Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

4 de Maio de 2017, 08:48

Por

Pedro Barroso

pedro_barroso_0Hoje “Tudo menos economia” é mesmo isso. “Artes do futuro”: título que dá nome ao último CD de Pedro Barroso (PB). Não o conheço pessoalmente, mas acompanho com redobrado gosto as suas criações musicais e poéticas. Na senda dos anteriores álbuns, este CD oferece-nos uma obra de inegável qualidade e sensibilidade.

PB não é autor de concessões ao fácil, ao “light”, à fama fútil e efémera. Soube criar, com mestria, a sua forma ímpar de estar no mundo da interpretação e da criação musical e literária. A sua música tem um especial sabor épico, que a sua forma de a transmitir acentua sublimemente. Os seus temas cruzam tempos numa simbiose natural de vivências e memórias, anseios e esperança, sonhos e utopias, de “passado contido no futuro” e de futuro prenhe de pretérito. Nele, a portugalidade é enaltecida e jamais olvidada (“a nação ternura”), sem, porém, esquecer o que não nos enobreceu ao longo da (nossa) descoberta.

As suas letras e músicas são genuinamente simples. Todavia, não simplificadas. Simples, no que isso implica de complexidade de se atingir a naturalidade perfumada da síntese. Gosta de se debruçar sobre o tempo da vida e sobre a vida no tempo. Entre a tradição respeitada e a invenção sonhada. PB fala-nos da sátira (realista) do “engenheiro comendador”, para logo a seguir nos convidar a sentar “à mesa com o futuro” e dizer-nos, cantando:

Os mais justos, os mais simples e discretos
Genuínos, imperfeitos e inseguros,
Serão eles – os sonhadores irrequietos
Que vão sentar-se à mesa…
Com o futuro!

E em jeito de “post scriptum” termina esta sua nova obra com energia:

Um homem sem sonhar não faz futuro
Um homem que não sabe dizer não
Nem busca iluminar tudo que é escuro
Um homem sem sonhar perde a … razão…

 

Artes do futuro” é uma bela homenagem à liberdade de se ser e de sonhar, um preito sublime à justeza e justiça da quase sinestésica expressão ética dos sentidos e das sabedorias (“um mundo onde os poetas não sejam estudados como anormais, e os homens justos, e as gentes de estudo sejam distinguidos. E a sabedoria seja infinda e livre e nunca demais e então se publique, por decreto urgente – a lei dos sentidos!”). E é também um preito à esperança. À que exige a certeza da incerteza, a que radica na interrogação, na excelência da dúvida, no esforço da busca, na têmpera. A que não se conforma com a auto-suficiência, a resignação bloqueadora e a negatividade sistemática. Afinal o espanto do esperanto dito na canção dedicada à sua neta Constança, em nome do futuro:

Vem-me aos braços, que eu não me envergonho
Planta o mundo todo qu’inda houver
Traz a alma, que eu trago o meu sonho
E o espanto pode acontecer

Uma obra como acto de discernimento com coragem. Pela diferença. “Música bonita com palavras inteligentes”. Num terreno adverso, discriminatório, solipsista, onde é lastimável o monopólio da “pimbice” com palco permanente e onde se tratam, em regime de rodapé, artistas e obras que nos orgulham e nos encantam. Para este “Manual de sobrevivência para sonhadores” – assim intitula PB esta obra –  o meu muito obrigado!

P.S. Não resisto a acompanhar PB numa sua observação na capa do CD: “Este trabalho foi todo pensado, escrito, sentido e dito em Português. O autor recusa veementemente, repudia, abomina e denuncia o ridículo e ofensivo “Acordo ortográfico” de Malacas e outros Condes Andeiros da Língua Portuguesa”.

Comentários

  1. Subscrevo tudo quanto é dito acerca de Pedro Barroso. Não conheço muito a sua obra mas o que tenho ouvido é excelente, quer do ponto de vista musical quer sobretudo do ponto de vista poético. Vou-me interessar e conhecer mais.

    Neste jornal, quer no online quer na versão em suporte de papel, encontramos sempre coisas interessantes e que nos afastam do turbilhão anestesiante da publicidade e do lixo mediático que nos é oferecido a todo o instante.

    Vem isto a propósito de duas peças publicadas no PUBLICO de 5 de Maio de 2017, Sexta-Feira:

    (1) O artigo sobre Amílcar Cabral, de Marta Araújo, do CES de Coimbra. A sua morte, em 20 de Janeiro de 1973, tornou o 25 de Abril de 1974 mais problemático, no tocante à descolonização, pois a sua presença iria permitir facilitar entendimentos e soluções.

    (2) De âmbito diferente, o artigo de Mário Lopes, no “Ípsilon”, sobre “Americana”, de Raymond Douglas Davies(vulgo Ray Davies), a alma e o verbo dos Kinks. É reconfortante ainda hoje ouvir a prosa, a crueza e a mordacidade presentes em “Waterloo Sunset”, “Celluloid Heroes”, “Days”, “Lola”, “A Well Respected Man”, “Arthur” e tantos outros temas…. Um cronista cínico, escandalosamente cerebral e sobretudo perverso. Um olhar implacável e desapaixonado sobre a vida e o mundo. Vinte valores. Cinco estrelas. A não perder. Vale a pena conhecê-lo e revê-lo. Ray Davies(1944) uma vida que fala por si.

  2. PB defende a língua de Camões (o português de Portugal) como poucos. A língua portuguesa é a sua pátria e Portugal é aquele país que há-de voltar. Amo o seu poema “Estados Unidos da Europa”. Um poema escrito há cerca de 30 anos, onde PB tem uma visão correcta do que tem acontecido com os tempos mais recentes. Brilhante!

  3. Obrigada, Bagão Félix, por nos dizer que ainda há alguém, como o senhor ou Pedro Barroso (não me interessa se se dizem de esquerda ou direita, se católicos ou ateus, se preferem peixe a carne) que ainda acreditam que “o sonho comanda a vida”. Basta para me fazerem feliz e esperançado no futuro.

  4. Uma surpresa, o reconhecimento da qualidade poética e musical , manifestada por Bagão Félix, a propósito do recente trabalho do Pedro Barroso.Não pelo cantautor, mas pelo autor da crónica, que demonstra um entusiasmo eloquente pela descoberta do último trabalho do PB.Para quem conhece a suprema energia do Pedro, em palco, na companhia de outros como Vitorino, Fausto Bordalo Dias , Sérgio Godinho e alguns outros ,que acrescentaram notas musicais e poéticas ao acervo da música portuguesa é com agrado e, confesso, com surpresa , que deixo o meu agradecimento pelo seu texto, doutor Bagão Félix.

  5. Gostei imenso do texto! Os elogios e o agradecimento a PB são mais que merecidos. Também eu sou um admirador confesso – desde a adolescência – de PB.
    PB é um ser livre, atento ao mundo e à sociedade. Um “utópico” no mais belo sentido da utopia.
    Ao PB e ao A.B.F. também o meu muito obrigado!

    1. Gostei imenso deste texto, eu que sou admirador de ambos e, de certa forma admiro a atitude de BF

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