esperanças e, ponto crucial, diz a Comissão, “o déficit público hexagonal esteve sempre acima do limite de 3% desde 2008”. Os recados estão dados;

    (3) Macron sustenta que é necessário substituir “as ideologias partidárias e as querelas por um pragmatismo tranquilo, universal e progressista”. Ou seja, no âmbito do Código do Trabalho: reforma das relações de trabalho através da flexibilização, criação de novas formas de CDI(contratos de trabalho de duração indeterminada) e de CDD(contratos a prazo), através de acordos de empresa; reforma da negociação colectiva favorecendo os acordos de empresa; prioridade dos acordos de empresa sobre a contratação colectiva(no horizonte o aumento do poder patronal e da empresa);

    (4) Quais os resultados? Aumento da precariedade e da insegurança no trabalho(a corrosão do carácter do trabalhador pelo trabalho – vide Sennett);

    (5) O insuspeito Draghi afirmou recentemente que a verdadeira taxa de desemprego na UE é de 15%, devido ao subemprego e à precariedade, considerando todas as formas de desemprego escondido. E repito a pergunta: afinal a inflação não sobe porque o desemprego é alto. E, então, caros economistas de Bruxelas, esqueceram o que diz a Curva de Philips?;

    (6) Conclusão: Macron é muito perigoso para quem trabalha. Pretende, a mando dos Rothchild e da lista da Forbes, aumentar a corrosão do carácter da classe trabalhadora – uma vez mais, vide Richard Sennett,”A Corrosão do Carácter”(as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo), Terramar, 2001.

  2. Sobre o desempenho do Macron, tendo em conta o tempo decorrido sobre a eleição é pura especulação. Apenas podemos dizer que organiza paradas vistosas e um espectacular desempenho da banda militar (se a politica que desenvolver estiver ao nível da afinação e sincronização da banda, temos presidente), o resto que fala está ao nível das coscuvilhices de comadres, ou das revistas cor-de-rosa
    Mas poderia ter aproveitado o dia para comentar a “democracia” Venezuelana, o tempo que decorreu desde a implantação do socialismo do século XXI é mais que suficiente para percebermos para onde caminha. E desta vez não me parece credível a lengalenga de que a teoria é boa, mas falhou a aplicação. O socialismo do século XXI foi aplicado num país com grandes recursos naturais (as maiores reservas de petróleo do mundo, superiores à Arábia Saudita), cujos líderes foram assessorados pela melhor e mais inteligente esquerda europeia (Podíamos) que foram pagos principescamente, até o nosso Boaventura ajudou.
    E o que resultou? O costume, uma ditadura com os dirigentes ricos e povo na miséria, como já observamos em todos os países que aplicaram o socialismo, mas com versões menos modernas.

  3. Trump não foi a Paris por causa da Tomada da Bastilha, ou para interromper Merkl de tirar mais umas fatias na deliciosa soberania francesa (há um mês, até foi proposto alguma transformação do exército francês, em mercenários alemães, além do indisfarçável deslumbramento de Macrón pela filosofia supremacista prussiana, misturado com falso “europeísmo”).

    Trump foi a França numa manobra de diversão de mais um escândalo familiar. Desta vez com confissões arrogantes que pode levar o filho a mais de 10 anos de cadeia, sobre o caso da informadora russa na campanha eleitoral.

    Quando muito, foi perguntar a Macrón:
    “O que é a Altice? Aquilo é mesmo uma empresa que faz coisas, ou é, como alguns especialistas referem, um ninho de espionagem empresarial, com bons assessores jurídicos para aquisições e despedimentos?
    E por isso eles referem que a Altice não é um simples fundo abutre, como aquele para quem Maria Luís do PSD trabalha agora.
    Aquilo é um Fundo de Komodo, quase tão poderoso como o famoso “diabo” de Passos Coelho, que como sempre apoia toda e qualquer empresa que traga despedimentos e miséria, mas não se entende como se antecipou e criou logo uma conta separada para donativos da Altice ao PSD”…

  4. Julho e Agosto estão a cargo dos Insubmissos de Mélenchon – agitam o ambiente só para aquecer e enquanto os sindicatos(falo da Conféderation Française Democratique des Travailleurs-CFDT, da Conféderation Génèrale des Travailleurs-CGT, e da Force Ouvrière-FO, principalmente) reunem com o Governo. Os sindicalistas franceses sabem o que fazem. Enquanto estão a negociar a revisão do Código do Trabalho com o Governo não vão para a rua. Para a rua só em Setembro, findas as conversações com o Governo. A CFDT, embora mais próxima de Macron, não quer ficar isolada, como já aconteceu no consulado de Hollande. A união sindical acabará por funcionar.

    Os sindicatos têm uma longa experiência em confrontos deste tipo: que o digam Chirac, Sarkozy e Hollande. Nenhum Macron deste mundo se oporá a este poder temível.

    Como se sabe, Trump tem sido travado na América pela imprensa e pelos mecanismos constitucionais. Em França o Presidente é possuidor de poderes alargados. A imprensa francesa está dividida e não tem a combatividade e o poder escrutinador dos profissionais da Imprensa norte-americana. Em França a grande força decisora são os sindicatos. Esperem para ver. Só os ingénuos podem acreditar em Macron.

    Na América até os grandes interesses do petróleo(Exxon,Shell, Total e BP) declararam-se favoráveis, numa página do Wall Street Journal, à aplicação de taxas sobre o carbono, com a inovação do volume deste imposto ser redistribuído aos contribuintes sob a forma de um dividendo climático. Contra Trump estão também diversos municípios que, confrontados com a ausência da informação sobre as alterações climáticas no site da EPA(Agência americana de protecção do ambiente), resolveram assegurar essa informação ao público. Nada disto será visível em França. Em França a luta assume outras formas.

    O desaparecimento dos partidos políticos tradicionais em França causou um compasso de espera na atitude dos franceses. O desalento tem vindo a acumular-se – a abstenção no segundo tour das legislativas alcançou 57,4% em Junho de 2017, quando há cinco anos, em 2012, tinha registado 43,7%. A descrença no sistema têm-se acentuado. É impressionante: em 2017 nas Legislativas a abstenção foi de 57,4% e, muito importante, os nulos e brancos ascenderam a 9,9%. Quer dizer: os votos expressos correspondem a 22,7% do total de inscritos. E a suposta grande força parlamentar da LRM representa somente 16,5% do total dos inscritos. A representação parlamentar de 308 deputados da LRM, num total de 577, é um logro. A grande democracia francesa vai sofrer grandes mudanças. E Macron, neste cenário, que legitimidade terá? Muitos franceses não puseram os pés nas assembleias de voto na 2ª. volta das Presidenciais por, simplesmente, não se reconhecerem quer em Macron quer em Le Pen. Macron não convence. E a sua prova de fogo é o Código do Trabalho: em Setembro próximo a contenda vai começar.

    1. Os votos expressos correspondem, mais exactamente, a 32,7% do total de inscritos(linha 35, último parágrafo).

    2. A France Insoumise espevita e lidera autonomamente a critica do” sistema ” Macron, e espera justamente que a CGT e a CFDT se näo deixem enganar pelas promessas e nuances das propostas do Poder, que tem cativado para o seu lado a terceira central,a Force Ouvrière. As sondagens têem oscilado em poucas semanas e já se registam descidas de 10 por cento na cota de popularidade do dueto PR/PM, o que é revelador e sintomático. Por outro lado, existem avisos inequivocos dos grandes economistas mundiais sobre a iminencia de uma crise/bolha explosiva de endividamento privado( e público) à escala mundial, com as taxas americana e chinesa a atngirem niveis records sem que o desemprego se atenue nas principais economias da OCDE. O FMI confirma…Macron tem que fazer das fraquezas forca, se quiser evitar o pior.

  5. A cena politico-mediática em panavision- apelidada pelo próprio de ” Revolucäo.”..- encenada por Macron e os seus muchachos ad-hoc tem sintomas de provincianismo perverso e malsäo, e está inquinada por uma despudorada ambicäo sustentada no refluxo dantesco de um miserável quinquenato de Hollande, o coveiro do PSF e da Esquerda democrática no seu conjunto. O ataque ao Código Laboral e a inscricäo do ” estado de sitio ” na legislacäo ordinária e penal säo lances inimagináveis e altamente preocupantes imediatamente postos em promocäo por Macron desde que ocupou o poder de Estado.. Ele aliciou, por isso, Merkel para relancar a Uniäo a duas velocidades e a czarina ” exigiu-lhe ” provas claras da vontade de realizar as famigeradas ” reformas estruturais “, que despoletam o reino despótico do último figurino da implacável e celerada economia liberal do séc.XX1. As sondagens comecam a revelar-se inquietantes: näo só a vitória eleitoral do candidato parece in fine contraditória e burlesca como Macron ” entregou ” a conducäo da Economia e das Financas a dois aventureiros do partido de Sarkozy e Fillon, mesmo que os tivesse mandado ” vigiar ” pelos seus homens-de-mäo. Os couacs e a descoordenacäo parlamentar e ministerial também engrossam as dúvidas de um eleitorado intrigado e inúmeras vezes enganado no passado recente. A hora da verdade vai ser a 21 de Setembro com a votacäo final da nova Legislacäo Laboral, kafkiana e ousadamente anti-sindicalista que nem a direit alemä se atreveria a propor…

  6. Macron e as suas assumidas inclinações autocráticas (o seu link ao artigo no Le Un abre de facto os olhos!!) será então o corolário lógico da extrema distorção representativa do presidencialismo francês quando há uma crise política, como a patente no colapso dos partidos em França. O encaixe fica completo numa eurozona completamente controlada pelo eixo Franco-Alemão e seus apêndices no Benelux. No trono do diretório temos a chanceler sem limite de mandato (a entrar no 4o!) e o presidente-sol. A ditadura regressou ao continente, na sua excelente expressão, pela mão do “euro-institucionalismo”.

  7. O convite a Trump encaixa na perfeição na descrição de Macron que é feita.Não é , simplesmente, suficiente que o presidente da França estenda a passadeira, vermelha, ou azul, a côr é indiferente, ao presidente americano, pois tudo tem de ser feito com a pompa e circunstância que atribuam a importância ao anfitrião, sem pôr em causa a imperativa e incontornável relação pretendida com o visitante.Macron, na visível incompatibilidade de Merckel com Trump e na ausência de credibilidade de uma May, em perda, joga a cartada de oferecer os bons ofícios do Eliseu, para a representação europeia e francesa junto de Washington.Trump, pode desconfiar do multilateralismo dos europeus e desprezar as instituições e mecanismos de poder, do lado de cá do Atlântico, mas o seu absoluto primitivismo político precisa de interlocutores como Putin, que mandam “no estaleiro da obra”, ou de Macron que parece demonstrar uma interessante visão comercial, para proveito dos interesses americanos, entenda-se.

  8. O caro Louçã deveria apresentar uma visão mais alargada daquilo que se passa nos nossos dias. A idade, do caro Louçã, deveria resultar numa maturidade e capacidade de visão mais alargada da realidade. E isso não se observa nos seus textos.

    Macron é apenas mais uma anedota passageira. A deflação é a música de fundo que vai ditar a dança das criaturas feirantes.

    A deflação vai-se instalando paulatinamente. Aquilo que provocava riso há poucos anos (juros negativos e afins) vai-se tornando numa norma cada vez mais alargada. O que acha que Macron, ou outro qualquer, consegue fazer face aos movimentos de fundo na saúde da tal “economia de mercado”?

    O que não respeita as regras da economia colapsa, e o “mercado livre” ou “mercado planificado” não são diferentes. Colapsar é, aliás, uma tradição presente em toda a história dessa coisa do “mercado”.

    Não é divertido ver o colapso do querido e aclamado “mercado”? Lentamente, paulatinamente, mas de forma contínua.

    O que valem os trabalhadores quando há excesso de trabalho feito? Não será esse mito, da validade eterna do trabalhador, um mito gasto. Não será o trabalho, essa actividade de destruir o meio, um estorvo a todos? Não é maravilhosa a deflação?

    Como vê o caro Louçã a queda dos mitos fundamentais da idade do “mercado”?
    Onde está a resposta, da ideologia caduca, à deflação? Ou antes, a deflação não torna a ideologia caduca?

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