Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

12 de Julho de 2017, 19:32

Por

Portugal colapsou e então vai de férias

Tudo era previsível.

António Costa respondeu à crise do incêndio e prometeu uma ambiciosa reforma da floresta, anunciou que a saúde seria o seu novo tema e, num momento pouco notado, lançou a campanha eleitoral com a Carris e os STCP. Lembrou a conversa de ontem com os generais e garantiu à esquerda que negociaria. Ministros todos na formatura e continuidade para 2018.

No PSD, espreitou o velho PPD. Montenegro tentou levantar as hostes insinuando-se contra Passos Coelho, temos candidato e vai ser mais depressa do que se previa, e para isso radicalizou o discurso da catástrofe: em poucos minutos, o Estado colapsou seis vezes, se bem contei, e até a democracia colapsou de caminho. O SIRESP, contrabandeado para o banco do PSD por um governo PSD-CDS, os créditos mal contados da CGD, idem, o falhanço da videovigilância em Tancos, idem, tudo veio à baila como “colapso do Estado”.

Quanto a Cristas, tentou a pose Portas: vivemos o “falhanço mais básico” da autoridade do Estado e a insegurança é aterradora, “a confiança quebrou-se”. Telmo Correia repetiu o seu número dos oito séculos que caíram na vergonha desta plebe ter tomado o lugar de sua majestade.

Nesta escolha do PSD e CDS está a boa notícia para o governo. Os partidos da direita escolheram desprezar o Presidente (o cuidador do Estado) e abandonar o debate económico. Vão pagar pelas duas opções. Pelo caminho, ensaiam uma curiosa efabulação: o governo não cuidava das contas públicas porque gastava demais e logo com as gorduras, as pensões e salários; agora criticam o governo por gastar de menos. Em resumo, “é verdade que economia cresceu e desemprego baixou” (Montenegro) e “a economia melhorou” (Passos) e fica tudo dito, é o que importa a quem se importa com a vida da gente.

Também à esquerda tudo previsível. Catarina e Jerónimo de Sousa negociaram condições e pediram garantias, a que Costa mostrou querer aceder. Nas entrelinhas, nota-se que o desacordo sobre as leis das florestas é profundo, mas o Primeiro Ministro deu voz aos critérios da esquerda, que aparentemente desagradam ao seu ministro. Têm poucos dias para se entender, ou é melhor adiar a votação das leis para setembro, o que seria um recuo para o governo.

No mais, houve algum desplante. Cristas acha que Costa “deserta” quando vai de férias mas prefere que não lhe lembrem o que ela própria assinou quando era ministra e andava de férias. Passos ainda está zangado por não ser primeiro ministro. Tricas e ninguém se importa com isso.

Tudo resumido, depois de o Estado ter colapsado e sabermos que vivemos em estado de pânico, esperava-se uma ou duas valentes moções de censura para salvar Portugal. Mas, no fim do debate, Passos e Cristas arrumaram as pastas e só pensam em ir de férias, como aliás boa parte da população.

Comentários

  1. Luis Montenegro esqueceu-se de dizer,onde o estado colapsou realmente e com estrondo absolutamente vergonhoso:Cova da Moura,precisamente,e o caso não é novo,sequer.É até bastante parecido com o famoso e mentiroso “arrastão” em Carcavelos,penso eu.E mais uma vez a responsabilidade tambem é de alguma comunicação “social”(???!!!) que vive da industria da desgraça(alias,um agente daquela esquadra,fala da responsabilização,tambem,de alguns “jornalistas incendiarios” que por aí andam)P.S.-a verdade,verdadinha,é que alguns jornais e televisões adoraram e fizeram render o peixe,tanto nos incendios como no assalto a Tancos,que são problemas que tem que ser enfrentados e resolvidos,mas com bom senso e calma,não com histerismos bacocos(e aqui,quem não ajuda de certeza são jornalistas histericos e politicos populistas e demagogicos)

  2. Boa tarde.
    Gostaria de saber de quem é este título; estas palavras, alinhadas desta maneira, não se encontram no corpo do artigo.
    O título dá ideia que a frase é de Louçã. Estranhei que ele tivesse feito esse ataque ao primeiro ministro e fui ler a notícia…
    Quem disse isto? Talvez a direita, mas nem isso está no corpo do artigo, porque não interessa; o que interessa é deixar as pessoas acreditarem que foi Louçã que o disse.
    O Público está cada vez mais reaccionário e com menos ética jornalistica.

    1. Um título não tem que se encontrar no corpo do artigo e não tem razão ao culpar os editores do Público, o artigo e o seu título são liveremente escolhidos por mim e desde sempre que foi assim. Mas creio que interpretou mal, o que eu quis expressar com o título é a ideia do PSD de que o “estado colapsou”, em contraste com a normalidade de um país que vai de férias em segurança.

  3. Francisco Louçã é um dos grandes pensadores da nossa sociedade, uma pessoa íntegra, que fundou um partido e teve sobriedade de o legar para outros, ao contrário de Passos. Que não tem alterantiva de vida, não sabe fazer mais nada. (Fez uma perninha com Relvas a receber fundos comunitários para formações que nada serviram, ou esqueceu-se de pagar a Segurança social, ou ainda a exclusividade de deputado que não “sabia”, uma pessoa séria portanto, como Cavaco) Louçã tem uma capacidade de análise ao alcance de poucos, apesar da sinopse obvia e do resumo esperado: Nada se passou no governo anterior, tudo ficou suspenso, tudo foi cortado. Quantos se suicidaram, pelos cortes e redução das condições básicas de vida, saberá Passos responder? não sabe, não quer. Passos anda de cabeça perdida, porque usar supostos suicídios para tirar dividendos políticos só pode ser por falta de talento e desespero ou honradez. Ele quer voltar mas não sabe como. Mas quer muito. A grande diferença da esquerda e direita era o cuidado social que a esquerda tem, e que a direita quer salientar mais na diferença. Agora passou a mais uma diferença: a direita não aceitar passado um ano os resultados da democracia, a vontade dos eleitores. Pior ainda: com resultados nunca vistos, aumentos, vontade de fazer e não varrer para debaixo do tapete. Mais: não existir alternativa dentro do PSD. Não é bom para a democracia o maior partido da oposição não existir.

  4. Apesar do folclore de cabeça perdida do PSD-CDS, e do aproveitamento político da tragédia de Pedrogão e do “roubo por buracos em redes” em Tancos, “completamente sem vergonha”, dirão alguns, “é o papel da oposição”, dirão outros, o governo tem objectivos para cumprir.

    Diminuição da pobreza, desigualdade e rácio capital/trabalho.
    E as florestas. Urgente (já tudo foi estudado).

    Sei que é uma pena mandar embora um político tão calejado e conhecedor da agricultura europeia, como Capoulas Santos.
    Mas ele foi apanhado em flagrante, depois dos incêndios do ano passado, a beneficiar as mesmas políticas e negócios eucalipteiros, como se nada tivesse acontecido…

    Isto é grave. Para mim, este seria o único ministro a ser renovado (e os secretários de estado dos jogos da bola).

    1. E sem esquecer, porque quase me esquecia, da reposição da legislação laboral (nem que seja grão-a-grão, mas grãos razoáveis). O governo está à espera de mais “Diabos”, como aconteceu no último mês!? As reposições estão economicamente a resultar para o país…

  5. O Dr. Louçã também devia ir de férias. Talvez regressasse com ideias novas e um menos faccioso.
    Até parece que o governo em geral e o PM em particular não estivaram mal na forma como lidaram com as duas últimas crises. Também é curiosa a leitura que faz do suposto acordo de posições entre o BE e o governo. O que eu ouvi do debate de hoje não me pareceu revelar grande cedência às pretensões do BE. Não devo ter ouvido bem.

  6. Ainda bem que temos um Francisco Louçã, melhor do que todos nós, para nos avisar destas coisas e apontar tudo o que está mal. É fundamental que existam pessoas melhores do que a plebe, para que todos saibamos das nossas fraquezas e inmperfeições, face à virtude maior. Devia era ser tudo bem achincalhado, a ver se nos salvamos de nós próprios. Diz quem sabe, do sofá.

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