Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

4 de Abril de 2017, 12:39

Por

Apresento-lhe o novo dono, John Grayken

A simpática prenda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star suscitou comentários e perguntas. O comentário mais inspirador é o dos que garantem que a nacionalização seria uma tragédia (perderíamos muito dinheiro) mas que o Lone Star fez um bom negócio (ganhará muito dinheiro), o que não deixa de colocar um sufocante problema ontológico: o Novo Banco será um ou serão dois, como Janus, um que perde e outro que ganha, consoante o seu dono? Mas é de outra pergunta que ficou por fazer que lhe quero falar.

A pergunta, essa sim importante se me permite a insistência, é esta: quem é o novo dono do banco? Resposta: é John Grayken. Deixe-me então apresentar-lhe o senhor Grayken, nascido ali para os lados de Boston, nos Estados Unidos, mas naturalizado irlandês para pagar menos impostos (ele cobra um salário pessoal de 350 milhões por gerir o fundo e já acumulou uma fortuna de 6,3 mil milhões, é o segundo mais rico entre os gestores de fundos privados no mundo). “Milionário oportunista”, chamou-lhe a Forbes, ou “banqueiro na sombra”.

O dono, Grayken, teve uma carreira meteórica: começou num banco de investimento, Morgan Stanley, depois foi para o imobiliário e foi lá que aprendeu os truques, as oportunidades, a pose e o sucesso. No caminho, compra tudo o que for barato e puder ser vendido caro. Ficou famoso um negócio que fez com o Merrill Lynch, um grande banco em dificuldades, a quem comprou activos problemáticos com um desconto de 78% (e obrigou o banco a financiar esta sua operação a 75%, ou seja adiantou 5,5% do valor da compra). Em Portugal, foram os Dolce Vita e a Marina de Vilamoura, onde está ainda por emergir uma obra faraónica de mil milhões de euros, apalavrada desde há dois anos. Mas, pronto, os leitores poderão dizer que isso são acidentes de percurso, a vida de um especulador é arriscada.

Vamos então um pouco atrás na história de Grayken, até à Coreia do Sul, pois foi lá que começou a comprar bancos. Os que nos disseram que o homem era fiável, que ele só tem bancos pequenos e tudo corre bem, ou não viram a história toda ou esqueceram-se de a contar. Grayken comprou na Coreia um banco importante, dos maiores do país, o Korean Exchange Bank. Na tempestade da recessão de 2003, Grayken estendeu a mão salvadora e comprou 51% do banco por 1,3 mil milhões de dólares. Em 2006, negociou a venda por 6,6 mil milhões, um lucro de mais de 400%. O problema foi que as autoridades sul-coreanas não gostaram das contas e desconfiaram. A opinião pública reagiu contra este raid (como há quem não goste que se chame flibusteiro aos decisores destas operações, fico-me pelo raid). Descobriu-se que um executivo se tinha apropriado de alguns milhões e começou uma outra investigação sobre a manipulação dos preços das acções. A justiça emitiu mandatos de detenção contra o co-fundador do Lone Star e os seus dirigentes locais. E Grayken deu uma conferência de imprensa reconhecendo os desfalque, pediu desculpa por qualquer coisinha e prometeu doar, “num gesto de boa vontade”, como disse, cerca de cem milhões de dólares para obras de caridade no país.

Em 2008, com ou sem “gestos de boa vontade”, um dos executivos do Lone Star no banco foi condenado a cinco anos de prisão. Que importa, Grayken persistiu e lá conseguiu vender o banco em 2012 por cerca de quatro mil milhões de dólares, sempre são quase 300%. A compra do Tokyo Star Bank foi outra aventura: a Lone Star comprou em 2000, depois vendeu parte, depois vendeu tudo, depois voltou a comprar e depois voltou a vender em 2014 (mas ficou a acusação de fuga ao fisco).

Dir-me-á: problemas jurídicos são a vida de uma grande empresa (está a ser investigada pelo Procurador de Nova Iorque por práticas ilegais na cobrança de hipotecas, o seu negócio mais importante). Mas agora que conhece o dono do Novo Banco, diga-me por favor: dorme descansado sobre este caso?

Comentários

  1. Desculpem o esquecimento. E isto depois do cavaquista Victor Bento ter ido para a administração “queimar arquivos” e separar o suposto BES mau do bom (bom!!???)…

  2. Em declarações recentes, ele disse que neste caso não se iam comportar como abutres, para se livrarem da má fama do Lone Star, de abutreiros (tipo Maria Luís do PSD, Ministra do Sec. Estado Sérgio Monteiro responsável pela “venda”, pago a 25 mil ao mês, que foi trabalhar para um fundo desses abutres inglês)…

    Acredite quem quiser…

  3. Sr. Louçã o Ricardo Salgado ainda vai recomprar o novo banco por meia dúzia de patacos depois de todo o passivo ter passado para as mãos dos meus filhos e netos e rir-se na cara de todos nós.
    Claro que o fará através de testas de ferro, quem sabe esse lone star não terá já lá por trás uma veiazinha espirito dos santos…

    Pedi ao seu colega de blog o Sr. Bagão Félix para perguntar ao Salgado se esta catástrofe do BES não foi simplesmente uma vingança contra os portugueses pelas nacionalizações do 25 de abril… mas ele não me respondeu…

  4. Para além do mais que duvidoso processo financeiro envolvendo o Novo Banco (ainda não decidido), deveria ser determinante conhecer a idoneidade do comprador (conhecido por muitos, e desde há bastante tempo, excepto pelos nossos responsáveis), este “cartão de visita” seria mais que suficiente para arrepiar caminho e pedir esclarecimentos a quem negociou (?) a empreitada. Está à vista de quem quer ver.

  5. Sr. Prof. Francisco Louçã,
    Quando se fala do problema dos Bancos, há uma opção que nunca é abordada: a sua falência e liquidação. Quando tal é referido, diz-se simplesmente que o custo seria enorme e passa-se às opções alternativas (geralmente o pagamento pelos contribuintes). Não percebo porquê. Há um fundo de garantia de depósitos, que protegeria dos depositantes, porque é que os bancos não abrem simplesmente falência? Porque é que esse custo é considerado tão insuportável para os contribuintes? Gostava genuinamente que alguém explicasse isso.

  6. Eu, eleitor do BE em Coimbra, não durmo descansado enquanto o BE, e o PCP, não tirar o tapete ao PS.
    Onde já se viu permitirem esta negociata com enormes perdas de dinheiro dos contribuintes, só para manterem a geringonça… e temos ou não a razão do nosso lado? Ou seja, se a DG-Comp exigiu coisas diferentes para a nacionalização e para a privatização, isso dá ou não o direito de processarmos a UE por desrespeito da lei que permite aos Estados membros terem decisões soberanas sobre o que é ou não a propriedade pública?

    Andar a brincar à caridadezinha com aumentos ridículos de 27 € sobre o já miserável salário mínimo, para em troca o PS poder ter o poder e andar a brincar aos capitalistazinhos, sinceramente…

    Andam a gozar com os portugueses a dar tudo e mais alguma coisa ao funcionário público, que sempre teve demais para a realidade do resto do país, e os trabalhadores do privado que se lixem.

    Para quando um ultimato ao PS?

    Afinal isto caminha para ser uma Coreia do Norte só com salários miseráveis por todo o lado, ou queremos uma aliança de esquerda para transformar Portugal num país mais próximo do BOM exemplo nórdico?

    Para quando a implementação de um sistema de Ghent para o sector privado? De modo a que Portugal deixe de ser o país com menos sindicalizados na Europa!?!

    Para quando políticas a sério de aumentos salariais para recuperar tudo o que foi perdido desde 1998? Desde então a produtividade aumentou 15% e os salários reais desceram 2%!!!!!

    Para quando o fim da ADSE, e a aposta num serviço nacional de saúde a sério, mesmo universal, e com um mínimo de qualidade e dignidade, ou seja, sem listas de espera assassinas, e sem os “desvios” de doentes (mais endinheirados, e da ADSE) para clínicas privadas para resolverem os seus problemas, enquanto o resto da populaça desespera?

    Isso é que interessa! Não é andar a brincar à Geringonça, com aumentos 1€ ou 2€ nas pensões para servirem de bandeiras (ridículas) dos partidos de esquerda, ao mesmo tempo que o PS brinca à brincadeira preferida da Terceira Via, fazer de conta que é social-democrata ao mesmo tempo que na prática faz todo o seu contrário, ao aceitar todas as imposições neoliberais do BCE, DG-Comp, UE, FMI, etc

    Caro Francisco Louçã, ou percebo o vosso pragmatismo: “é melhor pequenas vitórias dando a mão ao PS, do que grandes derrotas deixando a direita governar” – mas começa a ser irritantemente desesperante o tão insignificantes (e sectoriais) que essas “vitórias” são…

    Em 2019, quando todas estas ilusões resultarem numa maioria absoluta do PS, e quando o PSD tiver um líder diferente com quem A.Costa possa negociar no tradicional “centrão”, aí já será tarde de mais…

  7. Pela discrição que faz do John Grayken, dá para ver que ele é um enorme tubarão branco que nos vai devorar, e não são os golfinhos que nos representam que nos vão proteger.

    A banca é o melhor negocio do mundo, pelo que a nacionalização seria proveitoso para os contribuintes, mas num contexto diferente do nosso: onde existi-se punição por gestão danosa e responsabilização por má gestão, e ainda a supressão do estatuto de funcionário público de todos os trabalhadores do banco público.
    Como não é caso o melhor é vender. O cheiro a sangue vai atrair outros tubarões.

    1. Olha que essa ideia de os golfinhos serem muito mansos está completamente ultrapassada à luz da ciência.

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