Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Março de 2017, 12:03

Por

Em Roma já não sobra nada

Djisselbloem parece ser tudo o que a União Europeia tinha para dar. Tem sido ele quem faz, pois é uma marreta de Schauble, que cuida do controlo político sobre o euro através dessa instituição sem regras, o Eurogrupo. É ele, o dogma de uma política económica destruidora. É ele, a transumância política entre socialistas e a direita, nesse nevoeiro em que se tornou a “governança” europeia. Ou, como escrevia Viriato Soromenho Marques, europeísta lúcido, esta gente é a figuração de “um dos problemas europeus, sem remédio aparente, o défice de competência política e o excesso de cabotinismo que reina no fervilhar das chancelarias”.

A esse cabotinismo respondeu António Costa com um ultimato em tempo certo: demita-se, ou o euro não tem futuro. Só que pode parecer ou exagerado ou ambíguo. Se Djisselbloem sair, e vai sair dentro de alguns meses para salvar as aparências, outro virá para um caminho que poderá ser semelhante. O que é que então quer dizer que o euro não tem futuro – é por ter um cabotino à frente do Eurogrupo (a obedecer à Alemanha) ou é por seguir uma política cabotina (que a Alemanha impõe)? No dia da triste festa de Roma, não creio que haja outra pergunta.

Será então que o ministro holandês se limitou a exagerar os seus preconceitos, em contraste com a frieza equilibrante dos burocratas europeus, nada dados a exageros? A experiência diz que não. Afinal, tivemos a Grécia (vendam as ilhas, dizia um ministro alemão). Afinal, temos Guenther Oettinger, o comissário europeu promovido para dirigir o Orçamento e que exigia que os países endividados ficassem com a bandeira a meia haste (além de outras aleivosias racistas). Afinal, temos Juncker, que afirma que a França deve ser isenta das obrigações dos Tratados por ser a França. Se portanto nos perguntamos se Dijsselbloem é simplesmente uma anedota que se pode descartar com o abanar da mão, a prudência pede que se olhe para a floresta e não só para a árvore: o homem foi simplesmente a voz do governo europeu.

Terá sido por isso mesmo que Sampaio já se tinha erguido, aqui no PÚBLICO, contra o caminho do desastre: uma “corrida para o abismo”, com o “ponto de não retorno” do Brexit, tudo agravado pela inviabilidade de 10-15 anos de austeridade impostos pelo Tratado Orçamental aos países periféricos, a que ainda acresce a “gestão desastrosa” da questão dos refugiados e “uma clara acumulação de dificuldades, problemas mal resolvidos e alguns estrondosos insucessos” e, em consequência, “o esboroamento a olhos vistos da confiança na União Europeia, nas suas instituições e nos seus líderes”. O “esboroamento”, nada menos.

Mais, acrescentava o ex-Presidente, isto não vai ser corrigido: “o pior é que, de facto, ninguém parece acreditar que Bruxelas (ou Berlim) tenha qualquer iniciativa nos próximos meses para responder à crise da eurozona, para alterar a ortodoxia financeira dos credores ou para criar as condições institucionais e orçamentais que tornem possíveis programas de reforma nas economias mais frágeis”. O teste está a ser feito na Cimeira que decorre este fim de semana em Roma: haverá palavras de circunstância sobre o atentado de Londres e sobre os 60 anos da fundação, enquanto os cinco cenários de Juncker serão misericordiosamente enterrados e não haverá nada sobre como deve a União superar a desunião e o desprezo pela vida dos desempregados, ou dos trabalhadores, ou dos jovens. Afinal, o dijsselbloismo tem triunfado sem oposição nas cimeiras europeias.

Claro que em Portugal, apesar da indignação espraiada até entre os partidos de direita contra “as mulheres e os copos”, ainda sobrou a brigada conservadora que veio defender Dijsselbloem. Helena Garrido já tinha dito que o chefe dele, Schauble, tinha razão, aliás os chefes têm sempre razão e, se anuncia que vem um resgate, é porque sim e até é um favor que nos faz. Camilo Lourenço, um homem do CDS, alinhou imediatamente com Dijjselbloem, que andava tudo a exagerar e no fundo o homem tem razão.

José Manuel Fernandes reconhece, pesaroso, que a frase é “infeliz”, para logo também concluir que tem razão. Mais ainda, entusiasmado com a ideia, Fernandes ensaia no Observador a sua própria versão do dijsselbloemês, advertindo-nos paternalmente: “a próxima vez que um filho vosso (ou um irmão) que está em riscos de chumbar o ano vos vier pedir dinheiro para ir ‘com a malta’ para ‘a noite’ na véspera de um exame decisivo, passem-lhe logo o cartão do multibanco e o respectivo código, não vá ele acusar-vos de ‘moralismo’ e ‘preconceitos’, talvez mesmo de ‘xenofobia’, porventura de ‘racismo’ e ‘sexismo’. Como sabem, assim ele irá longe na vida”. Este catálogo de pecados é maravilhoso e serve para explicar porque é que Dijsselbloem, no fim das contas, é como o nosso pai quando cuida de nós e não cede à tentação de nos deixar ir para a “noite”. Os conservadores continuam a lastimar a falta do Diabo, que vinha e não veio, e ficam-se por agora pela certeza de que “copos e mulheres” ou os “copos” e a “noite” na “véspera de um exame decisivo” nos levam pelo caminho da condenação aos infernos.

Ainda não perceberam que de inferno sabemos todos muito, vivemos a caminho dele desde que Passos Coelho nos explicou que, com a troika, precisamos mesmo de empobrecer – sem “copos” e sem “mulheres”, diria o presidente do Eurogrupo.

Comentários

  1. Quero aproveitar a ocasião no espaço do Prof. Louçã, para dar os sinceros parabéns à UE pelo seu sexagésimo aniversário! Contra tudo o que se diz e contra toda a verborreia anti-europeia, o facto, é que a Europa nunca teve um período tão longo de Paz. A tão ansiada por Kant, Paz Eterna! A paz perpétua, segundo Kant, trata que o direito cosmopolítico deve circunscrever-se às condições de uma hospitalidade universal. Dessa forma, Kant traz no terceiro artigo definitivo de um tratado de paz perpétua, o facto de que existe um direito cosmopolitano relacionado com os diferentes modos de conflito dos indivíduos e como estes intervêm nas relações uns com os outros. Os supra-estados como a UE, tendo valores fundamentais salvaguardados, como a Liberdade, a Democracia ou o Respeito pelos Direitos Humanos, mesmo sendo desprovidos de militarismo, preservam a Paz Perpétua! A Paz é imposta pelos Valores, Princípios e Direitos e não pela Espada! É um facto Histórico inegável, que até um académico reputado como Louçã olvida constantemente.

    1. Aonio, os “académicos” nunca compraram essa publicidade: há várias correntes, uns dizem que o crédito cabe à NATO, outros, como o badaladissimo Yuval Harari (google) dizem que reflete a existência de armas nucleares. Qualquer que seja a razão, os países da UE não se coíbem de atacar outros, como aconteceu na invasão da Líbia, uma iniciativa franco-britânica. Por fim, há o simples facto de que as guerras são cada vez mais raras em toda a parte – que guerras se lembra nos últimos anos na América do Sul, ou na Ásia, ou na África Austral, ou Oceania? Porque acha que os europeus são incapazes de se portar segundo as normas que o resto do mundo na sua esmagadora maioria já segue sem precisarem de uma UE?

    2. A teoria da NATO não colhe, porque falo de guerras entre os países da UE, que outrora foram muito comuns. A NATO serviu essencialmente para defender o “ocidente” da URSS. Mas a “ameaça” bolchevique data de 1917, e desde então o que não faltou na Europa, foram guerras, aliás a maior delas todas entre 1939-1945.

    3. E as guerras não são cada vez mais raras Jonas! Aliás, o país onde vive, os EUA, desde 1945 que não faz outra coisa que não guerras. Ou quer que lhe cite uma lista?

  2. Isto já é muita conversa, a UE despenha-se, o euro é uma prenda envenenada, devíamos estar a planear a saída com planos B, C, e D. E sim, isto inclui considerações militares: essa “vendam ilhas” devia-nos fazer pensar que vizinhos poderão recair em hábitos antigos. Não sabemos o que vem aí, devíamos prepararmo-nos para tudo. Tenho alguma esperança que entre geringonça e presidente tenham um gabinete a trabalhar nisto. Tenho uma sugestão – involvam a diáspora nos preparativos, somos muitos e regra geral bem integrados.

  3. Ao que parece o Tratado de Roma, na sua versão inicial afinal foi…assinado em branco. É uma história que mete duplicadores que se perderam em comboios, que cuspiam tinta que punha em risco os frescos da sala (eu nunca vi nenhum cuspir, mas lá em Roma tudo pode acontecer…) e senhoras da limpeza que atiraram as folhas que tinham ficado a secar de um dia para o outro (mais uma coisa que nunca vi mas, em Roma, pode tudo acontecer) e “stenceis” para o lixo.
    Ora aqui está uma boa história que é pena que não se repita. O novo Tratado era menlhor que estivesse em branco. Assim ainda havia alguma esperança. Mas istou sou eu a discorrer porque sou eurofóbico, que é o contrário, segundo dizem, de ser europeísta. É assim que se dividem os cidadãos desta Europa. Pelo menos na opinião de eurocratas, eurocontentes e europarvos.

  4. A chamada UE é a mais recente designação da concentração capitalista no continente europeu.

    Não existe, nunca existiu e não existirá uma Europa, um povo europeu, uma nação europeia um Estado europeu e, muito menos, uma cultura europeia.

    A chamada UE materializa-se nos tecnocratas, lobistas, burocratas, carreiristas e arrivistas que, aos milhares, pululam por Bruxelas, Frankfurt e Estrasburgo em nome das instituições económica e financeiras que servem e de que se servem para concentrar o Capital através de fusões, aquisições a pataco, concentração bancária e assalto ao poder desguarnecido dos mais destraidos, incautos ou simplesmente ingenuamente crédulos.

    Aquele molho de criaturas atulhados em “pipas de massa”, como lhe chamou um deles de nome Durão, é a cabeça da víbora que encanta e envenena de morte o Trabalho que empobrece há dezenas de anos nesse “oásis” putrefacto.

    O Reino Unido saiu com os seus negócios, suas forças armadas, suas alianças bilaterais, sua economia, sua moeda, sua independência e seu futuro livre das sanguessugas de Bruxelas, Frankfurt e Estrasburgo. Esta fratura separa águas, sem alterar o processo da concentração do Capital, mas assegurando o controlo de um caminho próprio antecipando-se ao esboroamento descontrolado que antecipam.

    O projeto de construção europeu acabou ou acabará com o fim do anticomunismo, cimento ideológico do europeismo.

    Os equívocos que premacem na Europa ocidental são o corolário dos equívocos que assombram o capitalismo da Europa de Leste. Dissipadas as dúvidas, assumido o capitalismo do Atlântico aos Urais, limpas as ideias dos espíritos entorpecidos pela inércia restará claro o caminho dos povos e das nações que habitam o continente europeu com dispensa total da chamada UE.

  5. Algumas questões:
    (1)O Tratado de Roma focalizava-se sobre a integração económica de alguns países do lado ocidental, nomeadamente as principais políticas comuns ligadas ao comércio, aos transportes e à agricultura. Mais tarde, no período 1985-1995, sob a presidência de Jacques Delors, foi prometido “um modelo social europeu”: o tempo revelou ser impossível conciliar a liberalização das economias com a melhoria da protecção social. Embora o Fundo Social Europeu, criado em 1957, tenha ajudado à reconversão social nas grandes reestruturações dos anos 70, revelou-se, porém, insuficiente. Nos anos 90, o Fundo de Coesão ajudou Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha a fazerem algumas alterações estruturais nas suas economias, mas os fundos alocados, à volta de 74.000 milhões de euros, insignificantes face à dimensão do PIB europeu, foram exíguos. As políticas de redistribuição, tendo em vista a convergência, precisam de mais dinheiro;

    (3) Os Estados mais poderosos boicotaram sempre o avanço das políticas sociais. Condescenderam quando muito num nivelamento por baixo, nunca abdicando das suas próprias soberanias. Em 1997 foi reconhecido como objectivo um “nível elevado de emprego” mas pouco se avançou;

    (4) As consequências dos impasses e das insuficiências:

    – Após a eclosão da crise de 2008, a UE mostra-se impreparada para suster a torrente: aumento brutal das desigualdades; aceleração da destruição dos Estados-Providência; expulsão de cidadãos(perda de emprego e de asilo);
    – Extremismos na Hungria, Polónia, Rep. Checa e Eslovénia. O caso húngaro é revelador: renascimento do espírito da Identidade Nacional;
    -Suspense em França, uma potência europeia e militar, com o Brexit consumado, Putin ameaçador e Trump a abdicar da habitual defesa norte-americana da Europa(a poderosa Alemanha, com os seus brutais excedentes comercial e orçamental que puxe os cordões à bolsa): o que virá do próximo mês de Abril, Le Pen ou o situacionista Macron? E em Setembro, na Alemanha: a retirada de Merkel(e sobretudo do seu ministro das Finanças) ou a chegada do SPD e o alívio prometido nas políticas que agridem o Sul?
    -Aspectos da paisagem europeia: o exemplo de Espanha, com crescimento económico vultoso(mais de 3%), mas a beneficiar só alguns como se constata com a crise a provocar a perda da casa de habitação a 700.000 famílias. Centenas de milhares de habitações vazias(a crise imobiliária e a queda do poder de aquisição das famílias) são alvo de ocupações – conflitos e violência social, desemprego em baixa mas ainda nuns elevados 19% e aumento da precariedade;
    – A débâcle do Euro: endividamento mais elevado dos países do Sul: Espanha(96,4%), Itália(132,8%), Portugal(131%), Grécia(132,8%), dívidas públicas em percentagem dos respectivos PIB´s. A poderosa França, em termos de dívida pública, passou de 58,7%(2000) para 96,4%(2016).

    1. Rectificação:Dívida Pública de Espanha, mais exactamente, em 99,7%, um pouco mais elevada do que a indicada(96,4%).

      Uma adenda:

      De acordo com Thomas Piketty, o avanço das dívidas públicas é observado simultaneamente à prosperidade dos patrimónios detidos pelos proprietários privados. O endividamento público é o mais elevado desde o fim da II Guerra Mundial, afigurando-se difícil alterar este nível de dívida.

      Por riqueza pública liquida entende-se a diferença entre os capitais públicos(os activos públicos, ou seja, os edifícios, terrenos, infraestruturas, carteiras de títulos financeiros, participações em empresas, etc…) e as dívidas públicas. Por riqueza privada entende-se a diferença entre os activos e as dívidas privadas.

      A partir dos anos 70 o movimento de privatizações reduziu os capitais públicos para cerca dos 100% do PIB quando nos anos 30 se situavam à volta de 150%. Os dados actuais apontam para que os capitais públicos sejam negativos nas economias de Grã-Bretanha, Estados Unidos e Japão e ligeiramente positivos em França e na Alemanha.

      Os patrimónios privados(riqueza privada – dívidas privadas) têm crescido de forma espectacular, representando em 2015 cerca de 6 vezes os PIB´s nos países mais desenvolvidos, devido principalmente às privatizações de bens públicos, à alta dos preços do imobiliário e à crescente urbanização.

      A História indica que os grandes momentos de transformação se verificaram quando se deram grandes alterações na posse da propriedade -vide Revolução Francesa(nobreza feudal versus burguesia ) e a Guerra Civil Americana(precursora da Nação Americana e posterior criação da Federação de Estados).

  6. E andaram os Aliados a libertar a Holanda, para depois virem estes DjisselCoisos, e outros extremistas neoliberais pré-fascistas (principalmente os actuais PSD-CDS, incluídos, no que nos diz respeito, que usam a exactamente a mesma linguagem, por outras palavras, “lamechas”, “gastadores”,”malandros”, etc), racistas, xenófobos, sexistas, ladrões de impostos In-Shore, e abusadores de mercado interno e extra-UE.

    Já foi tempo em que eu proponha novamente a separação da Alemanha em 4, uma vez que todo o apoio a esta gente vem daí, incluindo os países de leste, hoje totalmente atolados com fascistas e cavaquistas subsidiados alienadores de património, uma vez que hoje a Alemanha não está a cumprir, nem de longe, os pressupostos da Conferência de Postdam, nem sequer o próprio Acordo de Reunificação, como referem e bem os partidos de oposição alemães, caso os alemães continuem a votar nos mesmos ou ainda mais á direita, mesmo que disfarçados de “trabalhistas holandeses”, como o DjisselCoiso.

    É tempo de começar a pensar, e antes de começarem à chapada e coisas piores, no próprio bloqueio destes países ao Mediterrâneo e ao Atlântico, unindo não só os países do sul, mas também o UK Brexit, e a França já a “escorrer”, com a fascista Le Pen e o Macron-Ciudadanos-Alemão, e com os terrenos agrícolas abandonados que não acontecia desde as guerras napoleónicas.

    1. E mais uma vez peço desculpa, por mais uma vez me esquecer de algo, mas importante:

      Este ataque aos refugiados do médio-oriente e norte de África (adoptado também pelo “Conservador”, entre aspas, que ganhou na Holanda), das guerras que estes neoliberais, com Durão do Iraque á cabeça (e outros como o Sarkozy, Merkl, Berlusconi, etc), que vêm exactamente a fugir destes terroristas dos ataques recentes, numa ínfima parte dos refugiados acolhidos pelos países vizinhos destas guerras, só servem para disfarçar o que escrevi antes, e dar adrenalina á calejada extrema-direita europeia, aquela que ‘mete no bolso o próprio’ o amador fascista Trump.

  7. Oa andaimes e coletes de força do neoliberalismo e seus mercenários são patentes há muito, e extravasam a UE. Se isso se discute mais agora, pela evidência das suas consequências (incluindo o terrorismo), permanece por apontar a dedo que o capitalismo financeiro internacional vai nu (mais os seus tentáculos nos MBAs nacionais louvados pelo FMI — não são todos mas sabemos quais).

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