Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

3 de Maio de 2017, 16:21

Por

“QExit” suave ou menos suave, eis a questão!

O Governador do Banco Nacional da Áustria Ewald Nowotny, membro do Conselho do BCE, em declarações esta terça-feira, argumentou, medindo muito cuidadosamente as palavras, que o BCE, na sua reunião de Junho, deveria começar a discutir a sua estratégia para o princípio de 2018.  Ewald Nowotny dá a entender que o programa de expansão quantitativa do BCE, apesar de constituir um sucesso, não se pode tornar num programa permanente. Mas como interpretar as declarações do Governador Nowotny?

Activos do Eurosistema
Fonte: BCE

 

Até ao final de 2016, o programa de expansão quantitativa (“QE”) traduziu-se na aquisição de 1,65 biliões de euros de activos denominados em euros, pelo Eurosistema. Em resultado desse programa (linha a vermelho) e da concessão de empréstimos de longo prazo, a taxas de juro baixas, ao sistema bancário europeu (linha a azul), os activos totais do Eurosistema (linha a verde) cresceram para 3,7 biliões de euros, 93% acima do registado no início da crise da zona euro, no final de 2009.

Com as compras de activos programadas até ao final de 2017 (para 2,3 biliões de euros), o balanço do Eurosistema deverá aumentar para ligeiramente acima de 4 biliões de euros, no final de 2017.

Coloca-se, por conseguinte, a questão de saber qual a melhor saída desse programa (o “QExit”). O mais provável é que o Conselho do BCE venha a decidir prorrogar o programa de expansão quantitativa por mais 6 meses, com um volume de 20 ou 30 mil milhões de euros de compras de activos por mês, cerca de um terço a um meio do volume de compras actual, o que resultaria num crescimento quase “insignificante” do balanço do Eurosistema, mas que tenderia a apoiar a retoma na zona euro e a suavizar a transição para um mundo “pós-QE”.

Mais importante é o que ocorrerá após o fim do QE. Afigura-se que a partir da segunda metade de 2018, o Conselho do BCE procurará manter o nível do balanço do Eurosistema aproximadamente constante. Isto porque Mario Draghi pretenderá evitar os erros cometidos sobretudo entre 2011 e o final de 2012, em que uma alteração da política monetária demasiado abrupta, nomeadamente com a redução da dimensão do balanço do Eurosistema (linha a verde, no gráfico abaixo), provavelmente terá contribuído para um desapontante desempenho económico da zona euro.

PIB real vs activos Eurosistema
Fonte: BCE e Eurostat

 

A economia da zona euro cresce, finalmente, há quinze trimestres consecutivos, mas a taxa de crescimento ainda é baixa. Somente no final de 2015 ultrapassou o nível de PIB real de 2008. Por conseguinte, o Conselho do BCE não quererá fazer nada de radical que possa pôr em causa a retoma económica a tanto custo conseguida, sobretudo quando tantos países membros, do sul da zona euro, ainda não saíram da estagnação económica.

Se o Conselho do BCE decidir manter o nível do balanço do Eurosistema, ou mesmo reduzi-lo lentamente, são boas notícias para a economia portuguesa, porque significaria que o BCE e o Banco de Portugal tenderiam a comprar dívida (pública e privada) portuguesa, quando a dívida que entretanto adquiriram chegasse à sua maturidade.

Ou seja, o programa expansão quantitiva do BCE, e particularmente a sua vertente de compras de activos do sector público, provavelmente continuará a ter efeitos benéficos – de menor dimensão -, para o mercado de dívida pública, para as contas públicas e para a economia portuguesa durante mais alguns anos…

Comentários

  1. O facto da Economia da zona euro, crescer há quinze trimestres consecutivos, não é negligenciável e ainda menos indiferente para o futuro da zona euro, da Europa e, talvez, ainda para outras latitudes.A tendência, sustentada, em grande parte, pela política de compra de activos, iniciada e mantida pelo BCE, representa a constatação de que só existe crescimento sustentado e sustentável pelo incremento e suporte da procura como, aliás, o exemplo do Japão, tinha indiciado desde os anos noventa do século XX.E este é o drama do BCE e do QE que implementou:não é o crescimento que não se afirma, nem robustece as continuadas medidas de estímulo mas, sim, a procura que não manifesta sinais de progresso e crescimento, compatíveis com as expectativas associadas aos estímulos.Isto representa, ainda, a falência total da falsa ideia, propagandeada pela escola neoliberal, que o mercado e o consumo, encaixam de forma natural e encantatória, quer o aumento da oferta, quer o volume da produção. Toda a teoria neoliberal assenta, neste ponto e em vários outros, na convicção do infinito divino e esquece, ou pretende fazer-nos esquecer, que os deuses e as divindades não são grandes consumidores nem alimentam a procura.

  2. Infelizmente não se pode esperar correlação de linearidade simples entre a acção interna das instituições europeias/bce e os resultados esperados, visto a contingência externa ser também importante. E neste caso temos que considerar sempre a permanente chicanice americana de perturbação ao esforço europeu para economias estáveis e prósperas com um euro sólido. No fundo dever-se-ia era contribuir activamente para a emergência de outras moedas globais com influência, de forma a mitigar ou erradicar mesmo essa erva daninha tão perniciosa aos equilíbrios da pluralidade das economias, e livrarmo-nos da sua intromissão manipulatória como quando o euro forte chegou a valer 1,5 da moeda deles. Caso contrário, andaremos sempre em sobreesforço ( ou em fantasias). Mas uma moeda forte só é possível com economias sérias – e não em arrasto com bananas em permanente estado de necessidade orçamental e aldrabice.

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