Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Abril de 2017, 10:41

Por

Santificado seja o teu nome, Donald

Nasceu uma estrela. Trump passou a ser um estadista, falou pelo mundo. Trump passou a ter sentimentos, ficou incomodado com as imagens do ataque químico a Khan Sheikhoun. Trump passou a ser ponderado, não reagiu pelo Twitter mas sentou-se no gabinete de crise. Trump deixou de ser amigo dos russos, ou pelo menos amigo dos amigos dos russos, é cá dos nossos. Trump passou a ser melhor do que Obama, porque Obama acabou por aceitar a sugestão de Trump (vire as costas à guerra na Síria) e Trump não seguiu Obama que tinha seguido Trump. Trump passou a ser bem informado, ouviu os conselheiros. Trump passou a ser confiável, é o nosso escudo, é o nosso líder. Trump bombardeou o Iraque, que afinal é a Síria, mas o que importa é que bombardeou. Trump bombardeou a Síria, que afinal não é o Iraque, e logo depois o Afeganistão, o Iraque bem pode esperar pela demora. Trump, quando bombardeia, usa logo a “mãe de todas as bombas”. No Observador, sempre na vanguarda, o homem já é um novo Ronald Reagan e salva o “Ocidente“. Para esta ressurreição, bastou bombardear com uns Tomahawks uma base militar síria (alguém se lembrou de perguntar aos “índios” se apreciam a escolha sinistra deste nome?) e depois usar a “mãe” para concluir a semana.

Os governantes dos países da Europa do Sul estão, é claro, solidários. Eles “consideraram que o ataque lançado pelos Estados Unidos tinha a intenção compreensível de impedir a distribuição e o uso de armas químicas e que se centrou nesse objetivo”, mas logo acrescentaram que “só uma solução pacífica credível poderá garantir a paz e a estabilidade, permitindo a derrota definitiva do Daesh e de outros grupos terroristas”. Estes governantes acham “compreensível” o bombardeamento mas repetem que é necessária uma “uma solução pacífica credível”, sempre solidários. Imagine-se a atenção que a Casa Branca dará a este pedido de “credibilidade pacífica”.

Como Valdemar Cruz notou, o que os governantes europeus do sul estão a dizer é que, coitado do Guterres, afinal o cargo tão festejado era mesmo para ser um posto cerimonial e as Nações Unidas, que iam ser reformadas, credibilizadas e respeitadas, ficam afinal fora do campo do tweet de Trump, estamos no tempo das bombas. E essa notícia é a pior de todas, deixa-nos um pouco mais longe da solução para o conflito e um pouco mais perto do desastre líbio.

Houve quem lembrasse que as armas químicas foram utilizadas no passado pelo Reino Unido no Médio Oriente, por todas as potências ocidentais na primeira guerra mundial, pelos Estados Unidos no Vietname (quando já eram proibidas por tratado internacional), por Saddam Hussein contra os curdos quando era aliado dos Estados Unidos e depois ainda pelos comandos norte-americanos em Falluja. E, no meio de tudo isto, sempre há um porta-voz de Trump que explica que Hitler não usou armas químicas. É certo que nada desse passado tão presente permite qualquer indulgência perante Assad ou quem tenha desencadeado este ataque. Mas, entendamo-nos, nada parará este ou outro ataque, ou o bombardeamento de populações, ou os reféns civis, enquanto não surgirem na Síria forças nacionais capazes de vencer e destituir os senhores de guerra, que em seis anos fez meio milhão de mortos. Se tudo o que é agora a política internacional é reforçar esses senhores, então a paz será impossível.

Quanto ao líder que agora se agigantou à força de bombas e de prosápias, ele continua igual a si próprio, lamento constatá-lo. É o mesmo troca-tintas que foi eleito com uma campanha vergonhosa, que abusa das mulheres, que ameaça os refugiados, que não sabe o que fazer com as suas promessas, que defende as empresas do petróleo como o pilar da economia, que rasga acordos internacionais sobre as alterações climáticas, que levou a extrema-direita supremacista para a Sala Oval, que pisa as liberdades e que, no fim das contas, se trata como um marajá em férias e passou nada menos do que 21 dos 80 dias do seu mandato no seu resort na Florida.

Um velho ditado dos gangsters de Chicago ensina que “se não os consegues vencer, junta-te a eles”. A única novidade destes dias de panegírico trumpista é que demasiados governantes, comentadores e espirituosos estão a seguir à letra essa sapiência gangsteril.

Comentários

  1. O que mais há é condutores para becos sem saída. Francisco Louça no que afirma neste artigo tem razão em tudo que diz, e daí? Admitindo que tenha razão relativamente a Trump, e eu estou de acordo com a leitura que faz desse personagem, qual é a conclusão? Se Trump não existisse o mundo era diferente? A China não continuava a acumular poder e influência até ao dia em que precisasse de levantar a voz? O Daesh com os anos passava a clube de férias? A Turquia repartia o bolo com os Curdos? A nova classe exploradora de burocratas (nisto FL não está seguramente de acordo) deixava o bem-bom de fazer regras para os outros cumprirem refastelados nas suas imensas mordomias de quem está à boca do cofre, e passava a trabalhar nalguma coisa útil para os outros? Os novos excluídos iriam ver portas abertas? Os jovens iriam ouvir Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix com remorsos de terem levado a economia a este buraco e exigirem aos joven que lhes paguem as mordomias?
    Seguramente que não. O problema é que Trump não é a causa, mas sim a consequência.
    Acontece que quem mais responsabilidade tem na causa, é quem mais quer diabolizar a consequência. são finos. O povoléu é de facto pouco lúcido.

  2. O problema da sua peça é que eu não percebo de onde virão as tais ‘forças nacionais’ que derrotarão os senhores da guerra, Assad incluído. Não serão certamente os curdos, que querem uma nação, mas a sua própria. Há, pois, duas atitudes. Uma é a interferência desastrosa que tem sido a prática corrente de todas as potências, com a França e os EUA à cabeça, embora por estes dias, é a Rússia que leva a palma nesse domínio (há uma certa Esquerda que vai de Mélenchon ao nosso PCP que sente admiração por Putin, mas francamente, sabendo nós aquilo de que ele é capaz, não vale a pena ter com ela quaisquer contemplações). A outra é um ‘hands-off’ que espera que um dos lados ganhe rapidamente a guerra e que esse lado não seja um poder islamista com sonhos expansionistas que vá desestabilizar ainda mais a região, incluindo provavelmente a Turquia (e aí a minha preferência irá provavelmente para algum émulo de Assad, proveniente do seu próprio Partido, que é apesar de tudo um Partido secular). É exatamente isso que fazem os Países da Europa do Sul, cuja influência na região é nula (e ainda bem). O que disseram é simplesmente um lugar comum destinado a não hostilizar os EUA, proveniente dos manuais da ‘real-politik’ pura e dura. Aliás, estes países sabem bem que a ação de Trump é provavelmente inconsequente e destina-se sobretudo a marcar posição. Não vale a pena andar a arrancar as vestes pela posição do nosso Governo quando na verdade aquilo que se tem para dizer vai cair exatamente no mesmo saco das generalidades absolutamente previsíveis…

  3. Por falar em Gangters, para quando um artigo sobre o contributo do comunismo na moderação do crescimento da espécie humana, ou até na sua retracção?
    Muitas dezenas de Milhões de humanos merecem essa homenagem Dr louçã.

  4. Compreender a escalada bélica de Trump é relembrar as contrariedades encontradas,após a tomada de posse em 20 de Janeiro último:

    (1) Trump herdou uma economia próspera do seu antecessor, com taxa de desemprego baixa(4,7%); tem à disposição todas as alavancas de poder em Washington; o Partido Republicano controla a maioria dos cinquenta estados.É,pois, com alarme que o seu staff vê, em finais de Março passado, a sua popularidade interna chegar aos 36% de aprovação, um valor tão baixo só comparável aos atingidos por Bush pai e Bush filho e claramente inferior às performances dos democratas Clinton e Obama;

    (2)Má gestão dos dossiers Obamacare, Muro do México, Decreto Anti-Imigração. Estão por avaliar os estilhaços provocados no domínio da desregulação financeira – os Indices de Wall Street subiram espectacularmente mas o passado recente, crise de 2008, causa apreensão; a fúria anti-climática e o apoio aos sectores da energia fóssil(carvão e petróleo) causam uma onda de perplexidade);

    (3) A acção na correcção do enorme deficit comercial, nomeadamente os saldos negativos com a China e o México, tem funcionado,aos olhos da opinião pública, como ponto positivo;

    (4) Trump afirmou na tomada de posse:”sou o único capaz de resolver os problemas de Washington”. Mas falhou na tentativa de reforma profunda do Obamacare(o Obamacare possibilitou a 24 milhões de americanos a adesão a coberturas de saúde). O propósito de Trump era reduzir as despesas públicas, mas as forças internas do Partido Republicano contrariaram os seus desígnios;

    (5) A questão com o México está directamente relacionada com o déficit comercial.Para Trump, a solução é o retorno aos Estados Unidos das cadeias de produção instaladas no México. Trump critica nomeadamente a desvalorização interna praticada neste País(a estagnação salarial como factor de competitividade) e a retaliação surge nas formas de conter a forte vaga migratória mexicana em direcção aos Estados Unidos(daí o objectivo de construir o muro). Entretanto, de acordo com a Fundação Bancomer, o contributo mexicano para o PIB americano é avaliado em 8%. Um dossier difícil de gerir, portanto;

    (6) A questão climática está ligada ao impulso contra-revolucionário energético, por intermédio de um Decreto que coloca em causa a regulamentação criada por Obama contra o aquecimento global. Trump pretende reavivar a exploração mineira – anunciou “o fim da guerra contra o carbono” -, visando inclusivamente a saída dos Acordos de Paris(Washington tem o compromisso de descer as emissões de gases de efeito de estufa até 2025). Trump pura e simplesmente pretende rever o Clean Power Plan, contando para o efeito com financiamentos do sector energético;

    (7) O estado de graça acabou. Não está a ser feito o que foi dito que iria ser feito. Não estão a ser cumpridas as promessas eleitorais. A agressividade e o belicismo externos de Trump é o contraponto à manifesta inabilidade política para resolver os problemas da América. É uma situação que faz temer o pior.

  5. Ao baptizar com o vocábulo “tomahawhk” os mísseis fabricados pelo complexo militar norteamericano, existe uma clara intenção do homem “superior ” e branco, de apropriar-se dos despojos dos vencidos da grande nação Índia. Tinha de ser assim, claro que tinha, meu caro Louçã, porque seria impensável chamar-lhes mísseis General Custer, ou Little Big Horn, não seria? Tal como seria inconcebível que a náusea com os efeitos dos ataques químicos, confessada pelo presidente Donald ,tivesse qualquer coisa que ver com a imagem da criança vietnamita, em fuga, numa nowhere road, com a pele a ser consumida pelo Napalm,nos idos de setenta de um século passado,ou que o “cavalheiro” tenha a menor noção de que Dien Bien Pu existiu, ou que Enola Gay não seja o nome de uma discoteca da moda na Florida, mas o nome de baptismo do maior legado que a “democracia americana” ofereceu ao Mundo.

    1. Quando a General Motors nomeou os seus topos de gama “PONTIAC” também o fez para “apropriar-se dos despojos dos vencidos da grande nação Índia”?

  6. Parece que há alguns pontos que merecem ser realçados.
    1. Só se chegou a esta situação porque a China deixou (tinha interesse em que) a Coreia do Norte tivesse capacidade de atingir os USA com uma arma nuclear.
    2. Será esquecimento voluntário não ter mencionado todas as provocações e ataques da Coreia do Norte à Coreia do Sul? Desde tiros de artilharia até à destruiç
    ão de um navio da Marinha da Coreia do Sul.
    3. Dado exposto acima é compreensível que os USA não aceitem ficar submetidos à chantagem da Coreia do Norte. E nós já vimos no passado essa chantagem. E se era assim sem a bomba, é fácil imaginar o que será depois.
    Ao josé aplica-se um dito da minha terra: “Mentiroso sou eu e não minto tanto”.
    À bon entendeur “salut”!

  7. Exatamente como escreveu. O gangster é agora o grande líder do cada vez mais selvagem Ocidente. É o “triunfo dos porcos” ao vivo e a cores.

    A solidez ética dos “líderes” em exercícios caiu-lhes aos pés com o estalar do verniz provocado pelas cacetadas desferidas à sua revelia, sem consideração alguma pelas instituições ou pelo Direito Internacional. De fanfarrões todos se transformaram em lambe-botas rendidos e dispostos a rastejar para todos os abismos.

    Quem se rende a um idiota como Trump não pode ser respeitado pelos povos.

  8. É como diz caro Francisco Louçã. De conversas com gente da Ásia sobre este tema (onde vivo, em NY, há gente de toda a parte), fica a impressão que o previsível bombardeamento unilateral da Coreia marcará o ocaso moral do ocidente. Tantas estórias antigas vivas na memória deles, desde https://en.wikipedia.org/wiki/Unequal_treaty a https://www.washingtonpost.com/opinions/the-us-war-crime-north-korea-wont-forget/2015/03/20/fb525694-ce80-11e4-8c54-ffb5ba6f2f69_story.html, e completamente ignoradas por nós. Estas memórias alimentam o medo de que a via militar esteja de volta para proteger privilégios económicos inibidos desta vez pelo deslocamento da produção e inovação tecnológica para o Oriente. Das mesmas conversas fica a impressão que o alvo destas ameaças militares é o bond market chines, cuja maturação periclitante em curso, se/quando completa cria uma alternativa interessante ao sistema prevalente que o Ocidente controla.

  9. Esta e outras guerras podiam ser paradas se se abrisse a caça aos financiadores. Mas suspeito que os timoneiros sabem exactamente quem são esses beneméritos e preferem não ir por aí. Preferem estimular a economia fazendo movimentar a indústria da guerra.

  10. Paul Craig Roberts:

    “você só se pode maravilhar com a estupidez total da “liderança ocidental.” Eles estão pedindo o fim do mundo.”

    “A indiferença do mundo ocidental é extraordinária. Não são só os americanos que se permitem a uma lavagem cerebral pela CNN, MSNBC, NPR, o New York Times e Washington Post, mas também suas contrapartes na Europa, Canadá, Austrália e Japão, que contam com a máquina de propaganda de guerra que se apresenta como os média. ”

    Os “líderes”, ocidentais, isto é, os bonecos na extremidade das cordas puxadas pelos poderosos grupos de interesses privados do “Deep State”, estão igualmente despreocupados. Trump e seus homólogos no Império Americano não devem estar cientes de que eles estão provocando guerra com a Rússia e China, ou então eles são psicopatas.

    “Não é realmente Trump que está no comando, ele é apenas uma ferramenta do império anglo-sionista”

    http://www.paulcraigroberts.org/2017/04/12/is-that-armageddon-over-the-horizon/

    Paul Craig Roberts – (President Reagan Assistant Secretary of the Treasury for Economic Policy)

    1. É isso mesmo, Os generais estão tomando o poder no que toca a política externa norte-americana. Um presidente fraco uma presa fácil para os generais.
      A justificar isto, basta recordar as gafes quanto a textos mal lidos. O afastamento das personagens iniciais à sua entrada na casa oval, são certamente imposições do Pentágono.

  11. Tem sido um festim de propaganda, quase uma suruba de propaganda NeoCon. Até o Alex Jones, um dos mais inflentes e apoiantes de Trump, da ala “White Power and Guns”, anda a ficar bipolar.

    Chegaram ao ponto de inventar a história do “polícia bom e do polícia mau”. Trump é o mau imprevisível, e a sua filha Ivanka é a boa razoável. Incrível, e um previlégio por estar vivo e assistir a isto, rindo para não chorar.

    Claro que Trump é um fascista novaiorquino de berço, um homem que subiu na vida roubando trabalhadores e fornecedores. Dali só sai o que dizem os mafiosos de Nova York, “you must pay”. E os americanos vão ter mesmo que pagar áquela família, quanto mais não seja por terem afastado a Esquerda do poder, o principal objectivo, porque o povo pode querer mudança, mas não pode ter solidariedade, e “jobs”, aparentemente só com uma arma na mão para salvar a vida numa guerra qualquer.

    Claro que Assad não ordenou aquele desastre químico. Mesmo um oficial desiquilibrado por 6 anos de guerra, vingativo, seria quase impossível fazer aquilo num regime daqueles, e com os russos no terreno.
    O desastre aconteceu em Idlib, para onde o regime sírio deixou fugir os jiahdistas em autocarros, precisamente para poupar os civis de Alepo…

    É óbvio que foi uma cilada montada para prejudicar o regime sírio, e sensibilizar a fascista ainda mais de berço, a Ivanka Trump, “A Boa”

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo