Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

16 de Junho de 2017, 14:18

Por

Os últimos dias da humanidade?

Custa-me dizer-lhe isto tão à bruta: a Agência do Medicamento é questão de somenos e provavelmente rumará a outras paragens. Mas o que resta desta questão é o retrato de uma caça egoísta aos “despojos” britânicos, como gentilmente escreve um entusiasta europeu, com os governos a promoverem descontos fiscais e mordomias para seduzirem os chefes nómadas, o que diz muito sobre a malandrice numa União que vive disto. Em Portugal, também tudo trivial: é assunto para as eleições autárquicas. Ora, esta banalidade é inócua, será o menos que nos ameaça. É assim e vai continuar a ser assim, a genética europeia manda.

A questão que então me importa é outra: por que é que nos embriagamos com estes casos (ou com os mails e as zangas do futebol, sem dúvida ainda mais apaixonantes)? A resposta talvez seja que é assim que se forma o senso comum, o mais poderoso instrumento de poder dos nossos dias, ou que esta é a dominação mais forte, por se reproduzir consensualmente. É eficaz: não gera conflito, o cidadão é um espectador. É universal: não requer presença, aceita a representação etérea da decisão. O senso comum é portanto uma exterioridade que nos invade sem se ver.

“George Steiner em The New Yorker” (Relógio d’Água, 2017) é um livro fascinante que selecciona alguns dos artigos de Steiner, judeu franco-americano, crítico literário e ensaísta. No seu labirinto de temas, há um que porventura interessará aos meus leitores de hoje e que responde precisamente a este sentimento de banalização como gramática do quotidiano. Lembra ele o trabalho de Karl Kraus, austríaco, dramaturgo, que interpretava Shakespeare a solo, promoveu centenas de récitas que fascinavam os ouvintes e que, com a sua peça “Os Últimos Dias da Humanidade” (esteve recentemente em representação em Lisboa e Porto, pelo Teatro de S. João), descreveu, numa possessão de lucidez, termo de Steiner, a vulgaridade, a ostentação, os discursos do Estado Maior, do governo ou da imprensa para justificarem a Primeira Guerra, ou o mapa das palavras em que se tecia a ordem burguesa que anunciou a catástrofe – e ela veio mesmo.

Só que Kraus se enganou, não foram os últimos dias, nem seriam depois com Hitler (numa trágica ambiguidade, Kraus respondeu a Hitler com o silêncio, e morreu em 1936 sem ver o que estava a chegar). Houve o apocalipse e a meia-noite no século, houve o Gulag e a guerra do Vietname, houve napalm em Angola e tortura na Argélia, houve as Torres Gémeas e bombas de fósforo em Falluja, há a vala comum do Mediterrâneo, mas ainda cá andamos. Ou seja, o terror banalizou-se também, são dias como outros quaisquer.

Lembra então Steiner: “1984” esteve para se chamar “O Último Homem da Europa”, mas Orwell preferiu por no título uma data sem significado. O livro tornou-se assim um sucesso, narrando precisamente a banalização do poder sob a novilíngua, a sua voz do senso comum. Mas é assim, insiste Steiner, que a Europa se descobriu sempre: antes de “1984”, “As Viagens de Gulliver”, de Swift, que desembarca num Estado de bufos, ou Kafka, com a alucinação dos campos em que a sua Milena e as suas irmãs morreriam, ou Huxley com o “Admirável Mundo Novo”, ou Zamiatine com “Nós”, ou London com “O Tacão de Ferro”, todos descrevem esse mosaico de vozes de poder que domestica a cultura de massas. Ou seja, gritam contra uma época crepuscular que é engendrada pela banalização.

A literatura europeia sobre a Europa do século XX tem esta marca: o seu tom é a tragédia, descobrimos com ela que o pior não é vivermos os últimos dias, que não o são, mas antes sabermos que a humanidade está submetida a uma transcendência – a banalidade. Talvez por isso, a crítica ficou sempre à margem, o que tem consequência política, pois ela trata de um mundo que não se reconhece.

Comentários

  1. George Steiner confessou a sua saudade pela sociedade do silêncio, da leitura repousada, da reflexão e discussão pensadas.

    Na minha adolescência e pelos meus tempos dos 30/40 anos tinha espaços de lazer simples: leitura e cinema. Mas os tempos naturalmente mudaram: a espécie a que pertencemos é criativa. A vida em sociedade começou a complicar-se e, ao mesmo tempo, aliciante em muitos domínios: tinha começado a Revolução Tecnológica, na sequência da Revolução Industrial.

    Não gosto da forma assumida pelo Modo de Produção Capitalista. Chega a ser atroz: desigualdades gritantes, violência, hipocrisia política. O mundo está feio. Tanta pressa, tanto crescimento desejado, tanta ganância…mas o limite, sempre esquecido, são os próprios recursos do Planeta que habitamos. Planeta este que está em perigo…afinal existem naturais e finitos a tanta ganância.

    Os velhos hábitos permanecem: estranhamente, os livros digitais não progridem em termos de vendas. O suporte papel continua a ter a preferência quase total, com prejuízo ecológico, assinale-se. Mas, em termos de ambiente, não devemos esquecer os comportamentos anacrónicos das grandes potências económicas – vide EUA e China, que causam grandes danos ao equilíbrio da vida. A leitura e o seu meio material de concretização, o livro, são presenças constantes nas nossas vidas. Ainda são um meio poderoso de difusão do conhecimento, concorrendo como os mais recentes desenvolvimentos da tecnologia.

    Chamo Harold bloom, que partilha muitas das preocupações de George Steiner. Em “Como Ler e Porquê”, Ed.Caminho, 2001(O original é de 2000.”How to read and why”), Bloom escreve, notando que para ler é preciso estar sozinho, concentrado: “Ler bem é um dos grandes prazeres que a solidão que nos pode proporcionar, porque é, pelo menos, segundo a minha experiência, o prazer mais regenerador. Devolve-nos à alteridade, ao que é outro em nós…Lemos não só porque não conseguimos conhecer tantas pessoas quanto desejaríamos…irei considerar a leitura mais como uma prática solitária do que como um empreendimento educativo…para ler sentimentos humanos numa linguagem humana é preciso saber ler humanamente.”

  2. Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: – Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! – Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?

    Raul Brandão, in “Húmus”

  3. O estridente discurso quotidiano nas suas multifacetadas coreografias será sempre o discurso da banalidade.

    Das mudanças das necessidades humanas geradas por mudanças de modos de vida e da satisfação dessas necessidades fala-se só preteritamente.

    Ninguém ganhou o prémio Nobel da banalidade, mas o Prémio Nobel da literatura, José Saramago, terá dito que Cavaco Silva mereceria o tal prémio Nobel da banalidade.

    A humanidade como a natureza move-se sem faustosas ou estridentes declarações. Esse é o movimento essencial que tudo decide sem a retórica das polémicas ou dos casos.

    A cada momento se fazem filhos com muito amor e, as mais das vezes, sem amor nenhum e a população de humanos cresce no pequeno planeta. As cordilheiras elevam-se pela distante ação telúrica entre as placas tectónicas, as espécies vegetais e animais evoluem, extinguem-se e diversificam-se, a imaginação cria e o poema nasce. Tudo à margem do discurso estéril da banalidade. Afinal a banalidade é o entretenimento do quotidiano.

  4. E houve um “Não” na Grécia, que o Syriza rapidamente transformou num “Sim”, e depois implodiu (felizmente sem mortos, mas com grande sofrimento para os gregos manipulados), mas manteve o senso comum dos gregos (uma contradição flagrante).

    Sim. Há Melícias Aitarak em Portugal (são os que conhecem o Aitarak, ou deviam conhecer, já que comentam em jornais e televisões, como se não houvesse amanhã), com sede de vingança e vacinação contra os ingleses, para que esse vírus não infecte aos outros pró-germânicos, e principalmente aos germânicos.

    Sim. O senso comum espalha-se.
    A última que tomei nota foi deste governo ter tomado e bem a opção de começar a devolução e reposição dos rendimentos de baixo para cima (sem a ajuda do BE e PCP, isso não seria possível, como é óbvio), ao que os sensores comuns rapidamente mandaram para o éter de que “os pobres já recebem muitos subsídios”. Esquecendo o facto de que são os mais afortunados, com escrúpulos ou não, que recebem mais subsídios, europeus e com participação nacional.

    Tal como o emprego dos familiares de César do PS, que acabou de retirar milhares de votos ao Medina, assim esperamos, uma vez que eleições autárquicas não servem só para dar Agências a cidades, mas também para punir autarcas nepotistas.

    1. Desculpem mais uma vez o meu habitual esquecimento, mas tenho que dar mais uma palavrinha em relação a Carlos César (o nosso François Fillon, com esteróides familiares).
      Eu não vou ofende-lo como fez o Duarte Marques do PSD, por respeito a ex-Presidentes que não tiveram acções do BPN, e muito menos há suspeitas de terem metido dinheiro ao seu chamado “bolso esquerdo”.

      Mas deve haver formas de resistir a estas pressões.
      Neste tipo de trabalhos burocráticos, devemos dar prioridade a pessoas com mobilidade reduzida ou outro tipo de deficiência, alguns deles com currículos melhores que estas pessoas perfeitamente saudáveis, e com bons relacionamentos (familiares ou não).

      Quando um qualquer dirigente político se sentir ameaçado pelas cunhas, procurem imediatamente alguém com mobilidade reduzida e com currículo para preencher o lugar.
      Não falha.

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