Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

28 de Abril de 2017, 13:15

Por

O escroque contra a fascista

Entendamo-nos: o início da campanha da segunda volta correu pessimamente a Macron. Deslumbrado, festejou no domingo os 24% como se já tivesse a presidência no papo, esqueceu-se de que lhe faltam outros 27%. Arrogância. Esqueceu-se de que houve uma greve geral contra o seu governo há um ano. Insensibilidade. Esqueceu-se de que a lei que tem o seu nome foi imposta pelo Presidente por fora do parlamento dada a revolta dos próprios deputados do PS. E que lei: cartas de condução, resíduos radioactivos, segredo comercial, transportes públicos em autocarros, regras para os notários, cinco a dez mil milhões em privatizações, facilitar os despedimentos colectivos, reduzir indemnizações por despedimento, empréstimos entre empresas, o programa de Macron foi essa lei. Pesporrência.

Portanto, Macron deve mexer-se para conseguir os 27% que lhe faltam e faria bem em dar garantias aos trabalhadores que dele desconfiam. Mais valia que mostrasse o que o separa de Le Pen, uma candidata perigosíssima, xenófoba e com tintas fascistas, que tem de ser vencida. Em vez disso, para animar a festa, um dos conselheiros de Macron, Jacques Attali, decidiu exibir a sua cor: no dia em que Macron ia visitar uma fábrica ameaçada de fecho explicou que a globalização é isso mesmo, despedimentos, e que a resistência é uma “anedota“. Não havia de haver desconfiança?

Desenvolvido o programa do candidato, temos desde o despedimento de 120 mil funcionários públicos até ao corte de 10 mil milhões em subsídios de desemprego, como também um aumento do investimento público. No plano europeu, é puro hollandês: um ministro das finanças europeu, um parlamento da zona euro e, cereja em cima do bolo, “convenções democráticas” em todos os  países durante o último semestre deste ano.

Suponho que é por isso que surge o apelo: na falta da confiança e perante o perigo, usa-se o que está à mão, como em 2002 quando, como bem lembrou Tavares, o “lema informal” da esquerda era “votem no escroque (Chirac) contra o fascista (Le Pen pai)”. Há 15 anos, resultou; agora tem pelo meio o fracasso europeu, a vergonha Hollande e tudo o que alimentou Le Pen. Pergunto-me portanto quem se vai comover hoje com este apelo a votar no “escroque” e durante quanto tempo alguém pensará que a promoção do “escroquismo” é estratégia vencedora. Se isto é forma de combater a abstenção, então entrega os pontos. Se é a alternativa que sobra, então só retrata a degradação das direitas.

Ora, há todas as razões para votar contra Le Pen, mas Macron está perdido se pensa que basta repetir o número do “escroque contra a fascista”: é preciso que mostre alguma razão para obter os votos que lhe faltam. O problema político da segunda volta é esse e só esse. Quem tem a solução é Macron.

E, se Mélenchon tem conduzido mal estes dias e parece perplexo com o resultado, o certo é que o trunfo está na mão de Macron. Tudo depende deste e de mais ninguém, o que quer dizer que há mesmo um perigo trumpista. Mélenchon, que conduziu uma campanha brilhante, é a única esquerda que enfrentou Le Pen: é melhor que seja claro, vencê-la agora é o caminho vencedor para disputar nos próximos cinco anos a referência da alternativa.

Entretanto, o modismo português prefere ser facilmente paroquial a discutir dificilmente os problemas. Eis então a direita e os sobreviventes social-democratas a clamarem que o perigo francês é Mélenchon, o malandro que não concede a vénia perante o Ungido. Ver gente crescida no jogo garoto de “ai se eu estivesse em França, logo viam com quantos paus se faz uma canoa”, ou assistir a este ressentimento por um candidato de esquerda ter varrido um dos sucessores de Hollande, é simplesmente verificar o mau perder das direitas.

Leia-se José Manuel Fernandes que, magoado pelo fracasso, recorre a tudo para esse ajuste das contas perpétuas que carrega consigo: o seu argumento de autoridade acerca da semelhança entre a esquerda e a extrema-direita é um panfleto de Le Pen, que foi impiedosamente desmascarado pelo moderado Le Monde. Mas Fernandes cuida pouco dos factos ou do jornalismo, essa caravela já partiu, só lhe interessa a sua fantasmagoria política, Mélenchon já está a arder? Isto vai chegando ao delírio, com Henrique Raposo, de quem não se poderia esperar melhor, a somar à sua misoginia lendária o dedo agora apontado contra os gays: o homem lá descobriu que “um terço” dos gays apoiaria Le Pen, que a esquerda está convertida ao islamismo e outras graçolas semelhantes. É uma paródia, mas é a direita no seu mais puro vernáculo.

Em contrapartida, Assis é eminentemente límpido: com Macron, renascem-lhe as esperanças de uma social-democracia regada pelo neoliberalismo. Só que, para seu inconveniente, tudo leva a crer que o presidente Macron se incline para um acordo com Valls para dividir o PSF e para formar governo com os homens de Bayrou e Sarkozy, mas esse detalhe virá depois – teremos assim a direita reunida, mais do que um centro a exuberar o seu segundo momento Tony Blair.

Por tudo isto, o prudente recuo do governo português é inteligente. Melhor do que ninguém, Costa, que conhece esta gente, sabe que a vitória de Macron não fecha nada, antes sinaliza mais uma fase de crise europeia. Que o mais forte argumento do campo Macron seja “o escroque contra a fascista” já diz tudo do ponto a que chegámos.

Comentários

  1. O complexo de Deus parece ser uma epidemia comum na esquerda portuguesa, cujo nível de intensidade aumenta à medida que nos aproximamos do extremo.

    A maior parte dos socialistas desconhece o legado de Marx. Ignoram, quase por completo, que por exemplo, em 1844, no artigo “On the Jewish Question”, Marx propõe uma “solução final” para os judeus. Contudo, não acredito que Francisco Louçã nunca tenha lido este e outros artigos de Marx.

    Quer goste ou não goste, o Marx tinha mais em comum com o Hitler e o Mussolini do que com qualquer pensador liberal.
    Talvez considere que Trotsky foi uma execpção? Mas, sem Marx, o Trotsky teria sido o que foi?

    E talvez seja por esta proximidade que o senhor esteja triste pelo resultado do Mélenchon e que não se preocupe com uma eventual vitória da Le Pen.

    1. A ignorância não permite tudo. Marx, que até era judeu, não propôs nenhuma s”oluçao final” para os judeus. Talvez fosse melhor ler os textos em vez dos panfletos da Conspiração dos Sábios do Sião.

    2. Professor,
      tem razão. A ignorância não permite tudo. Ou será que permite?
      Sim, eu sei que Marx era judeu. Mas essa condição implica que ele gostava dos judeus? Ou de o ser? A leitura das cartas que Marx escreve a Antoinette Philips (março de 1861) e a Friedrich Engels (julho de 1862) é esclarecedora.

      Tendo em conta o conteúdo da sua resposta, vou partir do principio que não leu o texto que referi – “On the Jewish Question” – no meu comentário inicial. E que igualmente não leu outros textos de Marx, como por exemplo, “Confessions of a Noble Soul” (1848); e “The Russian Loan” (1856).
      Posso, evidentemente, estar errado, mas se o Professor tivesse lido o texto em questão teria percebido que existia uma razão para a expressão solução final ter sido referida entre aspas. O Marx não defendeu uma solução final idêntica à dos nazis. Não. A dele era diferente:

      “Once society has succeeded in abolishing the empirical essence of Judaism – huckstering and its preconditions – the Jew will have become impossible, because his consciousness no longer has an object, because the subjective basis of Judaism, practical need, has been humanized, and because the conflict between man’s individual-sensuous existence and his species-existence has been abolished.”

      Portanto, em vez de contra-argumentar com escritos do Marx, o senhor Professor sugere uma leitura aos panfletos da Conspiração dos Sábios do Sião. Não deixa de ser curioso que o faça, porque “Os Protocolos dos Sábios de Sião” também é um texto antissemita.

      Para terminar, o Marx não tem culpa nenhuma que o Hitler se tenha inspirado nos seus pensamentos para desenvolver as suas ideias. Mas se o fez, foi por se ter identificado com algo. E, como deve saber, as semelhanças entre Hitler e Marx não se ficam pela questão judaica.

    3. De facto, o anónimo que escreve a nota anterior devia poupar-se a conversa do Protocolo dos Sábios do Sião. O que cita de Marx desmente a sua afirmação e, não me leve a mal, mas tenho alguma dificuldade se não desinteresse em discutir com antissemitas ou com falsificadores da história. Fique portanto com a sua bricandeira sobre Hitler se ter baseado em Marx e passe bem. Percebo bem porque tem que se refugiar no anonimato.

    4. Os Romanticos Alemães, o maior bando de reacionários que a Europa conheceu conceberam um sistema baseado na exclusão. Os judeus eram excluídos da nação alemã. Marx, filho desse movimento e judeu logo por definição excluído, concebeu um sistema também baseado na exclusão. A exclusão de uns levou ao holocausto e a de outros levou ao Holodomor e GULAG. Nenhuma coincidência nisso. Ainda que não advogue nenhuma solução final Marx em várias ocasiões dá mostras de antissemitismo.

    5. Pois é, pequeno detalhe, afinal o Marx não defendeu a solução hitleriana. Mas “deu mostras”… Salvar o argumento exige muita ginástica.

    6. As semelhanças entre Hitler e Marx existem e não são fortuitas. Muitas das ideias de ambos vêm de intelectuais alemães de fins do século XVIII, início do século XIX. Fichte, Herder, Hegel, Holderlin, etc. (Sobre isto muito mais poderia dizer mas as minhas referências não estão à mão) Percebe-se o incomodo de FL com este assunto.

    7. António, percebe facilmente que a sua frase não quer dizer nada. Marx e Hitler inspirados nas mesmas ideias? A seguir vai dizer que leram os mesmos poetas e portanto todos são fascistas? É uma ignomínia misturar quem defendeu a liberdade com quem a oprimiu. Entre Marx e Hitler há toda a diferença e nenhuma reconstrução ideológica da história apagará a diferença. Deixe aos romances do Rodrigues dos Santos essa fantasia.

  2. Só é de lamentar que, tratando-se de eleiçôes, ninguém queira olhar para a fraca democracia que elas exibem, senäo vejamos: Le Pen e Macron somam os dois 45% dos votantes e os restantes 55%, mais os que se abstiveram, säo forçados a votar em quem rejeitaram na 1a volta. Será isto sério?

  3. Escroque?! Quando é que Loucã se limitará a discutir ideias e deixará de insultar aqueles de quem não gosta? Um pouco de elevação ficaria muito bem a um membro do Conselho de Estado. Além disso, poderia ganhar o respeito de uma parte dos seus leitores. Ou seria que outra parte não iria gostar e lhe aprecia o estilo?

    1. Antes de se ofender, leia o artigo. A expressão “escroque” é uma citação de um comentador, que se refere ao debate em França em 2002. É sempre melhor opinar sabendo do que fala.

  4. O Dr FL nao sabe, mas ele mesmo representa, como os outros pseudo intelectuais que ele cita no artigo o problema. Nao estou evidentemente a meter o Dr FL no mesmo saco com os Fernandes e os Raposos. O Dr FL é honesto e inteligente mas é a sua ignorancia historica sobre a natureza do fascismo que é o problema. Sim, ignorancia.
    Nao estou evidentemente a chamar-lhe de ignorante. Acredita que nao estou a insulta-lo. Tenho respeito por si e admiraçao. Mas é so a ignorancia que pode permitir que em 2017 pensar que a batalha é entre o “escroque” e o “fascista”. Se alguém representa o “fascismo” é o Macron. Nazismo /Hitler nao teria existido sem o apoio total e completo dos grandes grupos financeiros e industrias…alemaes e Internacionais. Ora, hoje em dia, esses grupos apoiam todos o Sr Macron. Nao ha fascismo sem capitalismo de estado. Marie Le Pen é um espantalho utilizado para dividir o povo francês. Ela nao passa disso mesmo: um espantalho. Sim, ela é racista, essencialmente anti arabe- foi por isso que ela foi promovida pelo sistema polito-mediatico francês.
    Mas ela é, e o Dr FL é estranhamente silencioso sobre esse aspecto, contra a nova guerra fria , contra a diabolizaçao do Putin, contra a destruiçao da Siria, contra a futura destruiçao do Irao etc…Se a esquerda nao fosse estupida, ela deveria ser contra as guerras. Se ha algo que caracteriza o fascismo é a violencia. Fascismo/Capitalismo sao guerras para fazer dinheiro.
    O Macron, claro, é pelas guerras. Aqueles que o produziram e o estao à vender, sao todos pelas guerras.
    O Dr FL, admira Melenchon. Sobre Melencho basta saber que o seu heroi e mentor é um dos maiores “escroquues” de sempre : François Miterrand- que foi como se sabe, um ilustre membro de governo de Pétain e um colonialista convicto.
    Se a esquerda nao fosse estupida – e Dr FL é conhecido por ser intelegentissimo-, tentaria convencer o povo francês à nao votar nem no “escroque” (Marie Le Pen), nem no Fascista ( o robot produzido pelos grandes grupos financeiros-Sr Macron).
    Que o Dr FL, é incapaz de ver essa evidencia, prova que o poder de propaganda dos grandes meios e comunicaçao funciona.
    Se Melenchon tivesse sido eleito, ou Marie Le Pen vier à ser eleita, talvez a esquerda ingenua percebera quem manda no mundo. Rapidamente esse dois candidatos seria transformados em “Tsipras”.
    Dr FL permita-me que lhe diga: Os fascistas ja estao no poder. O Senhor é que nao sabe. Felizmente nem o Sr, nem o povo Português, é vitima desse fascismo. Mas se perguntar ao povo iraquiano, libio, sirio etc….se calhar ficaria a saber à verdade ou acredita que é aceitavel matar milhoes em nome da “democracia “? Hitler esta vivo e bem…Hoje em dia fala inglês e tem lacaios no mundo inteiro.
    Com todo o meu respeito.

  5. As eleições presidências francesas são assunto de conversa em Portugal mais do que foram as presidenciais portuguesas. Os portugueses não têm direito a voto na França e a comunicação social portuguesa não tem expressão nem crédito por terras de França. Por que será que tanto se escreve, discute e dita sobre esse assunto de fora de portas?

    Em geral quem mais se esganiça para ser notado são reacionários que nunca bateram com os costados na cadeia por serem antifascistas e exprimem-se com virulência contra os que têm as suas raízes na luta antifascista em Portugal e na França acenando com as maldades do clan Le Pen que tanto lhes abrilhanta as festas fora do momento eleitoral.

    A luta contra o clan Le Pen é feita na França diariamente pelos franceses com particular proeminência pelos que agora se agregaram na candidatura da França Insubmissa de Mélenchon já não se pode dizer o mesmo de Republicanos e Socialistas que, no poder, longe de fazerem políticas inclusivas patrióticas e consequentemente democráticas erguem muros, fazem guetos, apoiam mercenários terroristas, atacam países periféricos à bomba e em conluio com a corja que pontifica na chamada UE.

    Ninguém é dono dos votos senão a consciência de quem vota os se abstém.

  6. É impressionante, eles afagam-se entre eles e insultam os outros que não pensam como eles, no seu delírio para justificar o resultado do tonto do Melanchon, que os eleitores não escolheram, tal como o vão fazer com a Le Pen.

  7. Tudo isto é muito bonito e interessante… mas a realidade francesa é diferente. No domingo os grandes partidos tradicionais perderam. Mélenchon não ganhou nas grandes cidades, foi o Macron. Mélenchon ganhou nalgumas periferias e em cidades do sul oeste. Ele ficou em 4o lugar. Macron seduziu grande parte dos eleitores PS (mais que da direita LR), jovens e especialmente franceses de origem estrangeira. O programa do Macron descrito no artigo é caricatural. Não é neo-liberal. Muitas propostas são próximas do PS, outras do centro-direita. Agora a escolha é entre ele que assume o projeto europeu, propondo uma re-orientação social e um governo da zona euro (2 propostas muito próximas do Hamon) e uma extremista de direita, xenofoba, anti europeia admiradora de Trump e Putin. E Mélenchon não se pronuncia e deixa entender que votar branco não é significativo? Ele corre o risco de dividir irremediavelmente o movimento que se reuniu em volta dele. Mas a lógica de Mélenchon nao é de governar o pais, de propor soluções no âmbito europeu. Qual é a lógica do Mélenchon? o futuro dira e muitos dos seus apoiantes chorarão. Desesperados.

  8. Não faço conjecturas sobre os motivos da visão terrificante de Francisco Louçã sobre a França, mas ela está errada. Terrível teria sido Le Pen e Mélenchon passarem à segunda volta. Naturalmente que Macron “só” teve 24% agora, mas Chirac teve menos de 20% em 2002 na primeira volta, e mais de 80% na segunda volta. A História não se repete, mas foram feitas uma miríade de sondagens antes da primeira volta que davam SEMPRE o mesmo resultado, Macron não só bateria sempre Le Pen, com era aquele que a bateria mais facilmente, quando comparado com Fillon. Isso está perfeitamente válido, os eleitores não mudaram de opinião por causa das birras de Mélenchon, e os números eram sempre acima de 60% para Macron. Fillon e Hamon de imediato apelaram ao voto em Macron, e a generalidade dos seus eleitores seguirão esse apelo, não por serem marionetas, mas por saberem que é a única coisa que faz sentido – estamos pois a falar de 20+7=27% dos votos, e só com esses Macron já passa os 50%. É evidente que muitos eleitores de Mélenchon, quem sabe se o próprio, postos diante dos boletins, e sem ninguém ver, lá entregarão o papelinho com Macron, o que será um imenso sapo para eles, mas também para os eleitores de Fillon. A mesma coisa acontece com os restantes eleitores, que são bastantes, e tal é consistente com a votação acima de 60% para Macron. No entanto, há algo de novo desta vez, e isso sim vai pesar: Macron, ao contrário de Chirac, aceitou debater com a Marechala, e afirma que tem argumentos para mostrar que o que ela propõe é uma mão cheia de nada (não me recordo das palavras dele, mas era essa a ideia). Eu não sou capaz de dizer se ele está a fazer bem sentando-se a uma mesa com a dama, porque, e isso está sempre implícito, debater com ela significa pô-la ao mesmo nível do que ele. Macron, com todos os defeitos que tem, é manifestamente um orador e alguém capaz de debater com aquele crocodilo. Não vai haver desastres no domingo da próxima semana.

  9. Convém lembrar que foi o próprio Mélenchon que pediu o voto em Chirac em 2002 (e Macron não é Chirac). Mas esta sua crónica, mais as declarações de Mélenchon hoje, que disse que não votaria FN (como se chegou a tal coisa de ele precisar de esclarecer isto?) mas ainda não disse em quem votaria (??), mostra que para o princípio da próxima semana lá virão às boas fazer a única coisa que é decente, apelar ao voto em Macron, que é mesmo o único candidato republicano na liça. Pena é que já virão tarde, com Le Pen a arrancar as vestes e a acusar Mélenchon de se render ao sistema. Um apoio inequívoco, sem condições, mas também sem promessas, logo no Domingo, deixaria claro que a razão era tão somente a barragem a Le Pen, mais nada, e que a refrega continuaria nas Legislativas. Mélenchon perdeu as eleições e pode culpar os media ou Hamon, mas tem que o aceitar tarde ou cedo, são estas as regras. Quanto a Macron fazer uma aliança de governo à Direita, sinceramente, espero bem que a faça, para dar tempo à Esquerda e ao PSF, se ainda sobrar alguma coisa dele depois de Junho, de limpar a casa. Agora, arriscar uma Le Pen 2017=Le Pen 2022=Le Pen 2027, etc, por causa de um suposto Macron 2017=Le Pen 2022 (nunca lhe disseram que o futuro é muito tempo?) é que não lembra ao diabo…

  10. A situação é complexa. Na verdade, julgo eu, à partida todos queremos o melhor: para nós e para a Europa; para a França, em primeiro lugar, neste caso. Com Macron aliviámos-nos da senhora Le Pen e de tudo o que representa; assim seja. Depois, … Logo se vê.

  11. Macron comete um grave erro se pensa que tem a esquerda no bolso, e pior ainda se quiser desbaratar a esquerda europeia nesta última oportunidade de salvar o Projecto da União e do Euro.

    São desafios de magnitude histórica os que o esperam e recairá sobre ele um sem número de movimentações baixas, particularmente de âmbito externo, no sentido de o fragilizar e arrastar o colapso da própria união europeia. Não nos esqueçamos que os americanos nunca se conformarão com a possibilidade de uma Europa forte e desenvolvida que só evidência mais a decadência deles e o buraco em que estão metidos. A Rússia não desistirá igualmente – eles são europeus mas sentem-se rejeitados. Importantes zonas de influência em África e na Ásia tenderão a arrastar um atrito e conflitualidade crescente com o RU, agora de asas livres via brexit e já a sonhar com uma Comunidade Económica global sob a pata da coroa e reunindo parceiros importantes como a Austrália, Nova Zelândia…

    Sobre a França do próximo quinquénio recai uma missão histórica, da qual nós próprios beneficiaremos ou ficamos irremediavelmente isolados.

    1. Toquevilen comete o erro de esquecer quem é a adversária de Macron. É Marine Le Pen. A realidade não é aquilo de que gostamos. Isso significa que Macron tem sim que segurar os eleitores de Fillon, pois muitos deles serão tentados por Le Pen se Macron começar a piscar os olhos à esquerda e a “armar-se em socialista”. Ele não pode fazer isso, e espero que não faça! Os eleitores de Mélenchon que vão votar Le Pen não são sequer sensíveis a piscadelas de olho, Macron será sempre o banqueiro Goldman para eles – é um tiro no pé mostrar-se esquerdista, pois assusta a direita que tenciona votar nele.

  12. Macron tem muito que mourejar e para criar algum futuro equilibrio governamental, precisa de vencer por uma margem superior a 60 por cento. Nada se sabe de concreto sobre as negociacöes do En Marche com os apoiantes-de topo do LR desiludidos por Fillon, que devem abandonar o seu partido, os Republicanos, para passarem a fazer parte das listas de deputados do partido do banqueiro-de-negócios. Sarkozy anda nas conspiratas mas tem uma imagem pública muito negativa. Bayrou, que é um velho inimigo figadal do antigo PR neo-liberal, fará tudo o que seja necessário para afastar o espectro da colagem de Sarko e seu grupo a Macron, pois ainda vai haver julgamentos escaldantes do comparsa de Cameron e Hillary na ” pilhagem ” e destruicäo da Libia, ele que é acusado de ter recebido ” malas ” de dinheiro do coronel libio para financiar a sua campanha presidencial de 2007… Na polifacetada rede televisiva tricolor apareceu há poucos dias um diálogo soberbo entre Jean.Francois Kahn e o homem forte do Le Figaro, Y. Thénard, na CNews. JFK tem mais de 10 lustros de vida jornalistica asssimétrica e audaciosa , e sempre apostou num ” sistema politico ” à americana, como Servan-Schreiber nos anos 70. Ora o que nos diz J-F.Kanhn no auge da segunda volta das Presidenciais francesas: Macron está possuido por uma visäo politica e económica de Centro-Direita, que vale o que vale, diz ele com grande comviccäo e élan…

  13. Não será nesta, será muito possivelmente na próxima… que teremos Martine a Presidente da República Francesa.
    A menos que o tótó do Macron deixe de fazer política como o fez Hollande e França consiga trazer algo de novo e imperativo que nos ponha a salvo de trumps, de pens, de shabouls e outros que tais.
    Os horizontes próximos, continuam turvos… e de que maneira!

  14. Na minha opinião Mélenchon está a usar tacticismo, e os milhares (repito, dezenas de milhares) de políticos e comentadores neoliberais (pré-fascistas) encrustrados, disfarçados ou não, incluindo os da nossa praça, como referiu, estão a cair que nem pombos na armadilha: o que os preocupa não é se a direita racista substitui os neoliberais (pré-fascistas), porque para os bilionários tanto lhes faz, e o que menos os preocupa são os direitos humanos.

    O que os preocupa é não conseguirem domar a esquerda, que no caso de Mélenchon nem é assim tão fracturante, uma vez que ele só exige 4 condições, e mesmo assim a França continuará a ser europeia como sempre foi….

    Provavelmente Mélenchon vai anunciar o apoio a Macron no último dia da campanha, mas se não anunciar, será também importante para as legislativas, onde Macron impopular (votar pelo menos mau, não quer dizer que se gosta), pode-se transformar no Nicolás Maduro da direita europeia, a governar por decreto, como aconteceu em parte com o Holland das lambretas e extintor de PSFs…

    1. Entretanto depois do meu post anterior, Melonchon já disse (e bem, como previsto), que não votaria em Le Pen. Mas deve deixar para o ultimo dia o apelo voto em Macron. Ele tem margem de segurança para isso, porque Macron ainda tem larga vantagem, e como estamos a falar de França, é essencial que os média neoliberais continuem a falar mal da esquerda (e não da Le Pen, como seria a sua “obrigação), para depois engolirem o sapo, mostrando assim quem é a verdadeira alternativa, que é obviamente a esquerda que não se deixa domar.

  15. Não perca muito tempo com o Fernandes e outros que tais. Mas que tal reflectir sobre a pergunta óbvia: porque é que o Hamon e o Melenchon não trabalharam juntos para uma candidatura comum e assim assegurar que um candidato de esquerda estivesse presente na 2ª volta (contra a Le Pen ou contra o Macron). O que impediu essa candidatura “unitária”? Porque é que a esquerda é tão irritantemente ESTUPIDA???

    1. É uma boa pergunta. Mas, tratando-se de uma presidencial, ou era um ou era outro. Os resultados provaram que Mélenchon foi o candidato com mais impacto, mas quando conversaram Hamon propôs-lhe que desistisse a seu favor. A história respondeu a essa resposta, mas também prova por que nunca conseguiram entendimento.

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