Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

5 de Março de 2017, 18:40

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A zona euro vai finalmente crescer?

Num editorial da passada sexta-feira, o Financial Times defende que o BCE deve continuar com o programa de expansão quantitativa (compra alargada de activos) para suportar e, não matar, a “convalescença” económica na zona euro, apesar da taxa de inflação ter crescido, em Fevereiro de 2017, a uma taxa anualizada de 2% (precisamente o limite do mandato imposto ao BCE), com o crescimento económico de 1,7% e a criação de emprego ao ritmo mais rápido da última década. O Financial Times critica inclusive a redução da dimensão do programa de compra de activos, de 80 para 60 mil milhões de euros por mês, a partir de Abril de 2017. E argumenta que se se excluir o efeito do aumento dos preços dos combustíveis, a inflação na zona euro cai para 0,9%.

No mesmo editorial, numa crítica nada subtil à posição recente de Wolfgang Schäuble e Angela Merkel, argumenta-se que a política monetária da zona euro tem de ser muito agressiva devido à crónica insuficiência da procura agregada alemã. Ou seja, ao contrário do que defendem os seus actuais governantes, a Alemanha regista excedentes externos, em larga medida, porque reprime a procura interna (consumo e investimento), nomeadamente, restringindo o crescimento dos salários e das pensões.

O editorial defende, porém, que seria mais adequado recorrer à política salarial na Alemanha, do que à política monetária agressiva do BCE. Por conseguinte, também o FT “não compra” a argumentação de Merkel, Schäuble e do seu economista chefe, Ludger Schuknecht. Num artigo na revista americana Politico, Ludger Schuknecht defende que a solução para os problemas da zona euro é mais “competitividade” da qual resulta o “dinamismo” que permite crescimento equilibrado e criação de empregos, sustentando em particular que: países como Portugal e Grécia devem continuar as (nossas bem conhecidas) “reformas estruturais”, e melhorar a sua competitividade pois, dá a entender, só assim seriam capazes de exportar mais para a Alemanha.

É de notar que quase toda a Alemanha política, da direita à esquerda do Die Linke (equivalente ao Bloco de Esquerda de Portugal), “compra”, pelo menos em parte, esta argumentação: os excedentes comerciais normalizar-se-ão com o tempo; e transferências orçamentais para países como Portugal ou Grécia não funcionam, não só porque enfrentariam resistências políticas na Alemanha, como também porque se tornariam em transferências orçamentais sem fim à vista (e, subentende-se, em “má” despesa pública nesses países).

Esta visão generalizada do problema pelos vários quadrantes políticos da Alemanha, representará um enorme desafio no desenho de novas políticas europeias, no pós-Schäuble/Merkel que se avizinha.

O editorial do Financial Times alerta ainda para o facto de, em 2008 e em 2011, o BCE se ter precipitado a “normalizar” a política monetária, aumentando as taxas de juro, e “matando” o crescimento económico incipiente que se verificava na altura, sugerindo ao BCE muita cautela no processo de “normalização” da política monetária da zona euro.

Esta é uma discussão extremamente importante sobre a política económica da zona euro.

Nos últimos meses, parecia que o balanço de forças no Conselho do BCE se teria movido, em alguma medida, contra Mario Draghi e a favor de Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, que sempre se opôs ao programa de compra de activos e taxas de juro baixas.

O editorial do Financial Times sinaliza apoio à política monetária de Draghi, i.e., em prol do crescimento económico, não apoiando assim a estratégia de austeridade da zona euro seguida até aqui.

Por um lado, o reconhecimento alargado de que o PIB da zona euro somente em 2015 atingiu o nível de 2008 e que a taxa de desemprego da zona euro continua próxima de 10% e acima do nível registado em 2008.  … e, por outro lado, a resistência de países credores da zona euro a qualquer alívio da austeridade imposta pelo tratado orçamental bem como uma relutância em abordar soluções aos problemas das dívidas públicas e externas, não aconselham, de facto, uma “normalização” da política monetária do BCE.

Embora este debate não esteja de todo concluído, as vozes em prol das políticas expansionistas parecem ter a ascendência: afigura-se provável que o programa de expansão quantitativa continue em 2018; mas também podem vir a ser desenhadas políticas públicas europeias que visem, na frente orçamental, promover maior crescimento económico, nomeadamente através do aumento do investimento. Ou seja, perspectivam-se políticas económicas com um impacto positivo significativo no crescimento económico, no emprego, nas contas públicas e ainda nas contas externas portuguesas.

Em suma, parecem ser boas notícias para Portugal e para os portugueses.

Comentários

  1. (1) A subida das cotações do petróleo que, em pouco tempo, passaram o preço do barril de 28 dólares para 55 dólares tem muito a ver com os 2% da inflação em Fevereiro. A inflação subjacente, que exclui os preços da energia, situa-se em 0,9%, no mesmo nível anterior. As tarifas da energia subiram 8,1% em Janeiro e 9,2% em Fevereiro. Ou seja: a inflação não aumentou devido a subida de salários, a exemplo do que aconteceu nos EUA. De qualquer forma, o poder de compra das famílias é afectado;

    (2) Os alemães mostram-se críticos da política de taxas de juro nulas do BCE devido aos problemas causados nas poupanças que atingem neste país mais de 5.000 mil milhões de euros, ocasionando uma perda prevista de 100 mil milhões de euros para 2017. A população alemã mostra-se preocupada com a situação, tendo em vista o problema da poupança como reforço da protecção social, num país demograficamente envelhecido. As taxas de juro, negativas, não se coadunam com a inflação de 2%, embora a inflação subjacente permaneça nos 0,9%, o que divide os analistas, sendo preferível a manutenção da mesma política de expansão do BCE.

    (3) Deve-se contar com o desfecho das eleições de Setembro próximo.
    Se a Alemanha libertar os excedentes comerciais, que violam os limites fixados na UE, a procura interna sobe
    por efeito do aumento de salários e pensões.

    (4) RESUMO

    – O problema das poupanças parece ser o principal motivo do descontentamento alemão;
    – As eleições clarificarão a situação;
    – Os preços da energia continuarão a subir?
    – Se a Alemanha colocar os excedentes comerciais(pelo menos os situados acima do limite imposto de 6%) a
    inflação subjacente subirá. E o crescimento económico terá maior probabilidade de ocorrer na UE.

  2. Quem nao aprende com a historia está condenado a repeti-la. Esperemos que desta vez a “boa nova” do relançamento economico atraves da despesa publica (e mais divida publica) nao resulte em nova crise da divida soberana como a que tivemos em 2010; e que -especiamente no caso de Portugal – nos poupe a investimento em mais elefantes brancos a acrescentar aos que ja abundam no país e que nos sufocam de impostos e nos condenam ao empobrecimento.

  3. É só coisas boas que aí vêm… São uns líricos patuscos, os tugas… Ainda não perceberam que quando Wolfgang Schauble diz que Portugal vai ter outro resgate, isso significa mesmo que Portugal vai ter outro resgate. E não vai ser como o de 2011, ah isso podem crer!

    1. Ah boa! Portugal vai ter um novo resgate porque o Schauble quer que sejamos resgatados. Mas não um resgate qualquer! Agora vai ser um resgate à homem!
      Vá fazendo figas que pode ser que o Diabo o ouça.

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