Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Março de 2017, 07:46

Por

Inocência por incompetência?

Tinha mesmo que vir: o argumento da inocência por incompetência era o que sobrava aos anteriores ministros PSD-CDS quando confrontados com o Nunciogate. Maria Luís Albuquerque anda fugida dos microfones, o que nem é hábito dela, mas Assunção Cristas enterrou-a sem piedade, quando perguntada sobre se ainda concorda com a resolução do BES tal como ocorreu:

“É uma pergunta difícil, porque, mais uma vez, volto a este ponto, nós não discutimos os cenários possíveis no Conselho de Ministros. Aliás, a resolução do BES foi tomada pelo BdP e depois teve de ter um diploma aprovado pelo Conselho de Ministros. É aí que critico um bocadinho esta coisa de não termos nada que ver, o Conselho de Ministros não tem nada que ver, mas no fim da história é ele que tem de aprovar o decreto-lei. Esse decreto-lei foi aprovado com uma possibilidade regimental que era à distância, electrónica. Eu estava no início de férias e recebi um telefonema da ministra das Finanças a dizer: ‘Assunção, por favor vai ao teu email e dá o OK, porque isto é muito urgente, o BdP tomou esta decisão e temos de aprovar um decreto-lei.’ Como pode imaginar, de férias e à distância e sem conhecer os dossiers, a única coisa que podemos fazer é confiar e dizer: ‘Sim senhora, somos solidários, isso é para fazer, damos o OK.’ Mas não houve discussão nem pensámos em alternativas possíveis — isto é o melhor ou não —, houve confiança no BdP, que tomou uma determinada decisão.”

Assunção Cristas “critica um bocadinho esta coisa de não termos nada que ver” e depois se aprovar um decreto-lei, mas “a única coisa que podemos fazer é confiar” sobretudo se estamos em férias e “sem conhecer os dossiers”. Claro que “não houve discussão nem pensámos em alternativas possíveis”. É delicioso, é uma forma de governar que tem uma leveza que é toda CDS, “sim senhora, somos solidários, isso é para fazer, damos o OK”.

A teoria é então esta: nunca se discutiu em Conselho de Ministros nada sobre a banca, Passos Coelho entendia que isso era só com o governador do Banco de Portugal, que tinha reempossado. “Não me recordo de todos os detalhes, mas posso dizer-lhe isto garantidamente: nunca os temas da banca foram discutidos em profundidade em Conselho de Ministros”, acrescenta a líder do CDS. Em “profundidade” nem pensar. E explica: “Fazia parte da visão do primeiro-ministro. O primeiro-ministro sempre teve uma visão que é esta: a banca e o pilar financeiro do resgate eram tratados pelo Banco de Portugal (BdP), que tinha as funções de supervisor independente, e o Governo não deveria meter-se nessas questões. Esta foi sempre a visão do primeiro-ministro.” Conclusão final: “Portanto, o Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca” e “discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu.” Nunca, nunca, repete. Recapitalização da CGD? Nunca. Outros bancos? Nem pensar. A ministra das finanças era um túmulo. O coitado do Núncio só teve que fazer o contrário do que sempre defendera, aumentar os impostos, o que lhe foi “muito doloroso”. De banca, nada, nunca.

O argumento da inocência por incompetência tem no entanto um risco e quero avisar disso a ex-ministra. É que por vezes, pelo menos algumas vezes, as pessoas não gostam de ser tomadas por parvas. Houve então um Conselho de Ministros de um país que estava controlado pela troika, que tinha um programa para a recapitalização dos bancos com 12 mil milhões, e que só usou cerca de metade. Mas todos os grandes bancos estavam sem capital, ou seja, estariam falidos se não houvesse essa nacionalização indirecta e provisória. Em quase todos os bancos multiplicava-se evidência de jogos especulativos e movimentos suspeitos em offshores. Os prejuízos do BPN e do BPP acumulavam-se nas contas públicas. Mas o governo não registava ou não queria saber de movimentos internacionais de capitais e um dos maiores bancos estava em colapso – mas “discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu,” por que haveria de “acontecer”?

O facto é que o governo PSD-CDS, sabendo o que fazia, escolheu para Secretário de Estado um advogado especialista em transferências para offshores e deu posse a um governador do Banco de Portugal que lhe adiou a resolução do BES até depois da “saída limpa”, mesmo com o risco de permitir as fraudes de um aumento de capitais e de venda de produtos do Grupo aos depositantes. Sabemos agora que, por milagre, isto sim é um milagre, as transferências que não foram inspeccionadas pelas finanças eram quase todas do BES no ano da sua falência, quase todas para o Panamá e para o Dubai, e que muitas eram da empresa para a qual Núncio trabalhara, tudo uma coincidência cósmica. Mas não, o governo ter uma “discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses” isso nunca, nem pensar, cruzes canhoto. Eram só 80 mil milhões de euros de depósitos, que sentido teria discutir o “problema”?

Pois, o governo está inocente por ter sido incompetente. Não queria saber, não queria resolver. Hoje Assunção “critica um bocadinho esta coisa de não termos nada que ver”, mas “a única coisa que podemos fazer é confiar”. E digam-me lá os leitores se não é de “dar o ok”?

 

Comentários

  1. Depois da UE ter proclamado o fim do TINA. através do Livro Branco, onde o referido TINA é simplesmente uma das cinco alternativas ou velocidades, os escombros da governação do período 2011-2015 são cada vez mais visíveis. Afinal, existem alternativas…agora temos cinco em vez de uma única: os tempos são duros, Trump, Brexit, Putin a crescer…e a UE sem conseguir arrumar a casa, após a crise de 2008, tarefa que os EUA já deram por finda há alguns anos. Consequências da má arquitectura do Euro?

    Portugal, de acordo com Passos Coelho e proferido o propósito no auge do TINA, poderia ser uma economia das mais dinâmicas da Europa, longe de aeródromos imaginários e tecnoformas complexas, uma outra Singapura…

    O processo de clarificação da questão dos offshores, cujo principal protagonista é Paulo Núncio, desencadeou algumas reacções da líder do CDS/PP, Assunção Cristas: a banca, disse, era assunto que não prendia a atenção da governação Passos-Portas – “fazia parte da visão do primeiro-ministro…”. O máximo de consciência possível que Passos e seus ministros alcançavam era, pela aprovação de um decreto-lei, confiar. E tudo a andar, offshores, bancos a falir ou com sérios problemas…foi o que se viu: BPN, BPP, BES, BANIF, CGD…

    Uma tragicomédia… que os contribuintes lamentam e sofrem na pele. E a Dívida Pública, em finais de 2016, a representar cerca de 130% do PIB. O serviço da Dívida – os juros que pagamos – correspondem a perto de 5% do PIB, cifrando-se em aproximadamente 8.000 milhões de euros, verba que dá para financiar UM ANO de funcionamento do Serviço Nacional de Saúde. É neste ponto que nos encontramos.

  2. Essa Senhora da Assunção tem uma grande lata.

    Na assembleia da República a palavra mais conhecida dela é ” mentiroso “quando se refere a António Costa mas devia ter vergonha,pois a palavra que ela devia mais usar era incompetência.

    Os Portugueses nao são parvos…

  3. Gente muito responsável esta da nosso direita PAFiana, que trata com tanta ligeireza magnânima as dezenas de milhões dos poderosos, mas com encarniçada determinação persegue as cabeleireiras e cafés que não passam a faturita de cêntimos.
    Este PAFiano Núncio dos offshores bilionários, foi o mesmo que numa quinta à noite ordenou aos cafés o fim da utilização de um programa informático até segunda-feira, apesar da óbvia impossibilidade de o fazerem em prazo tão curto.

    Mas a direita portuguesa é responsável: ai do ministro da Saúde ou da Segurança Social que gaste mais um cêntimo a salvar pessoas ou tirá-las da pobreza, e a impedir que esse cêntimo vá para os amigos bilionários. Ele que se atreva, que ainda lhe vão ao telemóvel vasculhar os sms.

  4. De politiquice começamos a ficar um pouco fartos. Antes da Geringonça acreditava-se que BE e PCP não fechavam os olhos e a boca no Parlamento. Agora passa tudo dentro da mesmíssima política de Centro, isto é, de Estado Capitalista liberal.
    O que nós desempregados sem subsídio de desemprego e pensionistas que são considerados ricos se tiverem uma pensão de 600,00 e que antes, sendo portadores de doenças crónicas e que antes estavam isentos do pagamento de taxas moderadoras nos serviços de saúde, agora seja doente ou não estamos sujeitos. Ou seja, deixei de poder ir aos médicos, fazer análises e exames, não importa ter tido dois enfartes de miocárdio, ser doente crónico de apneia do sono, ter efizesmas pulmonares, gastrite e ser doente psiquiátrico crónico que só em medicamentos de toma diária obrigatória, 9 comprimidos para além das bombas, sprays nasais e ventilador, custa o que se pode imaginar.
    Na prática em que é que o governo do PS com o apoio dos partidos de esquerda veio beneficiar quem nada ou pouco tem? Em nada, pelo contrário, a situação é pior, para mais que a inflação está a subir significativamente, incluindo bens e serviços de primeira necessidade.

  5. Parece-me importante realcar: “o CDS foi sempre, no Governo e antes na oposição, um partido muitíssimo activo e na linha da frente do escrutínio da actuação da supervisão bancária.”, que mesmo nos meandros de hipocrisisa a que a politica nos tem habituado deixa de ser escandaloso para passar simplesmente a ser triste e imoral. No Hospital de Braga a lista de espera para uma neurocirurgia muito prioritaria sao 33 dias. Entretanto, rouba-se dinheiro de um sistema empobrecido, necessitado, com uma populacao a sofrer, e brinca-se as retoricas sem o minimo interesse pela desgraca dos muitos Portugueses e Portuguesas que nos rodeiam. Este e o pior tipo de pessoas. A pior estirpe, a mais reles, a que funciona por ganancia e interesse proprio e aparece a dar entrevistas com sorrisos na cara e discursos de solidariedade e compaixao, valores que eu nem sei bem se conhecem.

  6. Uma vez que o PSD-CDS entraram agora e oficialmente na fase da ‘Vitimização Pós-Amuo’, eu voto na “inocência”, para não me acusarem de estrangular a democracia, nem ser comido pelo famoso ‘Diabo’, que eles dizem que anda por aí…

    Por mim, podem errar á vontade, que eu não os critico, desde que não tenham acesso ao poder – os portugueses já sabem destes actuais extremistas neoliberais do PSD-CDS – como é óbvio, não vá o Diabo tecê-las, mais uma vez…

  7. A Sr.ª Cristas escolheu agora ter sido “verbo de encher” ou “figura decorativa” no governo PSD/CDS em que participou para destruição da economia portuguesa, empobrecimento de quem vive de rendimentos de trabalho e alienação dos negócios, meios de produção, mercados e know how, do Estado português.

    Não há inocência alguma na versão adolescente de Cristas. Há hipocrisia, cobardia, deslealdade e mentira!

  8. E, então ,quando adoptarem o estilo governativo twitteriano ,é que iríamos assistir a um regabofe, se ainda houvesse alguma provisão do resto de recapitalização da CGD e se os portugueses lhes conferissem a maioria em eleições, lá por 2020,claro.Até lá, vamos continuar a assistir aos patéticos apelos para revelação dos e-mails de Centeno e ás cândidas e comprometidas declarações de Passos Coelho ,que vai jurando ser ele o primeiro a querer ver tudo esclarecido no caso dos offshores.A dois meses da visita do Papa, deveria ser tentado por Marcelo, na qualidade de anfitrião, o convencimento de Francisco a prolongar a estadia para perdoar tantas ofensas por incompetência e dolo ,por actos e omissões, que nem lembram ao diabo.

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