Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

19 de Junho de 2017, 08:41

Por

Basta!

Perante a tragédia: o sentimento, o respeito, a solidariedade e o silêncio das palavras. Como também o reconhecimento de um trabalho e bravura levados aos limites por populações heróicas e por todos quantos têm lutado em diferentes áreas de actuação.

Perante a tragédia: a unidade, coisa rara no Portugal destes tempos, sempre envolto em quezílias de terceira ordem e em paroquialismos elevados à categoria de causas de primeiro grau. Órgãos de soberania, partidos, forças sociais, autarquias, instituições solidárias e de voluntariado, instituições públicas, instâncias europeias, todos do mesmo lado.

Perante a morte, percebemos, mais crua e cruelmente, a poeira das coisas elevadas à potência da vacuidade e da ligeireza. Como alcançamos, com mais nitidez, a importância gregária das famílias e das instituições de proximidade.

Não tenho conhecimento suficiente para diagnosticar as causas para estes dramas e tragédias, para além daquilo que nos deve impor o senso comum. Todavia, entre as lições que deveremos aprofundar estarão, seguramente, duas. A primeira, a de que depois das palavras e intenções que sempre e naturalmente se escutam nestes dias de morte e destruição, anunciando propósitos nem sempre concretizados e produzindo leis que se revelam estéreis, haja determinação inequívoca para prevenir no ordenamento do território, na florestação e sua adequada manutenção, na vigilância e detecção, na redução da monocultura arbórea, na administração da justiça, o que a sensatez e a prudência exigem. A segunda, consequência, aliás, da primeira, é a de criar as condições que façam diminuir o risco destas situações, como uma prioridade das prioridades. Bem sabemos que, politica e localmente, este tipo de operações e infra-estruturas não são espectaculares, às vezes são quase invisíveis e silenciosas aos olhos das gentes e dos meios de comunicação social. Contudo, constituem os mais nobres investimentos para a promoção da dignidade, centralidade e bem-estar de pessoas e de zonas do país tantas vezes esquecidas (a não ser nas tragédias).

Diante da morte trágica e da destruição de casas e haveres somos sempre afectuosos. Depois, a consciência volta a jazer no frenesim do dia seguinte. À espera de mais vida, nem sempre melhor vida. Com o tempo, a memória selectiva e utilitarista da sociedade transforma estes graves acontecimentos em efemérides e homenagens, sem dúvida justas e sensíveis. Mas bom será que se tirem também lições para o futuro, até geracionais, para que, além das efemérides, haja uma verdadeira mudança.

Uma última nota, em parte tecnocrática, tenho disso consciência. Relaciona-se com a economia e a noção de riqueza medida pelo omnipresente PIB. É que este só “soma” o que se produz, o que se investe, o que se compra e vende, o que se consome. E onde cabe, no cálculo, aquilo que se destrói ou danifica? A floresta, os recursos naturais, a água, etc.? Bastaria esta operação de subtracção aritmética para, politica e institucionalmente, se olhar para este lado da questão com outros olhos e maior escrutínio. Irónica e brutalmente, nestes dias, em Pedrógão Grande, o seu contributo para o PIB aumentou.

Não nos esqueçamos nunca do que verdadeiramente importa: nós. Porque as mortes choradas contam-se, mas não se contabilizam, nem são agregados técnicos.  Dramaticamente, percebemos agora melhor a diferença entre a quantidade estatística do crescimento e a exigência qualitativa e humanista do desenvolvimento. E é neste que deveremos sempre apostar. Em nome da pan-obsessão de um qualquer 0,1% de um outro qualquer índice, quantos assuntos menores têm passado à frente dos que se relacionam com a prevenção destas tragédias?

Tudo está dito e redito. Hoje choramos, amanhã desconsideramos, depois adiamos. A magnitude desta tragédia exige, de uma vez por todas, um absoluto “BASTA!”

Comentários

  1. Porque é que quem é responsável pelo permanente desinvestimento no interior não é responsabilizado? Fecham-se maternidades, quartéis, escolas, centros de saúde. Sempre a diminuir, à espera que os velhotes de lá morram. Quanto começa a arder perguntam “é mato?”. Não faltou logo gente a dizer que “agora não é tempo de procurar culpados”. Ah isso é que é! Há que começar já a apurar responsabilidade criminal das hierarquias de políticos, boys e tachistas que apostam em desertificar o interior. Atrás deles com toda a força da lei e se for possível, cadeia. Pode ser que os que venham a seguir queiram fazer melhor trabalho, nem que seja obrigados.

    1. Concordo totalmente. Até porque deixar passar o tempo é uma maneira de promover o esquecimento.

  2. Quem não critica não é português, e ainda bem que é assim, desde que não se abram caça a bruxas sem uma investigação séria e responsável, longe de teses iniciais, que são só isso: iniciais.

    Estamos de luto, mas ânimo.

    Ainda há bem pouco tempo fomos elogiados pelo Chile, que tem a melhor protecção civil do mundo, porque tem centenas de terremotos por ano, 1 terremoto catastrófico de 2 em 2 anos, grandes incêndios florestais, resgates de mineiros com furos cirúrgicos a centenas de metros de profundidade, e considera os nossos bombeiros os melhores do mundo ao lado dos deles e dos californianos.
    Isto não é propriamente um elogio de um certo político alemão psicopata neoliberal…

    Já muito melhorou em Portugal, e até a corrupção e os negócios ligados aos incêndios não se comparam com os anos 90 e 2000.
    Penso ser constitucional dar a opção aos pirómanos de uma pena de um mês por ano em dias de calor elevado, durante 20 anos (20 meses, portanto), em vez de uma pena de 100 meses de uma vez. Eu, se fosse pirómano, preferia a primeira opção.
    Há sempre ideias da tecnologia, como câmaras infravermelhos 360º em antenas de redes móveis, drones, etc. Reforço de polícias nestas zonas em alertas amarelos e vermelhos, território já em andamento (poucos Média deram importância à Assembleia, que está a afinar os últimos pormenores), enfim, há sempre que aperfeiçoar.

    Luto, aperfeiçoar, e ânimo.

  3. Isto é que é um exemplo de Humanidade, de Ética, de estar acima do comum dos mortais.
    Obrigado, Amigo, pelo que escreveu.
    Faço minhas as suas palavras.
    Conheço a região – os meus sogros são ambos das Sarzedas de São Pedro – um primo nosso morreu hoje, no Hospital de Coimbra. Era bombeiro.
    Até o meu cão era de lá.
    Não consigo expressar mais nada, mas apenas abjectar as Judites de Sousas e quejandos. Nojo!.
    Obrigado Querido Amigo, pelas suas palavras.

    1. Caro Zé, também achei estranho que o articulista não fizesse essa menção, pelo que fui tentar perceber do que se trata o SIRESP.

      Aqui fica então em alguns pontos, o que se sabe sobre o SIRESP:

      – A necessidade de um sistema de comunicações integrado foi identificada em 1999, durante o governo de Guterres.

      – Cinco fornecedores pagaram 15 mil euros pelo caderno de encargos, mas só um apresentou proposta, alegando que o concurso estava decidido à partida.

      – Em 2005, três dias depois de Santana Lopes ter perdido as eleições, o ex-Ministro da Administração Interna (Daniel Sanches) e o ex-ministro das Finanças (Bagão Félix) assinaram o despacho de adjudicação do sistema num valor de 538,2 milhões de Euros.

      – Daniel Sanches fazia parte da Sociedade Lusa de Negócios antes de entrar no governo de Santana Lopes. Enquanto estava no governo adjudicou o SIRESP à SLN. E quando saiu do governo voltou à SLN.

      – O negócio foi posto em causa no início do novo governo de Sócrates. Foi decretada a respectiva nulidade devido a considerar-se que os signatários da adjudicação não tinham competência para o fazer, dado que faziam parte de um Governo de gestão. Mas um novo contrato, com um valor 50 milhões de euros abaixo do valor inicial e com redução de funcionalidades acabou por ser assinado por António Costa em 3 de Julho de 2006.

      – As suspeitas de tráfego de influências foram arquivadas pelo Ministério Público em Março de 2008.

      PESSOAS ENVOLVIDAS:

      António Guterres – Primeiro Ministro (XIV Governo);
      José Manuel Durão Barroso – Primeiro Ministro (XV Governo);
      Bagão Félix – Ministro das Finanças (XVI governo);
      Daniel Sanches – Ministro da Administração Interna (XVI governo);
      António Costa – Ministro de Estado e da Administração Interna (XVII governo);
      Manuel Dias Loureiro – Era administrador não executivo do Grupo do BPN, apesar de ser não executivo tem fortes ligações ao Daniel Sanches;
      José Oliveira e Costa – Presidente do grupo SLN.

      Para mais informação, consultar: https://tretas.org/DossierSIRESP

      No entretanto, fico à espera que o articulista nos possa dar mais esclarecimentos, não só porque conhece alguns dos intervenientes neste magnifico negócio para o País, como foi ele próprio, na função de ministro das finanças, que assinou o despacho de adjudicação deste brilhante sistema!

      Cumprimentos

  4. Como luso-descendente, amante de Portugal, da terra de meus avós exemplo de virtudes, virtudes que só o Grande Povo Português soube espalhar pelo Mundo desde de 1500, sofro com as mortes, com as perdas, com a calamidade, com a tragedia, que se abateu sobre meu querido Portugal. Que o Senhor Nosso Deus tenha Misericórdia daqueles que sofrem as dores das perdas, em Nome de Jesus, Amem.

  5. Um apontamento que não me parece despiciendo.
    Apesar de ser uma questão muitíssimo descurada – basta atentar nos critérios de selecção –, para se construir uma sociedade civilizada e humana é indispensável que as pessoas que nela ocupam lugares de destaque e de direcção sejam seleccionadas em função da demonstração de elevados padrões de humanidade, de consideração e estima pelo valor inestimável e absoluto do semelhante. Infelizmente e para nosso grande malefício, a sociedade que temos privilegia os psicopatas em lugares de gestão.
    Vem isto a propósito de algumas declarações da sra. ministra da administração interna que me parece que não poderão deixar de soar desagradavelmente a quem quer que as oiça com um pouco menos de distracção e que resultam suficientemente reveladoras.
    Advertiu a sra. ministra que quem ligasse para certo número em busca de informações sobre familiares desaparecidos não o deveria fazer, pois essa era uma linha exclusivamente dedicada ao alojamento. Assim, sem mais. Foi com um calafrio que ouvi isto, sem uma palavra de atenção ao desespero de quem procura familiares desaparecidos, ou sequer a lembrança de que também faria todo o sentido ter uma linha dedicada àqueles.
    Advertiu ainda a sra. ministra que quem recebesse ordens nesse sentido das forças da autoridade pública deveria abandonar as suas casas, outra vez sem nada mais acrescentar, sem a mínima palavra de consideração pela aflição de quem teme perder todos os seus bens. O calafrio subiu a indignação.
    Por fim, ouvi a sra. ministra responder muito agastada a quem lhe perguntou se não se deveria demitir e a, de imediato, dar por terminada a entrevista aos canais noticiosos, como se tivesse sido cometido um crime de lesa majestade e como se tivesse caducado a sua obrigação de prestar esclarecimentos. Aqui já só restava a repugnância.
    Parece-me, pois, suficientemente indiciado que a ministra não preenche os requisitos mínimos de humanidade próprios de uma sociedade civilizada e que, portanto, não lhe deve ser dada a oportunidade de se demitir, mas deve antes ser exemplarmente demitida com esse expresso fundamento.

  6. Estamos numa de cultivo do “nacional-coitadismo”. Nós, em vez de mandarmos umas garrafinhas de água preferimos dizer às pessoas que é necessário enxugar as lágrimas e que devem (todos nós devemos) arregaçar as mangas para resolver este problema.
    Num quadro extraordinário, observo espantado um molho de “responsáveis” na tv. À esquerda, a ministra da administração interna, com ar despassarado, a olhar para o PM que tem do outro lado o ministro da agricultura. O primeiro a tratar da imagem, e o segundo com ar enfiado, ambos tendo, noutros governos, tutelado diretamente as áreas da administração interna e das florestas. Nada fizeram. Porque razão temos de acreditar que vão fazer agora?
    Noutro canal vemos o presidente da associação de bombeiros, que no intervalo dos assuntos do Sporting, arranjou tempo para nos dizer que a culpa é da “ana tereza”.
    A fase seguinte é falar de dinheiro. O que me traz à memória a seguinte comparação: Madeira 2016 – 3 mortos, várias casas destruídas e mato e floresta ardidos – prejuízo estimado de 150 milhões de euros; Amatrice (Itália) 2016 entre outras povoações – uma vila inteira destruída, outras três parcialmente, 299 mortos – prejuízo estimado de 50 milhões de euros. Até o sempre ofegante PR deu pelo gato! Mas como é a união europeia que vai pagar…

    1. Argumentação enviesada. Não há nenhum partido político que se queira queimar com esta história. Nem este, nem os outros que costumam andar por S. Bento. Pense nisso.

    2. PSG. Penso sim senhor.
      Lembro-me até de o anterior presidente da câmara de lisboa ter dito que não havia solução para as cheias na cidade. Espero que não pense o mesmo relativamente aos incêndios. Mas, tal deve ser muito difícil saber, já que nenhum jornalista lhe põe a pergunta. É que quem se mete, leva!

  7. Ando à 2 horas de roça mato na mão. Limpei 200 m2. Não pode haver estratégia de limpeza sem pastorícia (cabras). E se há animais, tem que haver pessoas.

  8. Os nossos representantes não precisam de “coragem política”, nem de serem “politicamente correctos”, já que estão maniatados pelo eleitorado. Devem, o quanto antes atacar os problema reais: o ordenamento territorial e florestal; a exploração económica deste recurso (e doutros, já agora)tanto por parte dos grandes grupos empresariais, como do mais pequeno dos proprietários. Racionalizar o espaço é, como vimos testemunhando há uma infinidade de anos, o primeiro passo; depois regular efectivamente a exploração económica das espécies autóctones, e das outras não-autóctones. Com o passar do tempo, e com as mudanças climáticas a serem cada vez mais evidentes, não estarmos preparados para o que aí vem é fazer a crónica de uma morte anunciada. Os espanhóis insistem com o nuclear em centrais que já passaram de prazo, e por cá fincamos o pé na indústria da celulose, que vai mudando para sempre a paisagem do País. A paisagem e os solos, secos pelo eucaliptal e pela falta de chuvas. É este o modelo do nosso desenvolvimento? E quantos turistas virão para cá, sob pena de morrerem numa qualquer estrada nacional? Se a democracia representativa não faz nada, talvez a outra já vá tardando.

  9. Tendo a saudar este texto que se curva perante as vítimas, se solidariza perante o sofrimento, enaltece a entreajuda e a unidade dos agentes responsáveis pela ajuda formal. Tudo bem!

    No BASTA é que está o desabafo, a impotência talvez.

    A mudança do modo de vida operada em Portugal nos últimos 60 anos reclama a reforma agrária a nível nacional: a terra a quem a explora eficazmente! Não decorre daqui, antes pelo contrário, a apropriação e o castigo dos proprietários impotentes para explorar a terra herdada, mas a emergência de uma solução virtuosa para pôr a terra a produzir e a proteger-se protegendo as pessoas e concorrendo para o PIB através do incremento do bem-estar.

    Não cabe ao Estado fazer a reforma agrária, mas eventualmente, facilitá-la e legitimá-la, se houver quem da sociedade se erga querendo trabalhar eficazmente a terra. Não tem havido!
    Os eucaliptais da indústria de papel não registam incêndios. É do interesse dos proprietários defender a riqueza própria.

  10. Sim senhor,concordo…mas sendo assim,no que ao ambiente,floresta,ataques ambientais diz respeito,devemos estar todos loucos,a saber:o tribunal de Santarem considerou que as populações de Torres Novas estão loucas,porque afinal o rio Almonda que passa por esta cidade e desagua no Tejo,não contem poluição alguma(vá lá,tem um bocadinho,segundo os juizes) ,e portanto aquilo,que mais parece e cheira como um esgoto a ceu aberto,ate dá para tomar banho,e pescar …e tal.Cá esta um exemplo em como a natureza(humana?) é que tem a culpa.

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