Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

28 de Março de 2017, 12:27

Por

A várias velocidades, em frente, marche

“O tempo para salvar a Europa acaba este ano, porventura o mais tardar no Outono”, escrevia Vicente Jorge Silva há dias. Não é a primeiro nem será a último destes apelos exasperados, cheios de urgência. Parece que o tempo está a “acabar”.

O facto é que a dúvida se instalou no quartel-general e essa é a novidade. Hoje são euroentusiastas quem conduz a crítica à desagregação institucional da União e às políticas que levam a novas crises: Jorge Sampaio, que já aqui citei, avisou há pouco sobre o “esboroamento a olhos vistos”; Maria João Rodrigues alerta para que “se a Europa não conseguir dar um futuro aos mais jovens, a UE não vai ter futuro”; António Vitorino constata que o euro acentuou a divergência ou que provoca sucessivas “crise sufocantes” e “desafeição”; Ricardo Reis escreve que o risco já não é o euro, é a UE; Luís Amado lamenta a “desorientação na elite europeia”.

Não há muito, Nicolau Santos constatava acerca da Grécia a “morte de um projeto” e Elisa Ferreira que o Eurogrupo condenou o país a uma depressão ainda mais profunda na qual a dívida e o empobrecimento florescem.” Todos dizem o mesmo: o tempo está a acabar.

Então, perante o risco de desagregação, emergem quatro estratégias de nevoeiro. A primeira é a da Declaração de Roma, que junta Merkel, Juncker e muitos governos europeus: criar várias velocidades e prometer a toda a gente o lugar de maquinista. Funciona, mas só até se ver o comboio. De facto, não há nenhum problema da UE que seja resolúvel com várias velocidades e todos, sem excepção, serão agravados: é evidente que a várias velocidades não pode haver mutualização das dívidas, nem garantias bancárias comuns, nem gestão política do euro, nem Orçamento comunitário. Para haver só para alguns é preciso violar as regras legais actuais. E, para mais, como todas essas soluções exigem transferências e a Alemanha não paga (nem com Schultz), isto é conversa fiada. Pior ainda, não há soluções neste comboio, mas o seu discurso é por si só criador de instabilidade. É por isso que Seixas da Costa, que sabe do que fala, lamenta esta promoção de um caminho de divisão: “Parece que há uma espécie de consagração institucional de divisão da Europa. As pessoas estão-se a adaptar. As instituições costumam ser uma espécie de freio para a disrupção, costumam ser um elemento agregador. No momento em que as instituições consagram nelas próprias a desagregação ao admitirem com uma linguagem muito clara a diversidade institucional, acabam por se tornar cúmplices desta divisão. Por isso mesmo podemos estar no caminho para que a UE aceite a sua divisão futura.” O que está em curso é que cada “velocidade” criaria a divisão na UE e, pior, as instituições que deviam ser estabilizadoras tornam-se o foco da incerteza.

A segunda estratégia é tão inconsistente como a primeira, mas mais ideológica. É, mais uma vez, o discurso dos “valores”, como o ensaiado no PÚBLICO por Sigmar Gabriel, um dos homens cujo “valor” foi arruinar a Grécia. Ora, na falta de políticas que respondam à vida das pessoas, bem se lhes pode pedir que acreditem num céu de bem-aventurança, pastoreado pelas divindades com “valores”. Parece que, nesse sentido, 43 personalidades fazem um apelo para que a Europa “acorde”, curiosa expressão (esteve a dormir? o que aconteceu foi sonolência?).

Só que já vimos o que são esses valores, não vimos? Limito-me por isso a lembrar outro euroentusiasta, Francisco Assis, que lucidamente apontou o “colapso moral da Europa” na questão dos refugiados, a questão mais importante da vida europeia nos dois últimos anos: “Aquilo que até há pouco tempo se afigurava impensável poderá estar prestes a tornar-se realidade: a União Europeia, abjurando todo o património de que tem sido portadora no campo dos direitos humanos, dispõe-se a pôr em causa o direito de asilo e a violar de modo grosseiro algumas convenções internacionais que ela própria originou.” Concluía ele que “os próximos dias, ainda algo se poderá fazer para evitar este verdadeiro colapso moral por parte da Europa” – isto foi há um ano e o “colapso moral” que se anunciava por dias verificou-se para além do imaginável no acordo com Erdogan acerca dos refugiados.

A terceira estratégia é dizerem-nos que desta vez é que é, que com Schultz (que parece estar mais longe da vitória do que nos diziam) e com Macron (que, se vencer, nem sabe com quem forma governo) a Europa se endireita. O truque da promessa salvífica já foi gasto com Hollande, que era uma viragem à esquerda e um novo fôlego para a Europa, lembram-se? Era o político que ia travar Merkel, lembram-se? O presidente que em três semanas imporia um novo Tratado Orçamental, lembram-se? Ora, repetir agora o anúncio da chegada dos Messias Schultz-Macron não dispensa ninguém de responder à questão: é mesmo com as várias “velocidades” que estes senhores irão putativamente “unir” a Europa?

A quarta estratégia merece um pouco mais de atenção. É o ataque sem luvas contra a esquerda, é um discurso que procura aterrorizar as críticas ao efeito desastroso da política de Bruxelas e Berlim. Ouça-o bem: já não há esquerda nem direita, só há sociedade “aberta” (pró-UE) e “fechada” (anti-UE). Isto vem de Popper, João Carlos Espada usou a deixa durante anos a fio e pouca gente ligou, mas agora tornou-se um hit. Há quem o diga com elegância, como Vitorino, e há quem avacalhe, que os “fechados” são nacionalistas-fascistas, gente de ideias “vazias e caricaturais”, e que os “abertos” são cosmopolitas-europeistas.

Esta narrativa tem vários problemas. Afinal, foram os “europeístas-abertos” quem assinou o acordo com a Turquia e acorrentou os refugiados, no tal “colapso moral”, não foram mesmo? Dijsselbloem, coitado, é um dos “europeístas-abertos”, como Schauble, não é?

Depois, a fronteira entre “nacionalistas-fechados” e “europeístas-abertos” tem uma função em Portugal, que é condenar a maioria parlamentar, afastar o PS dos acordos com Bloco e PCP e recompor o arco da governação entre o PS e o PSD, revigorando o seu “europeísmo-abertismo”. Em Espanha, este arco “abertista” implica apoiar Rajoy. O assunto torna-se labiríntico no Reino Unido, pois Teresa May votou contra o Brexit, logo é “aberta”, mas conduz o Brexit, portanto é “fechada”. Em França, significaria Macron ou mesmo Fillon. Na Alemanha, significa quiçá Schultz, mas se Merkel ganhar significa Merkel e portanto temos um problema a bordo, que é que a senhora quer austeridade para o nosso cantinho à beira-mar plantado. É o curto-circuito da doutrina da “sociedade aberta”: os “abertos” foram os chefes da austeridade na Europa, foi por eles que sofremos o assalto aos salários, pensões e impostos durante a troika, foram eles que conduziram a União a este torpor e desunião. A má notícia para Portugal seria que o “europeísmo-abertismo” continua impávido e sereno a levar a Europa para parte nenhuma, sob a alegre bandeira do troika forever ao longo dos vinte anos da austeridade com o Tratado Orçamental.

Pela minha parte, desde a crise da Grécia concluí que a União se tornou um projecto falhado. Creio que a simultaneidade do início do processo formal do Brexit e a Cimeira de Roma só ilustra essa constatação: se afinal só sobram as “várias velocidades”, que ninguém sabe o que são, como se aplicam, quem incluem e quem excluem, que os chefes europeus façam pelo menos o favor de não nos maçar com discursos sobre os “valores” da Europa.

Comentários

  1. Releio este e outros artigos no “dia seguinte” a Roma+Brexit, e é de facto claro que até os euro-entusiastas sabem que o projeto falhou. Fico com a impressão que o desânimo dos euro-entusiastas significa que baixou a guarda que sustia o avanço descarado das euro rapinas. Se está impressão for correta os eurocratas que vêm a seguir vão ser caracterizados por mecanismos e processos que num estado normal seriam descritos como de associação criminosa. Pactuar com esse passo seguinte, qualquer que seja o governo da república, só poderá ser julgado como, no mínimo, conivência, e para a História, como traição.

    1. A UE tem muitos defeitos mas continua a haver bicha (ou fila como se diz agora) para entrar – os estados dos balcãs, Ucrania … até a Georgia queria juntar-se. Et pour cause : os fundos comunitarios de apoio ao desenvolvimento representam cerca de 4% do PIB no caso da Polonia ou da Hungria, e nao anda longe disso no caso de Portugal (mais de 100 mil milhoes de euros para Portugal desde a adesao; tem dado jeito convenhamos, embora algum se tenha perdido em esquemas corruptos ou em “p … e vinho verde” como diria Dijsselbloem e se diz em bom portugues), pago bem entendido pelas “aves de rapina” que mandam na Europa. Os novos estados membros beneficiam tambem em grande do investimento das empresas europeias e multinacionais – essas sinistras criaturas do capitalismo internacional – mas que eles muito estimam e aliciam. Nao é facil contentar toda a gente, está visto, mas talvez valha a pena tentar … ?

  2. Algumas questões:
    (1) Em França equaciona-se a reconstrução do eixo franco-alemão. Actores? Macron e Merkel. Para Portugal, o cenário favorito seria Macron-Schulz. O SPD encara como plausível a correcção das políticas ;

    (2) A direita francesa aposta na sobrevivência do Euro, com a equipa Macron-Merkel. Sustenta que a UE é um espaço de progresso social -o PIB per capita cresceu entre 1990 e 2015 cerca de 159%. Claro, que a maioria da população dos povos mais a Sul, especialmente Portugal e Grécia, não sentiu qualquer efeito deste anúncio, pelo menos de forma a que pudesse ser mais suave o choque de 2008. É preciso ainda salientar que na vizinha Espanha, durante o período da crise, os trabalhadores e os pensionistas não sofreram amputações dos seus níveis de poder de compra. Em Portugal sabe-se o que se passou: gentileza do Governo Passos-Portas, ainda em fase de reposição, facto que exaspera a direita e os seus apoiantes. No tocante a Portugal e à França são países desiguais: o limiar de pobreza em Portugal é de pouco mais de 400 euros; em França atinge cerca de 1150 euros; o salário mínimo nacional é de 557 euros; em França o SMIC é à volta de 1200 euros;

    (3) A UE está envolvida num mundo de contradições:

    – Os vinte maiores bancos europeus obtêm cerca de 25% dos seus proveitos em Offshores, os assim chamados países de baixa fiscalidade. Isto é-nos dito pela ONG Ofxam. O Offshore mais destacado, responsável pela obtenção de mais de 85% dos proveitos, é o HSBC(The Hong Kong and Shanghai Banking Corporation). Como é que se podem conjugar estas práticas com os princípios da correcção e harmonização fiscais? O que impede a UE de agir? É de realçar que a maioria dos bancos envolvidos são da Europa do Norte(Alemanha , França e Holanda). Sintomático;

    – Portugal continua a pagar aquilo que não pode pagar. Cerca de 8.000 milhões de juros, embora detenha um saldo primário de vulto(saldo orçamental – juros). O que remete para a ordem do dia uma questão muito divulgada: a reestruturação da Dívida. Nada que a Alemanha não tenha beneficiado no pós-guerra e que, somente em 2014, acabou de saldar por completo a sua dívida.

    No online encontra-se um texto da autoria de Alex Cabral(2013, Fac.Direito, Lisboa) que descreve as cinco fases de construção de uma União Económica e Monetária, de que é exemplo a Europeia:

    (1) Zona de Comércio Livre – a EFTA, é exemplo, então concorrente do Mercado Comum de 1957, como alternativa, de que Portugal fez parte;
    (2) União Aduaneira( O Benelux é dado como exemplo deste tipo de associação);
    (3) Mercado Comum ( o de 1957, Tratado de Roma);
    (4) Mercado Único ou Interno(o saído do Tratado de Maastricht);
    (5) União Económica e Monetária.
    Existem referências a outras zonas monetárias, nomeadamente a dos EUA.

    Pelos vistos, a UE saltou as etapas (1) e (2).

    1. Rectificando: o SMIC(Salário Mínimo) em França é de 1480,27 euros brutos(1466,62 euros em 2016), acréscimo de 14 euros/mês(2 vezes 7 euritos, para que conste e para informação do eurodeputado Francisco Assis, que se interessou, na altura própria, por esta particular questão, os 7 euritos).

      Em França um indivíduo é considerado pobre quando tem rendimentos inferiores a 1008/mês. Uma família com dois filhos maiores de 14 anos recebe 2520 euros(“seuil a 60%). Estes dados estão no online( para confirmação. pesquisar em “seuil de pauvreté 2017” e “smic 2017”).

  3. A riqueza do seu discurso em adjectivos, qualificações, ironia e figuras de estilo é proporcionalmente inversa à pobreza do seu conteúdo, mas não chega para disfarçar o teor meramente destrutivo da sua crítica.
    Acha que a má resposta dada pela UE à questão dos refugiados seria ultrapassada caso o problema fosse lidado por cada Estado, tendo em conta a posição de países como a Hungria ou a Polónia ou a crescente projecção de movimentos anti-emigração, desde o Aurora Dourada ao AfD, e políticos como Farage, Le Pen ou Wilders?
    Será assim tão estranho que os EM da UE que mais devem contribuir para o resgate de outros EM desconfiem de propostas como a mutualização da dívida – que permitiria a estes EM financiar-se a menor custo, mas à conta da subida dos custos de financiamento dos EM com melhores economias -, quando foram as facilidade de financiamento proporcionadas pelo Euro que os levaram a descuidar as suas contas públicas, a sua economia ou o combate à corrupção e à evasão fiscal? Convém não esquecer que o dinheiro dos EM, incluindo aquele que entra nas contas do orçamento da UE e nos resgates de países com problemas, é dinheiro conseguido com impostos pagos pelos contribuintes desses EM. Será assim tão estranho que sejam zelosos com esse dinheiro? Não estamos nós, portugueses, cansado de perceber o que acontece quando o dinheiro público é mal gerido e mal gasto?
    Já percebemos que não concorda com nenhuma das propostas colocadas em cima da mesa. Tudo bem. O que é que propõe, então? O que é que propõem os partidos que não estão interessados no euro e na UE? Sair do Euro? Em que termos? Que implicações teria um novo escudo na economia, nos salários, no poder de compra, no investimento estrangeiro e nos compromissos internacionais assumidos em euros pelas empresas portuguesas e pelo Estado Português? Ou o que propõem é sair da UE? Para além daquelas questões a propósito da saída do euro, o que é que isso implicaria nas relações entre Portugal e ex-EM? Qual o impacto nos direitos dos portugueses que vivem na UE e dos cidadãos europeus que vivem em Portugal? Qual o impacto do ressurgimento de tarifas aduaneiras nacionais? Qual o impacto pessoal, social e económico de descartar 60 anos de harmonização de regras, aproximação de condições de vida, de diálogo e de comércio entre os EM? Qual o impacto do corte com o financiamento que vem da UE?
    Acontece que discutir seriamente essas questões e procurar melhores propostas do que as que são apresentadas é muito mais difícil do que recorrer à retórica para para ficar bem nos jornais e agradar às caixas de comentários. Afinal, o Francisco Louçã é a única pessoa que eu alguma vez ouvi falar na «santa Comissão», ainda que ironicamente, para a diminuir e facilitar a sua crítica. Será que precisaria disso se a crítica fosse contundente?

  4. Ao que parece o Tratado de Roma, na sua versão inicial foi assinado… em branco!. É uma história que mete duplicadores que se perderam em comboios, que cuspiam tinta que punha em risco os frescos da sala (eu nunca vi nenhum cuspir, mas lá em Roma tudo pode acontecer, até milagres…) e senhoras da limpeza que atiraram as folhas que tinham ficado a secar de um dia para o outro (mais uma coisa que nunca vi mas, em Roma, pode tudo acontecer, até milagres) e “stenceis” para o lixo.
    Ora aqui está uma boa história, que é pena que não se repita. O novo Tratado era melhor que estivesse em branco. Assim ainda havia alguma esperança. Mas isto sou eu a discorrer porque sou eurofóbico, que é o contrário, segundo dizem, de ser europeísta. É assim que se dividem os cidadãos desta Europa. Pelo menos na opinião de eurocratas, eurocontentes e europarvos.

  5. Ando há anos pelas ruas de Londres a dizer a milhares e milhares e milhares de pessoas por todos os meios ao meu alcance que precisamos de identificação biométrica das nossas duas palmas das mãos em transportes, passagens de segurança como postos de meter fuél, postos dos serviços postais para enviar ou receber parcelas registradamente tanto no envio como na sua recepção, com selfies em formato de vídeo de um minutinho, para me dizerem que ainda vamos na do dedinho fingerprint de HERMAN e que fácilmente nos troca as voltas mudanto a RTPN para RTPinformação, e notar novo >>LOGO><>Golden Shares<<, vou ali e já venho…

    Será que já estamos mesmo todos lelés e que já toda a gente se esqueceu e ou vai esquecer que uma senhora nos Estados Unidos da América, consegui vinte e seis mil milões de dólares à Indústria Tabaqueira de aqui à atrasado, em Tribunal, que como sabem não funciona nem a carvão, nem a fogão de lenha, nem a tinteiros de impressora…

  6. Goste-se ou não, a melhor forma de interpretar aquilo que se passa é fazê-lo em termos das velhas relações de força. A UE até pode ser um projeto moralmente falhado como diz, mas o que quer que irá acontecer não dependerá muito dos desejos dos Portugueses. Eu observo o arrancar de vestes perante a situação presente por parte da Esquerda da Esquerda, mas ainda não percebi quais as medidas políticas que pretendem implementar para retirar o País do Euro, eventualmente da UE, e reestabelecer aquilo que designam por soberania nacional (aliás, nestes anos todos, a participação de Portugal no processo de integração europeia fez-se sempre com o voto mais que maioritário dos Portugueses, e que eu saiba aí é que reside a soberania, não numa qualquer abstração do Povo). Seria de esperar mais ‘policies’ e menos ‘politics’, ou estão como May a guardar a mão (diz ela e se tiver razão, é de esperar o pior)? Curiosamente, o Economista mais Radical na Esquerda é o Liberal Centeno, porque aquilo que faz funciona, por pouco que seja (e as pessoas notam que a sua vida melhora). Se é para fazerem a triste figura do Syriza, que esticou a corda sem dispor de alternativa, poupem-se os esforços, mais vale colocarmos desde já a cabeça no cepo (aos vencidos convêm-lhes ser dóceis, caso contrário podem ser objeto de ações ditas exemplares). Ouve-se a ideia de uma solução negociada, mas sem que se percebam os contornos do que será essa negociação (onde estamos justamente do lado fraco da corda), que implicaria sempre alguma forma de austeridade, porque ninguém aceita deixar de receber parte do que emprestou sem contrapartidas (e seria bom assumi-lo para não levarem o destino dos gregos ou do pobre do Hollande, que começou cheio de entusiasmo). Se a denúncia da dívida e dos tratados é para ser feita de modo unilateral, então é capaz de ter consequências (http://expresso.sapo.pt/economia/2017-03-25-Gigantes-estrangeiros-assumem-boicote-a-Portugal) e ainda não vi ninguém assumir que Portugal deve deixar de se financiar no estrangeiro, só ouço uma conversa vaga sobre o facto de que os Mercados perdoam rapidamente aos Países que entram em default mas que são capazes de começar a crescer logo a seguir (não foi seguramente assim no caso da Argentina e o fim de zonas monetárias comuns ou mesmo de ‘currency-pegs’ não foi particularmente feliz, como nos ensina a História). Mas, se isto tudo é só uma alavanca para recuperar modelos de economia estatizada há muito falidos (basta ver o triste estado de uma Venezuela ou de uma Cuba que resistem ainda e sempre ao invasor, ou mais ou menos, e deixe lá o pobre do Marcelo que não quis mais do que ir fazer uma selfie folclórica antes que Fidel se juntasse à Revolução no túmulo), tenham por favor a franqueza absoluta de o dizer, para as pessoas saberem no que realmente estão a votar. E não nos venham falar em social-democracia nacional, porque quando fez sentido defendê-la, a vossa via era outra. Chegam portanto demasiado tarde a essa luta para reclamar uma bandeira que antes combateram… Aliás, depois do Syriza, quantos exemplos tivemos da Esquerda da Esquerda ir ocupar o lugar da Social-Democracia? Nenhum, que me lembre… Falência por falência, a do Marxismo é mais antiga e anda o velho (e inútil) fantasma deste, lá do fundo do caixote do Lixo da História, a perorar com a finada social-democracia (que foi sempre o seu inimigo principal). Já o espectro de que fala Putin no encontro com Le Pen, esse é outro que não o do Comunismo, a não ser que acredite que o oligarca de todos as Rússias é na realidade um bolchevista disfarçado…

    1. ”os Mercados perdoam rapidamente aos Países que entram em default mas que são capazes de começar a crescer logo a seguir (não foi seguramente assim no caso da Argentina….)”

      Os mercados nao sao ideologicos e como o caso da Argentina prova em menos de tres anos estavam de volta para nao perderem a oportunidade que outros nao perderam….Esta e a versao do FMI (https://goo.gl/djcbWF) e esta e a outra versao (https://goo.gl/vUnKfi)….leia e decida por si.

    2. Obrigado pelo link Rocha, nunca tinha conseguido encontrar o relatório original do FMI sobre a Argentina, só sobre o México (a mesma estória …). É obviamente como você diz, a saída do euro e o reset do deve/haver monetário é a receita certa para recuperar a sanidade e o progresso económico. Não é só os que estão fora, os nossos catedrático de Economia como João Ferreira do Amaral dizem isso há anos http://bit.ly/saireuro. Continuar no euro é de uma loucura suicida.

  7. O golpe de estado perpetrado contra os resultados eleitorais das eleições gregas de 25 de janeiro de 2015 e o resultado do referendo grego de 5 de Julho de 2015 explicitou a função do Euro como ferramenta de anexação do poder e anulação das soberanias dos Estados face à “corja” que assaltou o poder das instituições da chamada UE.

    Naquela noite da tortura de Alexis Tsípras até à sua rendição ficou claro para todos que o “Império Europeu”, a chamada UE procedia na Grécia à semelhança da União Soviética com Alexandre Dubček a 21 de agosto de 1968.

    O fim do “Império Soviético” começou na Checoslováquia e o fim do “Império europeu” começou na Grécia.

    A partir da Grécia todos reexaminaram a sua posição e daí ao Brexit foi um passo. O logro da chamada UE “da tia rica generosa e solidária” afinal nunca existiu. A declaração de Roma é o reconhecimento, pelos próprios, de que não há união possível!

    A organização da impulsão da falsa e impossível união com dignidade é o último desafio do regresso à Europa dos povos e das nações. Não serão os tecnocratas, lobistas, burocratas, carreiristas, seguidistas e demais oportunistas a ajudar os povos e as nações a lançar-lhes a corda ao galho, muito pelo contrário.

  8. Com os problemas dos outros,posso eu bem,é um ditado bem conhecido,e foi exactamente esse ditado que a europa estupida utilizou em relação á Grecia,para depois pedirem aos gregos é pa,fiquem la com os refugiados,essa maçada,consequencia de tanta arma construida com necessidade de ser vendida e valorizada em bolsa e tal…p.s-boca provocatoria(para alguns,para outros é so humor):o aeroporto da Madeira devia-se chamar Fidel Castro ,porque foi assim que o alberto joão me chamou durante 40 anos(isto é,nasci em Portugal,mas para ele sou cubano,nunca percebi porquê ah,ah,ah,ah)

  9. Calma, almas europeias desavindas, desavisadas, e algumas desalmadas.

    Todos somos europeus, até prova em contrário. Desde os portugueses que se livraram por um triz de ser o Bangladesh da Europa com o governo do PSD-CDS de Passos Coelho de má memória, passando pela ex-Jugoslávia depois da guerra, pela Turquia na proporção daquele bocadito do outro lado do estreito do Bósforo, do tamanho da região metropolitana de Lisboa, diminuída repentinamente pela ascenção do psicopata Erdogan, em caça permanente.

    Até o cronista europeu Rui Ramos, do jornal fascista Observador (ou, por outras palavras que não as minhas, do jornal “populista” Observador), que hoje decretou oficialmente naquele jornal, a “Vingança Indonésia”, aquando da sua saída em 1999, qual “Eurico Guterres, Aitarak das crónicas”, que chegou ao ponto de dizer que o Syriza é o responsável pela crise grega, quando toda a gente sabe que o Syriza veio depois de mais de uma década de governo do PSD da Grécia, já em plena calamidade social.

    Calma. Se é verdade que têm que começar a pensar na divisão da Alemanha novamente em 4 (para o elefante não partir mais louça), do bloqueio de trocas comerciais e de capitais com o centro, norte e leste (por coincidência com ‘línguas malditas’ que só eles entendem no mundo, e hoje atulhados de fascistas), barrando o Mediterrâneo e o Atlântico, com os países do sul, mais a França à rasca, e o UK Brexit (são duas guerras mundiais, não esquecemos disso), não podemos acelerar demasiado, e devemos esperar pelas próximas eleições em França e Alemanha (mesmo que fique tudo na mesma, como previsível), e esperar também por esta Comissão Europeia, que se travestiu de políticos bem pagos, para leiloeiros de ‘5 opções’, mais bem pagos que os leiloeiros da Christie’s.

    Aliás, nem é tempo sequer de contratar já advogados especialistas em divórcios com separação de bens e de dívidas. No entanto é de bom tom começarem a oferecer a estes advogados pequenos estágios, pouco apouco, e se possível perto de termas…

    1. E desculpem se exagerei na veia xenófoba que me rebentou de repente em relação aos povos do centro e do leste (repito, hoje atolados de racistas e xenófobos), e também um pouco aos do norte (no mesmo caminho), mas isso deve-se exclusivamente às “bebidas e ás mulheres” que não me deslargam, principalmente desde as afirmações xenófobas e sexistas do holandês DieselCoiso, em relação aos países do sul, esta semana.

  10. Excelente texto.
    Dúvida: aqui há uns tempos, quem questionasse as loas a Fidel por altura da sua morte era sumariamente colocado na turma do Trump.
    E agora, quem partilha com Le Pen da visão da UE como “projecto falhado” deve colocar-se onde?
    Cumprimentos

    1. Já sabe o que penso: Marcelo Rebelo de Sousa devia ter sido impeachado por se ter reunido com Fidel e quem discordar da senhora Merkel e da santa Comissão devia ser colocado num campo de reeducação, para ouvir lições perpétuas do senhor Dijsselbloem sobre a ética calvinista.

    2. 😀 😀 até nesta riposta você está com a veia caro Francisco Louçã! Que artigo em cheio, na forma, no conteúdo e na fantástica colecção de links ao pensamento de outros. Vou advinhar que está (eu estou :-)!) electrificado pela assinatura da Sra May que por esta altura já estará com um modormo do Conselho Europeu à espera das 12:30. Nesta Europa cada vez mais desequilibrada e burra, este exemplo das ilhas podera’ mais uma vez ser a teimosia que derruba a balança da ditadura, para a qual de outra forma avançamos a toda a velocidade. Hip hip !

  11. A solução para todos os problemas de Portugal na UE é fácil. Não peçam mais dinheiro emprestado. Ponham o país a dar lucro (é só um esforço de 2% ou 3%), arrumando de vez a corrupção que reina cá dentro. Façam lá os aeroportos, TGVs, etc, mas sem andar a pedir o que não se tem. Só precisamos de 1 político honesto e empenhado na causa nacional e não no próprio interesse. Nem isso se arranja…

    1. Adoro o argumento do género: “Façam lá os aeroportos, TGVs, etc” –

      Se nós não construimos nada disso, então porquê esse argumento? Acha que quem vem aqui ler este blog tem 10 anos?Ao ser falaccioso constantemente, você, em si, é uma faláccia!

      Já agora, quem empresta esse dinheiro, tem-no?

      Santa paciência!

    2. Caramba! Nunca pensei que não viver de dinheiro emprestado fosse esquisito. Claramente algumas pessoas se sentiram ofendidas. Caro Ernesto, o aeroporto e o TGV não construímos. Mas fizemos muitas autoestradas e estádios a crédito. Porque as dívidas, segundo Sócrates, “não são para pagar, são para gerir”. Claro, com os outros a pagar os juros, até eu. E sobre a sua pergunta, tenho dinheiro, sim. Trabalho para o ganhar e poupo. E quando acho que posso gastar, gasto. Não vou pedir emprestado. Dá um bocadinho de trabalho, mas consegue-se que uma família dê lucro. E um país também.

    3. Em relação às dividas de Países soberanos, sim, elas gerem-se, e às vezes até são perdoadas mesmo sem os Países em questão se terem portado muito bem(Alemanha).

      Mas não percebeu a minha pergunta. Não perguntei se tinha dinheiro. Isso é-me indiferente. Perguntei se quem empresta o tem?

      Percebeu?

      Se não percebeu, perceberá se, de forma atenta, vir este vídeo:
      https://youtu.be/oDrZo6L55Ec?list=PLqwxvHjjfHIQF1BMdRF5alhuMJk3obY-C

      Para perceber melhor o porquê de estarmos numa UE que é um projecto falhado, e actualmente, fraudulento,e LADRÃO aconselho a ver este:
      https://www.youtube.com/watch?v=8LL1HVkds9Q

      Nota1: Eu não devo nada a ninguém. Nunca tive um crédito, Gasto o meu dinheiro ou pouopo como eu bem entender. Isto em nada me diminui ou glorifica, nem me dá mais “moral” para falar de seja o que for, por isso não me venha com esse argumento bacoco do ” ah e tal, eu trabalho 2 poupo e coiso…” Eu tb trabalho e faço do meu dinheiro o que entender, isto não é ser liberal?!

      Já agora, nós construimos auto estradas para quê?O que demos em troca para receber fundos comunitários?

      Explique isto tudo, e explique o que dizia Merkel para Sócrates fazer aquando do arrebentar da crise! Não seja falaccioso!

      Nota2: O seu comentário, a mim, afectou-me tanto como o busto do Ronaldo. Bolaaaaaaaaa!!!!

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