Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

12 de Junho de 2017, 09:09

Por

Cuidado com a língua!

Li no Ciberdúvidas um texto que me entristeceu: o de que a RTP irá interromper (terminar?) o programa “Cuidado com a Língua”. Trata-se de um didáctico magazine, iniciado em 2006, e que vai na sua 9ª série. Um projecto interessante de promoção da nossa língua, “ao mesmo tempo informativo e lúdico, divertido e com algum humor q.b.”.

A confirmar-se este óbito linguístico, e embora desconhecendo o contexto da decisão, não posso deixar de criticar mais um duro golpe no quase deserto de iniciativas públicas para se bem falar e escrever. Neste caso, tratando-se de um programa do serviço público de televisão, bom seria sabermos as razões que levam a esta sentença. Questão de audiência? Desconsideração do tema? Outras prioridades de programação?

Parte da linguagem televisiva deixou-se capturar pela indigência semântica, gramatical e fonética. Há jovens profissionais, no seu esplendor de idade e de ignorância, a debitarem um paupérrimo português com a mais convencida conversa para “com vocês”. Por sua vez, oráculos surgem nos nossos ecrãs com erros linguísticos primários. Tudo rápido, tudo excitante, tudo avassalador, tudo misturado, mas tudo cada vez com menos atenção ao pobre português falado e escrito.

Se alguém estiver disposto a coligir erros na nossa língua, sugiro um lápis e um bloco para apontar o que se diz em certos programas de televisão. Há de tudo em avantajadas doses. Deixo aqui o que anotei em poucos dias. Há, evidentemente, os já batidos erros desde “interviu” a “entreteu”, “hadem de ser” a “houveram”, “há tempos atrás” a “à condição”, e a fonética nunca emendada dos “acórdos”, das “hepátites” e “bácterias”, dos “juniores” e “seniores” (que são graves com a tónica na penúltima sílaba), dos “lidéres” em vez dos líderes, da “rúbrica” em lugar da rubrica e do “tem a ver” pronunciado como se fosse “tem a haver”. Ouvi, também, a “hetacombe” de “quaisqueres” crises qualificadas como humanitárias, “despoletadas como constrangedoras e confrangedoras, entendidas como vocábulos sinónimos.  “Dignatário” sem dignidade é o que há para aí mais, eminentes trocados por iminentes nem só com eminências pardas, “encapuçados” sem capuz também abundam no crime e “cônjugues” com dois u é meio-caminho andado para o divórcio. Tudo com o bem-estar linguístico do mal “mau-estar”. Tudo “expontâneo” nos “mídia” (que fino, hem!). Entre o uso de de ou que é um fartote: “deve de ser”, mas “tem que ser” “enquanto que for”).  E é claro que se agradece aos convidados “terem aceite em vez de “aceitado”. “Precaridade” (sem o pobre e) “empreendorismo” e “competividade” (engolindo uma sílaba), perca (não me refiro ao peixe do Nilo) no lugar de perda, por ventura em vez de porventura, “concerteza” com certeza, “prejorativo”, “preverso” e “previlégio” são erros que “saiem” à “descrição”.

Cuidado com a língua” alertava para exemplos concretos de erros nos noticiários, que, todavia, persistem. É que, nesta matéria, o erro faz parte da moda. Ou porque se acha que o erro deixou, aparentemente, de o ser (correndo-se até o risco de quem diz correctamente ser olhado como usando mau português), ou porque a correcção exige predisposição para tal e isso dá muito trabalho…

Há, ainda, a “terceira via” do “pós-acordismo” ortográfico, em que, no meio de tanta confusão, se escrevem palavras que nem correspondem à anterior escrita, nem ao AO (por exemplo, fato para facto e contato sem tacto…). Imagino a trapalhada nas escolas!

Em suma, vai acabar o que creio ser o único programa televisivo sobre a nossa língua. Resistiu muito tempo, mas cai onde melhor falar e escrever  conta pouco. No entanto, não há dia que não se fale da lusofonia e se lhe teçam louvaminhas. Tudo teatro, tudo encenação, quando, ao mesmo tempo, se menospreza a essência e pureza da língua.

Comentários

  1. Leio regularmente as crónicas de António Bagão Félix no Público. Tenho interesse profissional por temas de Economia, mas aprecio também as crónicas em que a língua é o tema. Ainda há dias, adorei a crónica sobre tempos e silêncios.
    Li com igual prazer e adesão o “Cuidado com a língua!”, mas senti um murro no estômago ao ler o último parágrafo. Apanhei com aquele «…cai no tempo onde falar e escrever melhor conta pouco». Veio-me logo à mente a expressão “no tempo onde os animais falavam” e senti um arrepio.
    Vindo do Dr. António Bagão Félix, aquele uso do onde preocupou-me. Será que sou eu que estou errado e a laborar no erro há anos?

    1. Grato pelo seu comentário. Não tenho a pretensão de nunca errar. Pelo contrário, ao longo da vida, tenho tido a preocupação de emendar erros quando deles fico consciente.
      Sei bem que “onde” se deve empregar com espaços ou lugares e “em que” com tempos.
      Todavia, no caso em apreço, tentei exprimir – embora através da palavra “no tempo” – um lugar abstracto (onde falar escrever melhor conta pouco), referindo-me a espaços públicos de comunicação, entre os quais a televisão, em geral. Ou seja, ligado ao antepenúltimo parágrafo do meu texto. Reconheço, porém, que esta figuração é ambígua. Mal comparado, tem alguma semelhança com a muito usada expressão “espaço de tempo”.

  2. Pôs o dedo na ferida. Todos esses erros são cometidos diariamente , e muitos mais, sem que as entidades públicas reajam.. É urgente que sejam facultadas aulas de Português aos jornalistas mais jovens, pois são esses que atropelam mais a sintaxe , a pronúncia e a prosódia. Lêem tal mal, com as pausas no momento errado, ou não fazendo pausa onde é necessário , que, por vezes, não se entende o que dizem.

  3. O artigo está perfeito mas a mensagem arrepia. O espectro terrível da professora primária por instantes chegou a materializar-se mesmo à minha frente.

    É claro que deve haver respeito pelas regras mas uma língua deve ser sobretudo um meio vivo, descomplicado, estimulante, para fomentar comunicação e pensamentos. O crioulo transgressor dos brasileiros, por exemplo: é magnífico, e é isso que torna a Língua tão viva entre eles, criativa e fervilhante. Já entre os angolanos, ao contrário, enfronhados no formalismo da velha escola, e subjugados a estas coisinhas, a estes preciosismos inibitórios, a coisa é um terror; mesmo entre quadros qualificados. Hoje poucos se atrevem a redigir um relatório e muitos tremem só de pensar nisso. Até o pensamento lhes fica tolhido. Não admira pois que encontrem mais riqueza no gentílico. O caboverdino acabou por adoptar o crioulo como primeira língua e o português como ‘língua segunda’… e os outros lusófonos mais ou menos a mesma coisa perante tanta regrinha antipática.

    Para Língua culta o mundo tem adoptado invariavelmente o inglês pelo seu potencial prático, conciso, simples, e lógico. Exactamente o contrário do emaranhado de regras recambolescas que fazem relegar este velho português para a prateleira das bizarrias. Não admira pois o brilhante futuro de uma e o ridículo declínio ensimesmado da outra. Para além de que em qualquer caso é sempre péssimo sinal (e crassa má educação) quando se objecta sobre o acento trocado ou o preciosismo filológico e nada se atende da substância comunicada.

    1. Ninguem está a criticar calinadas na gramatica resultantes do uso de gírias ou crioulo. O que está em causa é o espetaculo desolador da expressao oral e escrita que campeia em alguma comunicaçao social, nomeadamente na TV publica, que nao tem paralelo com o que vemos por ex. no Brasil. A ideia de que o Portugues nao se presta a que nos exprimamos de forma clara, simples e concisa tambem é cliché agora que o ingles está na moda. Como se costuma dizer – quem pensa claro fala claro …

  4. O artigo de Bagão Félix aponta certamente para muitos erros que são legião diariamente nos ‘media’, mas nem tudo o que ele aponta é como ele pensa que deve ser correcto, antes revela bastante dos seus preconceitos e ignorância linguísticos. Seria longa, todavia, tal exposição. Quantos doutores em Filologia e/ou Linguística Portuguesa há no País? E que intervenção têm neste estado da língua nas várias instâncias institucionais?Provavelmente, zero, para me exprimir como um conhecido treinador. No entanto, a culpa é de quem contrata pessoas sem “qualificação” para a comunicação social. Mas vê-se que o próprio Bagão não é linguísta e não dispõe nem da melhor metodologia para criticar o erro nem para propor alguma solução que devesse ser seguida. Poderia apontar o problema que é real, mas abster-se pura e simplesmente de dar tantos exemplos, entre os quais nem tudo é ouro de lei. Já os programas sobre língua portuguesa deveriam ser da responsabilidade de quem está habilitado para o efeito, tal como é um cirurgião que opera e não um jornalista.

    1. Também é dos que pensam que só os linguistas podem falar da nossa língua? Fiquei muito esclarecido com o seu comentário.

  5. Obrigado caro Félix, embora não sendo fanático tento ter algum cuidado, mas fiquei alarmado por aceitar à primeira, pacificamente, talvez metade dos exemplos que apontou. Tem razão…

  6. Coloco a seguinte questão:

    Quando escrevemos, escolhemos artigos, substantivos, adjectivos, etc… Por já os termos visionado em jornais, revistas, livros, em inscrições na via pública…Uma coisa é a escrita; outra é a oralidade.

    Somos bebés, depois crianças. Ensinam-nos as palavras; mais tarde, nos primeiros anos de escola vemos as palavras que desde o berço ouvimos reproduzidas. Depois, em outros graus de ensino, entramos nos conhecimentos racionais.

    Uma coisa é certa: quando escrevemos usamos a memória e pouco a etimologia. Se formos pela etimologia e pela derivação das palavras a partir da sua origem(latim, grego, francófona, inglesa, árabe, etc…) certamente não cometemos erros ortográficos. Mas sabemos que isto está ao alcance de poucos: de línguístas, de profundos conhecedores da língua, tais como Rodrigo de Sá Nogueira, José Pedro Machado, Rodrigo Fontoura bem como outros mais recentes na actividade. A melhor forma é usar dicionários para esclarecer dúvidas…Em geral, é negativamente valorizada a presença de erros ortográficos. Um exemplo: posso escrever permissa em vez de premissa. Onde errei? O devia ter feito? Consulto o “Novo Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, de Rodrigo Fontonha, Ed.Domingos Barreira, Porto e diz-me: premissa latim praemissa(m) – apócope de m, no fim da palavra, mas numa distracção posso escrever “permissa” erradamente. Penso que não se devem valorizar erros deste tipo.

    Já escrevi “empreendorismo” por distracção ou lapso, em vez de empreendedorismo, a partir de “empreendedor + ismo”.

    Não quero entrar na discussão do AO. Utilizo a antiga ortografia e creio que o AO têm algumas confusões. É um assunto polémico e conheço as posições antagónicas por pura informação. E sei o sacrifício que para alguns profissionais é utilizar o A.O. – mas as pessoas são obrigadas a tal no exercício das suas funções profissionais.

    1. Em aditamento:

      Há uma contradição insanável no seu post, Professor: a nossa sociedade de hoje está longe da Civilização Grega, onde o excedente económico gerado serviu, em parte, para gastar nas Letras e nas Ciências. Daí a grandiosidade dos avanços na Matemática, na Literatura, no Teatro, etc…

      O sistema em que vivemos cuida pouco das coisas do espírito. A revolução tecnológica em curso vai possibilitar a transformação gradual das relações de produção, das hierarquias sociais e incrementar o processo de dominação do Capital Financeiro. Já existem sintomas da mudança: ocaso dos partidos políticos tradicionais, crescente precarização do trabalho, diminuição da componente trabalho no PIB na óptica do rendimento(em favor do capital) e, helás!!!, no embrutecimento das camadas populares(em Portugal através do trinómio Fátima. Futebol e Televisão tipo CMTV).

      O inglês é o caminho para a comunicação fácil – a velocidade(a taxa marginal) do lucro está a subir. É isso que interessa.

      “Quaisqueres” ou “Quaisquer” que interessa? “Dignatário” ou “Dignitário” que interessa? É indiferente para o sistema implantado.

      Pelo menos nos últimos tempos, embora sendo onze de cada lado, ganha sempre “O Glorioso”. Mas, amanhã ou depois, será a vez do “Dragão” ou do “Leão”. É a vida. É o lucro, é a vida, é o MPC(não é nenhum novo partido) sigla do Modo de Produção Capitalista.

      Por mim, continuo admirador das suas “Charlas Linguístas” – lembra-se, Professor, de Raul Machado e dos anos 60 e da TV no seu início? Professor: não concordaria com um programa desse teor? Não achava quase inultrapassáveis as conversas de Vitorino Nemésio nos anos 70, “Se bem em lembro”? Temos em Portugal gente capaz de reeditar estes género de programas. É uma questão da RTP concordar com a ideia e meter mãos à obra..

  7. Penso que este estado de coisas é da responsabilidade dos vários ministérios da educação, mitómanos e auto-fágicos, dos professores e o seu pathos, o conformismo, ( no livro “Quinta-feira e outros dias” de C. Silva, é dito que depois da grande manifestação de professores em 2008 , 90% entregaram o elemento da discórdia, um singelo documento com objectivos individuais) e dos pais, que desde que os filhos passem…para quê traumatiza-los com um zero? Há que valorizar as suas personalidades “criativas”!
    Sem escrúpulos, aceitaram um período de transição em relação ao acordo ortográfico, período esse (anos) em que se podia escrever de duas maneiras, a bem dizer de várias, todas certas, todas admitidas.
    É por isso que é sempre um prazer ler os editoriais do Jornal de Angola com uns advérbios e adjectivos suculentos e construções frásicas complexas e florestais.

  8. o que interessava discutir era se:
    A pouca vergonha do Coelho se refere ao Cartoga na edp ?
    Se o Frasquinho quer ou não quer o outro senhor de que o Coelho fala na equipa ?
    Ou se eventualmente o Coelho lá queria o sr que vendeu a tap (juro q não me lembro o nome) e foi absorver para o BdP para arranjar comprador para o Old Bank e só arranjou um fiel depositário , bem pago para receber o dito NB, digo, OB.
    Isso é que era tema de conversa Dr. Bagão.

    1. Só me faltava o Dr. Zuarte escolher os temas das minhas crónicas. Um verdadeiro democrata…

    1. Sim, não é um erro, mas é uma forma pouco cuidada de nos exprimirmos. É o mesmo que dizer “volvido tempos passados”. Acontece que este pleonasmo nos faz impressão e “há tempos atrás” de tanto dito já se vulgarizou. Mas equivale ao “subir para cima”.

    2. …ou desce para cima desta mesa, ou, se não conseguires sobe para debaixo daquela gárgula. Mas se de todo não fores capáz , então desce para baixo do telheiro ou sobe para a cima do telhado.
      Tenho dito.
      Caso contrário ficas aí pendurado de fato. Quer dzer de facto.

      NA ME LIXEM…

  9. Infelizmente!… Bem se bateu o saudoso Dr. Vasco Graça Moura contra o analfabetismo a que nos querem levar com esse dito novo AO, com o qual poucos concordam. Espero, pois, que o Sr. Dr. Bagão Félix não desista nunca de defender o bom português, falado e escrito, como homenagem também aos grandes professores de português que já tivemos.

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