Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

21 de Maio de 2017, 16:16

Por

Qual a folga orçamental do Governo em 2017?

 

“It is better to be vaguely right than exactly wrong”, Carveth Read (1898). Logic, deductive and inductive, p.351.

 

O Governo preparou o Orçamento de Estado de 2017 (OE2017) assumindo uma taxa de crescimento económico real de 1,5% (e crescimento nominal de 3,0%). O OE2017 previa o efeito nas contas públicas das principais medidas de política económica (p. 37 do relatório do OE2017) e uma melhoria do défice de cerca de 1,5 mil milhões de euros. Deste montante, cerca de 900 milhões de euros resultam do efeito do cenário macroeconómico nas contas públicas. Em resultado, o défice público cairia de 2,4% do PIB em 2016 para 1,6% do PIB em 2017 (p. 37 e p. 38 do mesmo relatório).

A previsão do Governo afigura-se conservadora. Com efeito, de acordo com o cenário macroeconómico no OE2017, o PIB aumentaria cerca de 5,6 mil milhões de euros, mas o efeito do crescimento económico (e outras variáveis macroeconómicas) nas contas públicas seria somente de 900 milhões de euros, i.e., cerca de 16% do aumento do PIB previsto. Ora o Governo estima que as receitas correntes do Estado representaram em 2016 aproximadamente 42,7% do PIB.

Em comparação, no relatório do OE 2016, o Governo não explicitou a estimativa do efeito do enquadramento macroeconómico nas contas públicas, mas verifica-se que, tendo a economia registado um crescimento nominal de 5,5 mil milhões de euros entre 2015 e 2016 (3,1%), e tendo o governo reduzido a carga fiscal num montante líquido que estimou em quase 500 milhões de euros (p. 44 do relatório do OE 2016), as receitas correntes aumentaram 1,57 mil milhões de euros. A confirmar-se, tal sugere que o crescimento económico teria tido um “efeito” de cerca de 37% (=(1,57+0,5)/5,5) nas receitas correntes do Estado. Esta estimativa parece mais coerente com o peso das receitas correntes no PIB, acima referido.

Ou seja, afigura-se que o OE 2017 inicial poderá subestimar o efeito do crescimento económico nas contas públicas em cerca de 1,2 mil milhões de euros (=5,6*37%-0,9).

Acresce ainda que o OE2017 foi preparado pelo Governo sobretudo durante o passado verão e submetido à Assembleia da República a 14 de Outubro de 2016. Desde então, como se sabe, muitos dados macroeconómicos sofreram alterações. De salientar:

Primeiro, o défice observado em 2016 foi de cerca de 3700 milhões de euros – 2,0% do PIB em contabilidade nacional – aproximadamente 800 milhões de euros abaixo do objectivo para o ano de 2016 (2,4% do PIB).

Segundo, o Governo reviu as metas para o crescimento económico e para o défice no corrente ano, no Programa de Estabilidade (PE) 2017-2021 apresentado em Bruxelas em Abril: subiu a meta para o crescimento económico real, de 1,5% no OE2017 para 1,8% no PE (o crescimento nominal sobe de 3,0% para 3,2%); e reduziu a previsão para o défice de 2017 de 1,6% para 1,5% do PIB.

A previsão para o défice de 2017, no PE (2017-2021), parece, no entanto, excessiva, à luz dos dados à altura conhecidos. Com efeito, como o ponto de partida é mais baixo (défice de 2,0% do PIB em 2016, em vez dos 2,4% inicialmente previstos), o défice, sem novas medidas, de acordo com as premissas e contas do próprio Governo, cairia de 2,0% do PIB em 2016 para 1,1% do PIB em 2017[1].

Contudo, mesmo essa estimativa, afigura-se, erra por excesso. De facto, tendo em consideração ainda que: primeiro, o efeito do crescimento económico nas receitas correntes deverá ser muito superior ao assumido pelo Governo no OE2017, como acima referido; e segundo, que o crescimento económico em 2017 será muito superior ao assumido pelo Governo no OE2017 e no PE 2017-2021[2]; é de esperar um impacto positivo significativo no saldo das contas públicas em 2017.

Se a taxa de crescimento em cadeia se mantivesse ao ritmo registado no 1º trimestre de 2017, então o crescimento real em 2017 poderia atingir os 3,5%. A taxa de crescimento em cadeia nos próximos três trimestres teria de ser de 1,36% para que o crescimento real em 2017 fosse de 4,1%.

Corrigindo os efeitos identificados acima[3], estimo que, se o crescimento económico real em 2017 for de entre 3,2% (taxa referida pelo Presidente da República na Croácia) e 4,1%, o saldo orçamental das Administrações Públicas poderia ficar entre +0,1% e +0,6% do PIB em 2017.

Evidentemente estas são estimativas baseadas em simulações simples. Mas ajudam a dar números concretos, aproximados, a uma realidade complexa, no espírito da citação referida no início deste post.

A verificarem-se as estimativas acima tal significaria que, face ao plano e ao compromisso com a Comissão Europeia de um défice de 1,5% do PIB, se o crescimento económico for de 3,2% a 4,1% a execução do Orçamento do Estado de 2017 apresentaria uma folga orçamental entre 3,1 e 4,0 mil milhões de euros.

Ora, já não haveria tempo em 2017 para corrigir este desvio, dada a sua dimensão. Mas parece-me que o Governo poderia, submetendo um Orçamento rectificativo, adoptar medidas para diminuir a receita e aumentar a despesa, nomeadamente a despesa de investimento.

Se se aumentasse a despesa pública em mil milhões de euros (0,5% do PIB) em 2017, o efeito no saldo orçamental seria de -700 milhões de euros (0,35% do PIB) e no crescimento económico de +800 milhões de euros (+0,4% do PIB), assumindo um multiplicador da despesa pública de 0,8.

Não aproveitar as actuais condições, particularmente favoráveis, para promover um estímulo público à economia afigura-se constituir um erro: primeiro, porque sem investimento público (adiado há demasiados anos, por causa da crise), a capacidade produtiva e a competitividade do país degrada-se; segundo, porque a vida das pessoas ocorre hoje e a maior parte dos portugueses bem precisa de sentir uma melhoria nas suas vidas, através de um aumento dos seus rendimentos; terceiro, porque esse estímulo contribuiria para aumentar a taxa de crescimento da economia dando um sinal aos mercados de que a economia portuguesa está finalmente a sair da estagnação.

 

 

 

Republicado às 21:15 – Na sequência de comentário de leitor, corrige estimativa de crescimento real em 2017.

 

 

 

[1] Estimo aqui que o défice público em 2016, excluindo medidas extraordinárias, foi de 2% do PIB.

[2] E, note-se, a descida na taxa de desemprego, será superior à prevista pelo Governo. Essa descida na taxa de desemprego terá efeitos favoráveis nas contas públicas, só parcialmente considerados nestas estimativas.

[3] 1. O efeito nas receitas correntes do Estado do aumento do PIB nominal; e 2. O efeito do défice observado em 2016.

Comentários

  1. Tenho algumas dúvidas no tocante ao que se refere quanto ao multiplicador. O acréscimo de despesa( I + C ) vai determinar maior produção e emprego, logo, aumento de rendimento. Aumenta o rendimento pelas duas fontes. Nesta conjuntura, não é possível raciocinar assim. Os movimentos não poderão produzir-se desta forma. Vamos modificar o Tratado Orçamental? Então, tudo bem. O valor de K=0,8 < 1. Os modelos não assumem perdas de rendimento à partida. O País está asfixiado – veja o que diz Castro Caldas em "Le Monde Diplomatique", na versão portuguesa de Abril/2017. Costa sabe que está aprisionado num labirinto; não pode nem quer reagir.Os limites deste Governo são: só é possível alguma recuperação de rendimentos. É impossível fazer alguma coisa com um partido – PS -com grossas culpas no cartório na ruína do País. E com uma extensa rede clientelar. É impossível ambicionar algo mais. Não tenho ilusões quanto a este Governo. Viu o negócio da Caixa? Quem é que aceita um contrato daqueles? Que estranho… A única vantagem deste Governo é que nos mantem afastado Passos Coelho. Costa é a garantia deste afastamento.

    K é igual ao recíproco da taxa marginal para a poupança. Ou seja, sendo o consumo complementar da poupança, em termos da totalidade do rendimento, quanto maior o consumo maior o multiplicador do crescimento. O PIB, na óptica do rendimento, agrega os salários e os lucros, bem como os impostos, logo é gerado crescimento. O que significa K =0,8, neste contexto?

    Mais: Não é uma escolha pelo consumo para o crescimento?

    Quanto ao resto, não me parece que seja possível aplicar multas à Alemanha…na actual conjuntura. Os alemães estão pressionados há vários anos e nem um milímetro se movem. Assim não vamos lá. Se Macron falhar, como tudo indica, derrotado na própria casa pela pressão social-sindical, então deve ser encarado o cenário da saída. Mas a Alemanha tem grandes problemas para resolver. Não vale enumerá-los porque certamente os conhece.

    O ponto 3 da sua resposta é pouco claro. Está de acordo com maior consolidação orçamental? Blanchard já rectificou a sua linha de pensamento de há alguns anos atrás – disse-o claramente nas páginas do "PUBLICO".

    1. Claro, Professor. 1000 M euros em Gastos Públicos para muita gente que espera alguma recuperação de rendimentos. Estão na ordem do dia os protestos. Diferentes classes profissionais. Da mais elementar justiça…embora Costa seja contrariado pelo colete-de-forças externo.Aguardemos o que o Governo vai fazer. Gastos Públicos podem englobar investimento em estruturas(por exemplo,o Centro Hospitalar de Vila do Conde, conforme Pingback inserido um pouco mais abaixo), em actualizações salariais, em transferências para a Seg.Social…Máxima consolidação orçamental? O caminho ortodoxo tem as seguintes etapas: (1) Reduzir as maturidades faz com que Portugal tenha de ir mais vezes ao mercado – tem de se financiar em montantes mais elevados cada ano.”Não se pode gerir a Dívida em navegação à vista”; (2) O caminho é a reestruturação suave no mercado: criar condições para que as taxas de juro possam voltar a reduzir-se e com isso ir substituindo dívida por taxas de juro mais baixas; (3) Continuar o processo de consolidação orçamental: saldos primários de 3%-4%, menos défice.menos dívida, criando confiança nos mercados para descer as taxas de juro.Só a consolidação orçamental constitui solução credível.É DE REJEITAR ESTE CAMINHO. NÃO À CONTINUAÇÃO DA AUSTERIDADE. Há quantos anos é que os trabalhadores(activos e não activos) não vêem os seus rendimentos actualizados? Em quanto se pode quantificar a perda de poder de compra em dez(10) anos? Foi esta a solução de Passos Coelho:EMPOBRECER. Parece ter resultado. Os salários reais ainda não recuperaram os valores de 2007.

  2. Ironia; agora vejo-me obrigado a defender o BE para o OE2018, que, no desígnio de uma opção liberal, pede a redução do IRS. O autor, pelo contrário, tal como muitos opinadores de esquerda, acha por certo normal termo um IRS quase confiscatório para o nosso nível de PIB per capita. Mas de “requalificar os serviços públicos”, eufemismo para aumentar a despesa, deve-se baixar impostos, principalmente IRS, aqueles que advêm essencialmente do trabalho. Com mais rendimentos, as pessoas eventualmente consomem mais e promovem o crescimento, aliás, de acordo com a teoria original de Centeno, abandonada logo após entrar no Ministério.

    Atenção ainda que o anterior governo baixou o défice de 11,2% para 3%. Foi graças ao anterior governo que este governo agora tem margem orçamental para fazer a festa junto de Bruxelas. Mas em Portugal temos um hábito medíocre de não reconhecer o mérito a quem de direito. E como apontam vários especialistas, muito do crescimento que se tem verificado deve-se a fatores externos.

    1. O que vale é o défice sem medidas extraordinárias. Segundo contas da independente UTAO, esse défice, sem RERTs nem PERES nem privatizações nem recapitalizações de bancos, etc, evoluiu assim:
      2010 = 8.5%
      2011 = 7.2%

      2015 = 3.1%
      2016 = 2.4%

      Ou seja, redução de 1.3 pontos do PIB no último orçamento PS+PSD (2011), redução de 1.05 pontos do PIB ao ano por parte da PàF, e redução de 0.7 pontos no 1° ano da Geringonça.

      Mais importante, a redução da PàF foi feita com cortes de tendimentos, subida enorme da carga fiscal, Inconstitucionalidade, privatizações de empresas lucrativas ao preço da chuva, destruição líquida de quase 300 mil postos de trabalho, e 4.13% de recessão no total da legislatura.
      E não me venha com a troika, pois todos sabemos quem disse que queria ir “além da troika”, e foi, com as consequências que sabemos.

      Já a redução da Geringonça foi com a política contrária, já com a criação líquida de quase 150 mil postos de trabalho, e tudo aponto para um acomulado de 4% de crescimento acomulado logo nos 2 primeiros anos.

      SEM COMPARAÇÃO!!!

  3. Onde se lê “contaa” deve ler-se “contas”.

    Peço desculpa pela redundância “doutor por extenso”. Doutor esgota-se em Doutor: já está por extenso. Ou está em bicos de pés?

    Tenho outras para fazer na vida. Bye.

  4. PIB 2016 = 176874,8/1,018 = 173747,3

    1,01 + 1,01^2 + 1,01^3 + 1,01^4 = 4,1

    PIB 4º TRIM 2016 = 43869,4

    (43869,4 * 4, 1 ) / 173747,3 = 1,035.

    Snr. Fontes já percebi as suas contaa. De qualquer forma, obrigado pela simpatia demonstrada.

    Cumprimentos. Snr. Fontes (ou Doutor por extenso)?

  5. 1- A UTAO já calculou o défice sem medidas extraordinárias (ex: PERES) em 2016, e foi de 2.36%, e não os 2.0% que estima neste artigo. Logo por aqui isso aumenta em 0.35% o défice corrigido do “conservadorismo” das previsões do governo, pois foi esse o valor calculado pela UTAO, e também pela UE, diga-se.

    2- A aceleração da economia não se manterá em todo o ano, ou seja, a variação em cadeia atingiu 1% no 1ºT-2017, mas irá ao longo do ano ajustar-se, para baixo, porque o efeito homólogo das reposições do poder de compra obviamente não poderá ser igual no final do ano de 2017, em comparação com o final de 2016, onde essa reposição se fez sentir em força.
    Assim uma previsão do crescimento para a média anual de 2017 entre os 2.6% e os 3.0% parece-me o mais provável.

    3- O boom do turismo no crescimento é algo passageiro, tal como passageiro é o efeito “trendy” de visitar Portugal. É bom que seja usado para resolver o principal problema (dívida) e não seja desperdiçado num efeito de sobre-aquecimento da economia numa altura em que o crescimento tem bons valores para uma economia desenvolvida da Zona Euro.
    É que aquilo que se poupar agora, significa folga nos anos seguintes, em juros da dívida.

    4- Os dados também mostram que o turismo tem sido uma das ajudas na inflação em Portugal, pelo que também aqui se pode considerar um efeito passageiro. No total, um PIB que agora pode crescer 4% nominalmente, rapidamente pode voltar a apenas 3% ou menos. Não aproveitar este momentum para descer a dívida, e passar o sinal, por mais errado que pareça a quem sabe fazer contas (ex: Ricardo Cabral) às agências de rating, no sentido da dívida começar a descer o suficiente para melhorar o rating, seria uma oportunidade desperdiçada e que pagaríamos bem caro no fim do PSPP do BCE.

    Resumindo e concluindo, apesar de a própria OCDE concordar com o Ricardo Cabral, indo até mais longe e tendo dito num relatório há uns meses, que Portugal era o país que mais anos podia fazer esse estímulo de +0.5% de investimento público sem isso afectar a sustentabilidade da dívida, a verdade é que temos de, infelizmente, ter em conta a IRRACIONALIDADE dos mercados, da UE (a.k.a. eixo Alemão), e das agências de rating, e fazer em 1.º o que eles pensam estar certo, de forma a, em 2.º sair do lixo para depois, em 3.º ter a margem de manobra para fazer o que está certo: o que tanto a OCDE como o Ricardo Cabral recomendam, a recuperação do nível de investimento público.

    1. Caro Jorge, obrigado. Em relação a 1. estou e estava a par da estimativa da UTAO. Mas mantenho a minha estimativa de um défice sem medidas extraordinárias de cerca de 2,0% do PIB. A CE também recomenda mais investimento público.

    2. Custa a perceber que foi a endividarmos-nos para crescer que escavámos o nosso buraco?

    3. O saldo da Balança Corrente da Alemanha, em finais de 2016, é excedentário e corresponde a 8,6% do PIB alemão e a 150% do PIB português – qualquer coisa como 250.000 Milhões de Euros. E o saldo comercial nas trocas comerciais da Alemanha com os EUA é de cerca de 60.000 milhões de euros, favorável a Berlim. Entretanto, a situação nos restantes países é a miséria que se conhece. THE WINNER TAKES IT ALL.

      Blanchard esteve em Portugal e as suas reflexões vão em sentido contrário às inseridas neste comentário da autoria de Jorge. Continuem assim – não só aqui mas nos diferentes lugares da Europa – e teremos em 2022 Le Pen no Eliseu e outros populistas a liderarem outros países. Todos estes comentadores serão cúmplices do desastre que se avizinha. Não percebem que estão errados.

      Que o Prof.Cabral considere estes comentários pertinentes o problema é dele. Estes comentários – os de Rui Fontes e Jorge – nada adiantam. O de Rui Fontes é uma mera curiosidade aritmética, muito frequente nas análises de conjuntura feitas pelo Gabinete de Estudos do Banco de Portugal. Qual é o interesse destas análises? Parece um jogo narciso, auto-contemplativo. É o economês aritmético em estado puro. Piruetas aritméticas de nível elementar – não passam disto. E o que está em jogo é muito mais importante. Tantas palavras para se concluir que o crescimento em Portugal para 2017 poderá situar-se entre 2,5%-3,5%. E análises em termos reais o que é pouco prudente face à incógnita inflação. Acho piada: poderia figurar como passatempo em jornais diários. Um sudoku de nível inferior.O comentador Jorge já faz uma incursão no que interessa, mas a sua posição alinha por Berlim. Déjà vu,

      Continuem a divertir-se. Entretanto os problemas continuam por resolver. E as soluções que preconizam são sempre do agrado do centro de decisão de Berlim. Isto é perfeitamente objectivo.

      Para brincadeiras com números sugiro uma incursão nos métodos de previsão para séries sem sazonalidade e também os métodos de alisamento exponencial com o método de Holt. Com uma folha de cálculo a brincadeira não seja a tornar-se fastidiosa. É simples e passarão, certamente, momentos divertidos. As bases de dados podem ser colhidas em “Avaliação de Investimentos”, de Gualter Couto et al e também no online nos ficheiros da linguagem R, download grátis.

      E volto ao cavalo de batalha: a Economia é uma ciência social. Os economistas estão equiparados aos juristas: defendem causas, as causas dos diferentes grupos de interesse, que disputam a riqueza produzida. Vejam, para confirmar, “Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais”, de Adérito Sedas Nunes, publicado em Portugal nos anos 70. Devia ser livro de cabeceira de todos os economistas. Para reflectirem nos interesses que estão ligados às análises que realizam.

    4. Caro Ricardo Cabral, obrigado pela resposta. Gostava, porque fiquei muito curioso, só de perceber como é que chega ao valor de 2.0% sem medidas extraordinárias. O que é que a UTAO acha one-off, mas que o R.Carbal acha estrutural?

      Quanto à CE recomendar mais investimento público, não sabia. Obrigado por mais esse bocadinho de conhecimento. Com a saída do PDE sempre podemos aplicar mais 0.6% do PIB em Investimento Público para projectos orientados aos crescimento pela via das reformas estruturais do Estado, mas sempre precisando da autorização prévia de Bruxelas. Isto a mim, na minha interpretação do que é Bruxelas e em particular a zona Euro, cheira a burocracia made in TINA, de forma a que a UE consiga influenciar o investimento público no sentido da liberalização e privatização da economia. Acho que viveríamos bem sem essa “recomendação” da CE.

      —– Em resposta ao “Sousa da Ponte”, quando nos endividamos em investimento não produtivo e sem retorno, isso é algo que realmente nos leva para o buraco. Mas o que aqui se discute, não sei se reparou, é o investimento com vista a potenciar ainda mais o crescimento. É, como o R.Cabral escreveu no artigo, um tipo de investimento com multiplicador 0.8 na despesa (ou seja, só custa 80% do que aparenta no imediato), mas é um crescimento que potencia o crescimento, ou seja, pode muito facilmente gerar mais do que aquilo que foi gasto, acima de tudo se servir de alavancagem ao investimento privado.

      E mais, se não começarmos desde já a regressar a níveis de investimento médio da UE, acima dos 3% do PIB na ótica de Maastricht (entre 2012 e 2016 andámos nos 2%, com o record mínimo de 1.6% em 2016), então isso significa que a degradação dos serviços públicos, e das infraestruturas que a economia usa todos os dias (ex: estradas, saneamento, etc) será um autêntico défice escondido, e que alguém mais tarde, caso esse investimento não seja feito já, terá de pagar numa de duas formas: ou um grande aumento do défice para não deixar implodir o país, ou uma aceitação dessa destruição, com consequências obviamente negativas para o total da economia.

      —– Em resposta ao “C.Machado”, lá porque penso de forma diferente da sua, e lá porque argumentei num sentido que você não percebeu, não faz de mim um “Berlim-nista”. Eu até sou dos que pensam que a Alemanha devia ser sancionada com multas devido ao seu superávit externo, e que esse dinheiro servisse para aumentar o orçamento da UE, em particular dirigido aos países deficitários, de forma a equilibrar os saldos externos. E mais, estou 100% de acordo com Stigltiz e Krugman nas suas críticas à moeda única, e sendo realista, acho que neste momento de bonança até podemos dar a oportunidade ao A.Costa de tentar ganhos e alterações na moeda única a nosso favor, mas como sei que os Alemãos estão numa tal posição de vantagem (dada pelos desequilíbrios da moeda) que dificilmente aceitarão mudanças, estou também 100% ao lado de PCP e BE na sua ideia de que é fundamental PREPARAR o país para uma saída ordenada da zona Euro, pois caso essa preparação não seja feita, qualquer choque externo nos próximos 10 anos significará o regresso da troika e da estupidez Neoliberal da TINA. E pior, a destruição de mais um ou outro país da periferia de maneira a beneficiar os interesses económicos e financeiros da economia e da banca de Alemanha e companhia.

      Se isso acontecer, espero que o PS seja PASOKizado pelo eleitorado (devido à sua cegueira Europeísta levar o partido a aceitar para Portugal coisas que nos prejudicam), e que se crie um movimento de Insubmissos (referência a Mélenchon) liderado pelo BE.

  6. a soma 1.01 + 1.0201 + 1.030301 + 1.0403 = 4,1

    A conta que se pretende não é : PIB 4º.T 2016 * 1.041 = PIB 4º. T 2017 ?

    3,5%? O que está em causa são as correcções de sazonalidade?
    Agradecido pelo esclarecimento.

  7. Receio bem que esteja a fazer confusão entre um crescimento em cadeia e o crescimento anual. O facto de o PIB no 1º trimestre de 2017 ter sido 1,0% superior ao PIB no 4º trimestre de 2016 não significa nada que se atingiu 56% do objetivo do governo para este ano.

    Percebo o raciocínio – 1,0 pontos percentuais são, arredondando, 56% de 1,8 pontos percentuais – mas ele é errado, pois compara um crescimento trimestral (em relação ao trimestre anterior) com um crescimento anual (em relação ao ano anterior).

    O crescimento trimestral em cadeia de 1,0% significa apenas que, se no último trimestre de 2016, em termos reais, o PIB foi de 43.869,4 milhões de euros (dados encadeados em volume, corrigidos de sazonalidade, tomando como referência o ano de 2011), então no 1º trimestre de 2017, em termos reais, o PIB foi de 44.308,1 milhões de euros (sempre na mesma base). Ou seja, cerca de 25% do objetivo do PIB do governo para este ano (PIB 2016 * 1,018 = 176.874,8 M€).

    Do comportamento do PIB nos próximos trimestres deste ano dependerá o crescimento anual em relação ao ano anterior. É muito provável que o crescimento fique acima dos 2,0%. Afinal, mesmo que nos restantes três trimestres deste ano o crescimento em cadeia do PIB fosse nulo, o PIB de 2017 já teria crescido, em termos reais, esse valor, 2,0%, em relação ao PIB de 2016.

    Mas é extremamente implausível que o PIB de 2017 atingisse um crescimento real em 2017 de 4,1%. Para isso teria que manter um crescimento trimestral em cadeia de 1,36% nos três trimestres que faltam, o que é muito improvável.

    Outra maneira de perceber a implausibilidade é notando que o crescimento homólogo do PIB no 1º T de 2017 foi “apenas” de 2,8% em relação ao PIB no 1º T de 2016, que era o mais baixo do respetivo ano (e significativamente mais baixo do que os dois últimos trimestres de 2016). Para se obter 4,1% de crescimento em 2017, esse desempenho no 1º trimestre teria que ser compensado por taxas superiores a essa – 4,1% – de crescimento homólogo nalgum ou nalguns dos três restantes trimestres, partindo já do princípio que não ficariam novamente abaixo de 4,1% de crescimento homólogo. Extremamente difícil, por várias razões económicas, mas desde logo pela razão aritmética apontada: o PIB nos outros trimestres, especialmente nos dois últimos, de 2016 foi claramente superior ao do primeiro desse ano.

    A melhor demonstração de que está a fazer uma confusão de conceitos é a sua afirmação de que “se a taxa de crescimento em cadeia se mantivesse ao ritmo registado no 1º trimestre de 2017”, hipótese muito mais otimista do que refere, “então o crescimento real em 2017 poderia atingir os 4,1%”. Errado, atingiria 3,5%.

    [PIB 4º T 2016 * (1,01 + 1,012 + 1,013 + 1,014) / PIB 2016 = 1,035]

    1. Caro Rui Fontes,

      muito obrigado pelo seu comentário. Este tipo de feedback é sempre apreciado. O parágrafo em causa já foi corrigido.

    2. Como é evidente, a última linha do meu comentário, que pretende ser um alerta construtivo, saíu desformatada, transformando os expoentes em mais um algarismo: PIB 4º T 2016 * (1,01 + 1,01^2 + 1,01^3 + 1,01^4) / PIB 2016 = 1,035.

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