Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

23 de Junho de 2017, 12:50

Por

A agenda do rescaldo

Estamos em rescaldo do incêndio, depois de 64 mortos e muitos feridos, 150 famílias desalojadas e 46 mil hectares ardidos. O drama é demasiado e não se pode fechar os olhos. Já chegou a hora da política.

Começo pelas críticas a Marcelo. Na minha opinião, o Presidente fez bem em ir imediatamente ao local e em incentivar os que combatiam o incêndio. Acho desprezível o ataque que lhe foi feito em poucas horas por um deputado do CDS e por outros mandarins da direita. No mesmo sentido, a sugestão de um deputado do PSD (parece que vice da sua bancada) de que os feridos se curam depressa demais entra no domínio do Alien contra Predador.

Em contrapartida, Passos Coelho e Assunção Cristas foram cuidadosos nos primeiros dias. Tinham boas razões para isso, além do natural respeito pelos mortos e pelo sofrimento de quem ainda via o incêndio à porta. Quanto à dirigente do CDS, ela teme mais do que tudo que a sua passagem pelo ministério da agricultura, em que promoveu a extensão do eucaliptal, se torne um centro de atenção. E ela como Passos Coelho temem ainda que o caso SIRESP seja tóxico para os partidos que criaram o negócio, que foi assinado já depois de o governo PSD-CDS ter perdido as eleições de 2005 e favorecendo um centro de negócios de homens do PSD (a SLN, dona do BPN), ao preço de 485 milhões, que terá sido cinco vezes o devido segundo o PÚBLICO de então, além de se assegurar uma renda de 100% na manutenção, pagando o dobro do devido (e que os governos PS aceitaram). Soube-se agora, também pelo PÚBLICO, que Passos Coelho pôs na gaveta uma redução de 25 milhões, já negociada com o consórcio do SIRESP. E, já agora, o SIRESP não funciona.

O PSD e o CDS, bem como o PCP, têm ainda outro problema em mãos: é que durante o ano, apesar das promessas solenes do final da época de fogos de 2016, escolheram não apresentar qualquer projecto no parlamento. Podem naturalmente alegar que a lei actual é suficiente, mas isso deixá-los-ia em situação difícil, forçados então a rejeitar as propostas que estão em consideração há vários meses – e é impossível alegar que está tudo bem e é só questão de corrigir meios e práticas para salvar a floresta.

O governo reagiu depressa, percebendo o caos que estava instalado na frente de combate ao fogo, envolvendo os ministros necessários e coordenando entre o primeiro-ministro e o presidente o apoio às populações. Mas hesitou no apuramento dos factos, mesmo que António Costa, com o seu instinto, tenha vindo a aceitar a sugestão de uma comissão independente. Ora, entendamo-nos: uma comissão parlamentar, que é o que o PSD propõe, é vagamente inútil. O que o governo devia ter feito era nomear logo uma comissão presidida por uma personalidade independente e com prestígio indiscutível, com o mandato de investigar as falhas de coordenação e os erros cometidos e de fazer recomendações num prazo curto.

Há ainda outro agente político que entrou em cena, e dá-se menos conta dele: as empresas do eucalipto estão a mover-se para proteger o seu baú. Cuidado com elas, são o poder sombra da floresta. Precisam que nunca entre na agenda política a única medida estrutural que salva Portugal: a reflorestação com a redução forçada das manchas de eucalipto e a reorganização da economia da floresta para sustentabilidade e a protecção dos pequenos proprietários. Por isso, querem aproveitar a necessidade de posse administrativa dos terrenos abandonados para um movimento de concentração da propriedade, à espera de um novo governo que lhes favoreça a eucaliptização, na esteira de Passos e Cristas. Assim, as leis que estão a ser discutidas devem ser muito bem ponderadas, e creio que a esquerda deve rejeitar qualquer caminho que conduza ao benefício dos eucaliptocratas. Não estamos livres disso.

Comentários

  1. Não sou, de todo, especialista em floresta ou fogos florestais. Ainda assim, desculpem a imodéstia, parece-me possível resumir o problema a uma única palavra. Pronto, duas. “Desanibalização”. Ou, se quiserem “descavaquização”. O país precisa de se “descavaquizar”. Tal como Donald Trump é a corporização do sonho americano, também Aníbal Cavaco Silva o é do “progresso” à portuguesa. Um “progresso” que é apenas uma forma de profanação da realidade e do outro com a cabeça fixa em dinheiritos rápidos, uma devastação para durar à custa de todos, em nome de devaneios de lucro instantâneo para “happy few”. Aníbal Cavaco Silva é a própria ideia, imagem e conceito de eucalipto. Como na generalidade dos problemas, também na questão dos fogos florestais, o problema de fundo é um “ideal” – o que, aliás, vale para a refrega entre esquerda e direita que por aqui decorre: no fundo, é o mesmo desprezo olímpico pela condição do oprimido, do subjugado, do humilhado concreto que as une. E como o ideal de eucalipto é polimórfico, o mesmo se aplica à monocultura do pinheiro bravo. Sugiro a restrição severa e massiva da monocultura do eucalipto e do pinheiro bravo e o apoio massivo à reflorestação com a floresta autóctone, ecológica e de muito mais difícil ignescência. Enfim, pensar numa economia verdadeiramente sustentável e humana.

    1. Não posso deixar de lhe dar os parabéns, ó Albuquerque. Acabo d ser informado que foi eleito presidente da Associação de Proteção do Eucalipto. E gostei muito daquela foto da sua tomada de posse, no “Instagram”, ode aparece com um eucalipto debaixo do braço. É assim mesmo! Uma pessoa com as suas responsabilidades deve dar o exemplo do que é trabalhar! Viva o eucaipto!

    2. (1) Vivemos num país pobre de recursos. A agravar a situação as nossas elites são retrógradas e anti-humanas. É o caso do ex-governante Gomes da Silva, conduzido à discussão pelo link inserido no comentário de João Albuquerque. É engenheiro agrónomo? Conheço pessoas que detêm essa qualificação e apresentam posições diferentes,. Ser ex-governante não é indicação positiva, antes pelo contrário, tem um carácter de claro repúdio;

      (2) Ou seja: é a velha questão do máximo de consciência possível que poderemos ter na análise de qualquer situação/problema. Temos, em cada um de nós, uma barreira mental que nos impede de levar todos os elementos em consideração. Por isso, é arrogante da parte do Snr. Silva chamar “sábios” a quem pensa diferente. Quem estará certo? Vejamos algumas linhas de raciocínio;

      (3) O eucalipto desenvolve-se em cerca de dez anos, em detrimento de outras variedades florestais(o pinheiro, por exemplo, que demora mais de vinte anos). Possibilita, desde logo, uma maior rotação do capital, muito interessante por parte de quem quer maximizar os lucros, o alfa e o ómega de todo a organização inserida no modo de produção capitalista;

      (4) Tendo em vista os acontecimentos recentes, é de sublinhar que o eucalipto contem nas suas folhas ácidos e óleos altamente combustíveis, responsáveis no agravamento da tragédia;

      (5) O que está em causa é um confronto entre os interesses da indústria de papel e os interesses gerais do Povo Português. A reforma da floresta deve ter em conta este confronto e. sobretudo, deve actuar no sentido da agregação dos pequenos lotes de propriedade;

      (6) É preciso mobilizar a Sociedade Civil, organizações espontâneas de tipo horizontal. Já todos percebemos que os partidos políticos tradicionais, nomeadamente os partidos da ruína do país, os famigerados PS, PSD e CDS, embora recebam avultados subsídios do Estado, não conseguem estabelecer a mediação com a Sociedade. A corrupção endémica no Aparelho de Estado é o sintoma maior desta incapacidade – o último caso vindo a público atesta a menoridade mental do militante do PSD, Hermínio Loureiro e de todos os seus “compagnons de route”. É fartar vilanagem!!!. De Bentley, diz tudo…Que Tristeza!!!

      (7) O ideal é a construção de movimentos de cidadãos. O Snr. Silva é um mero representante do sistema fracassado que está instituído.

  2. This is how things work in the remote mountainous regions of central and northern Portugal:

    1) Unscrupulous investor (UI), living in a nice house and not surrounded by eucalyptus trees, usually in a big city (e.g. Lisbon) and with some local knowledge, specially people who have recently died in one of those remote villages.

    2) Old pine tree forest owner dies, sons and daughters live far away, and couldn’t care less about their ancestors land.

    3) UI contacts them, and proposes buying all their inherited properties, usually for a price as low as 1000 eur/hectare, and usually he succeeds because most descendants don’t even have a clue where all that land is (the property borders or “extremas”).

    4) UI takes possession of all that land, sells all the pine trees (clear cutting) and then sends in big bulldozer machines to “plow” the land, usually on steep slopes.

    5) Soon after that, long and equally spaced rows of eucalyptus seedlings are planted, without any objections or needed planing permissions. one can clearly see this on Google maps, satellite view.

    6) In a few years, all those seedlings become quite big trees, almost ready to be harvested, if meanwhile all that does not burn down.

    After a forest fire, buying land is even cheaper, so expect to see soon long rows of eucalyptus seedlings on those recently burnt slopes. Well, this time I have a faint, just a faint hope that more people will start objecting to that and that the EU Mafia will stop subsidising this madness. Otherwise, I’m afraid that only direct action would be able to help nature restore its balance.

    A friend of mine drove yesterday along the burnt sections of the IC8, and she told me the smell was just unbearable.

  3. O Francisco Louçã não desiste da palavra “eucalipto”.
    Teima em confundir as pessoas dizendo que acabando o eucalipto os fogos florestais acabam.

    Já tive a oportunidade de lhe dizer que isso “Não é Verdade”!

    Penso que é leigo na matéria e não devia pronunciar-se sobre o que provoca e alimenta fogos florestais.

    Seria mais honesto da sua parte dizer o seguinte:

    1° sou contra o grande capital.
    2° o eucalipto fomenta o aparecimento de capitalistas (os homens das celuloses) o que é contra a minha doutrina.
    3° amanhã serei contra outra coisa qualquer, desde que crie homens (ou mulheres) ricos/as.

    João Albuquerque

    1. Pergunto-me muitas vezes o que justifica a arrogãncia de comentários como o anterior. Se outro não concorda comigo, é “leigo na matéria e não devia pronunciar-se”. Será que lê o que acaba de escrever? Muito bem, Portugal ser o quinto país do mundo com mais eucaliptos não tem nada que ver com os incêndios. Bem sei, é obra do Demo.

    2. Eu gosto muito de eucaliptos. É uma árvore muito bonita. É certo que não dá muito jeito subir, mas há sempre um Albuquerque que encontra o caminho. E, lá de cima, contempla a ampla prosperidade que, por via dos nossos empresários floresto-celulósicos, o país goza. Viva o eucalipto! Viva!

    3. Albuquerque: o seu amor pelos ricos é verdadeiramente comovente. A sua tese, que faz uma relação brilhante entre ricos, capitalistas, eucaliptos e celuloses, fomentada por esquerdistas, vai constituir a um novo paradigma, certamente. Sabemos que estará convidado para ser o novo catedrático da cadeira de “Eucaliptismo Político” da Universidade Nova. Apesar de todo aquele “staff” neo-liberal, ainda têm falta de gente firme como V. Exa. Viva o eucalipto! Viva!

  4. Há um acontecimento doloroso ainda em carne viva. Isso suscita reações de vários lados quase todas convergentes numa ideia lamentavelmente grave.

    Viram-se para o Estado como se o Estado fosse o pai e a mãe de todos os portugueses e tivesse a responsabilidade de viver por eles a vida deles. Como se o Estado português fosse um instrumento totalitário paternalista responsável por todos os males e por todas as soluções de vida e morte dos cidadãos-instrumentos.

    Essa cultura não é a cultura portuguesa de liberdade individual, propriedade privada de tradição municipalista.

    Compete ao Estado a defesa da ordem externa, segurança interna e fazer a justiça nos termos da Lei. Acrescentem-se ao Estado funções que suprimam as insuficiências da iniciativa privada sem ir tão longe que seja neutralizada a iniciativa individual e se transformem os portugueses em “eunucos da corte.”

  5. Pois bem, Francisco Louça teima em destilar ódio à direita para não afrontar o PM e respectivos irmãos metralha. É uma pena que um assunto sério seja toldado (para não escrever branqueado) por mais um artigo de opinião do Francisco.
    Será que António Costa está assim tão limpo de tudo isto? Não se esqueça que ele foi Ministro do MAI em 2006 e número 2 da não menos famosa tralha Socrática.
    Será que Passos Coelho é o mau da fita (já agora de braço dado com Cristas de acordo com o texto acima)?
    Vá lá Francisco Louça, para ser sério no que escreve, também tem de o parecer. É nesta segunda parte que falha redondamente.

    1. Vamos lá organizar-nos: Costa é culpado do SIRESP que foi aprovado, negociado e decidido pagar pelo governo PSD-CDS já depois das eleições? Aliás, um negócio a favor da SLN, logo por um ministro PSD que de seguida fi trabalhar para a SLN? Organize-se por favor. Se Costa é culpado de ter acabado por aceitar o SIRESP (aceitou), quem foi que aprovou o SIRESP? Ora, o SIRESP ou é bom (aprovado pelo PSD-CDS) ou é mau (aceite pelo Costa). O que não pode ser é bom e mau ao mesmo tempo.

  6. Não é conveniente investigar muito. Os interesses à volta do negócio dos incêndios fariam rapidamente o investigador chegar aos gabinetes de Lisboa. Não convém.

  7. Mas só os eucaliptos à que ardem ? Anda tudo doido ? As outras arvores não são combustíveis ?
    Vamos eliminar as arvores todas de Portugal por causa dos incêndios???…
    99,999999% dos incêndios tem origem CRIMNOSA. Essa é a causa do problema e mais nenhuma !

    Enquanto não se enquadrar o crime de incendio florestal doloso como um ATAQUE TERRORISTA com uma moldura penal duríssima, esta palhaçada vai continuar a acontecer todos os anos.

    1. Caro,
      Ninguém diz que só o eucalipto é que arde… mas tem dúvidas que essas árvores e os pinheiros são especialmente combustíveis? Tem dúvidas de que monocultura não rima com floresta, nem com ecossistema, nem com natureza, nem com nada?

      E mais: segundo as estatísticas oficiais (a menos que o Johnny tenha umas melhores), a principal causa de incêndio é a incúria humana, e não a mão criminosa.

      E, se lhe passa pela cabeça extinguir os incendiários, saiba que isso é tão viável (e ponderado) como querer extinguir a floresta.

  8. Há q’anos que o Bloco e a CDU apresentam soluções para o problema (não somente agora, com o Bloco). O problema está identificado, e nem por isso afrontam directamente as celuloses, apenas criam regras mais rígidas.
    Temos o que é hoje considerada a melhor proteção civil e bombeiros do mundo. Não é por aqui que devemos ir, embora todos os inquéritos sejam bem vindos.
    Mas aparentemente temos um ministro da agricultura que sabe do assunto, mas tem os tais complexos da 3a via socialista dos negócios, de mãos dadas com os CAPeiros, CNAreiros, e outros interesses privados, como se agora também tivéssemos que salvar bancos de fotossíntese australianos sem qualas, abandonados.
    Agravado pelo complexo também entranhado de, ao ver uma vaca abandonada mas tranquila e saudável no pasto, imediatamente lhe vir à ideia enormes vacarias da marca Louis Vuitton, e os terrenos abandonados atulhados de eucaliptos e pinhões, com subterrâneos cheios de ouro, diamantes, platina e até petróleo.

    Nem essa odiosa “nacionalização” de terrenos para reorganização e reflorestação, existe (mas existe nas mentes preversas da direita, daí o combate político a esse fogo intenso).
    Não há fortuna. O que se tirar daquelas terras, é só para manutenção, e o resto fica para os filhos e netos dos actuais proprietários (de certeza mais educados e conscientes)…

    1. Obrigado pelo comentário. Concerteza que vários partidos apresentaram propostas interessantes e relevantes ao longo do tempo: o PS no tempo de Guterres, o PCP ao longo do tempo, agora o Bloco, e esperemos para ver o que adiantam outros. Não quero fazer nenhum juízo precipitado nem muito menos partidário, mas somente indicar o contexto do debate agora, em junho e julho de 2017, no parlamento e fora dele.

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